Uma vitória contra o próprio fantasma
Análise · Marcos Tibúrcio Havia um abismo à espreita em Santiago. Quatro jogos, quatro derrotas.
Análise · Marcos Tibúrcio
Havia um abismo à espreita em Santiago. Quatro jogos, quatro derrotas. O vôlei brasileiro, habituado ao pódio e à soberba, olhava para o fundo do poço. A campanha no Mundial Sub-17 não era apenas ruim; era um flerte com o vexame histórico, com a mancha indelével de ser a pior da história. Foi nesse cenário de terra arrasada que as meninas de Dentinho entraram em quadra contra o Japão.
Não era uma final. Não valia medalha. Não garantia manchete gloriosa. Era uma partida para disputar do 17º ao 24º lugar. Uma briga na rabeira da festa, longe das luzes. Para quem veste a camisa amarela, um purgatório. Mas ali, no National Stadium Park 02, o que estava em jogo era a única coisa que restava: a dignidade.
O primeiro set foi um resumo da ópera trágica da semana: 25 a 27. Outra vez, o quase. Outra vez, a beirada do precipício. Mas algo mudou. Talvez o peso da vergonha iminente seja um combustível mais poderoso que a sede de glória. Catarina Harzbecker no levantamento, Luiza Queiroz na saída de rede, Vic Martini e Meilani nas pontas — elas pararam de jogar contra o Japão e começaram a jogar contra o próprio fantasma.
A virada veio na força. Onze bloqueios contra cinco. Cinco aces a zero. O Japão, metódico, vivia dos erros brasileiros, e foram muitos — 34 pontos entregues de graça. Mas nos momentos em que a bola precisou cair na quadra de lá, ela caiu. 25/22, 25/21, e um 25/14 final que soou menos como um placar e mais como um desabafo. Um grito de alívio.
Agora, o caminho segue por uma chave de consolação, contra o Chile. Uma disputa que ninguém sonha em jogar. A vitória não apaga as quatro derrotas, não reescreve a campanha claudicante. Mas ela impede o pior. Impede que uma geração de atletas carregue para sempre a pecha do fracasso absoluto. Às vezes, a maior vitória não é levantar um troféu. É simplesmente não deixar a casa desmoronar.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasil Sub-17 Feminino de Vôlei vence Japão no Mundial do Chile
Fonte: ge