Rede social revela novo talento do futebol no Tocantins
História inspiradora de um jovem tocantinense que transformou o Instagram em passaporte para realizar o sonho de jogar futebol profissionalmente.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um mapa do futebol brasileiro que não está nos livros de tática. É um mapa de estradas de terra, de ginásios com goteira, de mensagens de celular que mudam destinos. Anna Júlia dos Reis, fixa, 20 anos, acaba de colocar Colinas do Tocantins nesse mapa. Ela soube que vestiria a camisa da Seleção para um Sul-Americano da única forma que o século XXI permite: viu o próprio nome numa postagem de Instagram, quando saía para almoçar.
O futebol de salão, esse primo pobre e genial do esporte das multidões, vive dessas histórias. Ninguém vira jogador de futsal sonhando com a vida de um astro europeu. Vira-se por teimosia. Por uma bola que teima em obedecer sob a sola da chuteira. Começou assim para a menina de Colinas, aos 15 anos, num projeto de nome quase profético em Araguaína: "100 Limites".
A jornada, depois, é o roteiro clássico do jogador brasileiro. Sair de casa. Pegar o ônibus para longe. Trocar o norte do país pelo sul, uma mensagem de um professor do Paraná bastou para levá-la ao Stein Cascavel. É o exílio que forma. É a distância que tempera o talento. O futsal não paga com glória imediata, paga com a promessa de um dia como este: o nome na lista, o escudo no peito, o hino antes do apito.
Quando Anna Júlia diz que realiza um "sonho meu e da minha família", ela não usa uma frase de efeito. Ela descreve a energia que move cada campinho e cada quadra deste país. O sonho não é só do atleta. É da mãe que lava o uniforme, do pai que arranja dinheiro para a passagem, do primeiro técnico que aposta quando ninguém mais vê. A convocação não é um ato solitário; é a colheita de uma lavoura inteira.
A técnica Bebel, ao chamá-la, talvez não tenha pensado em tudo isso. Escolheu uma fixa que sabe defender, uma atleta pronta para o desafio na Venezuela. Mas há sempre mais do que a tática em jogo. A camisa do Brasil, mesmo numa categoria de base, num torneio que o grande público mal acompanha, ainda carrega um peso que transcende o esporte. É a prova de que o mapa do futebol, afinal, não tem fronteiras. Que o talento pode brotar em qualquer lugar. Mesmo que a notícia mais importante da sua vida chegue num celular, numa tela fria, pouco antes do almoço.
Resta saber se o brilho de um Sul-Americano Sub-20 é o fim do caminho ou apenas o começo de outra estrada, mais longa. Por ora, uma família no Tocantins celebra. O mapa do Brasil tem um novo ponto de luz.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge