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Mosquitos transmitem vírus WNV no quintal

Cientistas alertam sobre a presença do vírus WNV, transmitido por mosquitos comuns, que pode causar doença em humanos e aves. Entenda os riscos.

Mosquitos transmitem vírus WNV no quintal
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

O zumbido é familiar. É o som das noites quentes no Brasil, a presença insistente do pernilongo comum, o Culex, que ronda o quarto depois que a luz se apaga. O que é novo é o passageiro que este velho conhecido pode carregar. Com quatro casos confirmados da Febre do Nilo Ocidental em agosto, dois em São Paulo e dois em Santa Catarina, um vírus que parecia distante, coisa de noticiário internacional, aterrissa em nosso cotidiano.

Identificado pela primeira vez em 1937, em Uganda, o vírus do Nilo Ocidental é um cosmopolita. Pertence à família dos flavivírus, um clã notório que inclui os agentes da dengue, zika e febre amarela — todos nomes que já fazem parte do nosso vocabulário sanitário. A sua capacidade de dispersão, como explica o infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Unesp, está nas asas de aves migratórias. Elas são o reservatório natural. O mosquito pica a ave, se infecta, e então pica um humano. Somos hospedeiros acidentais nesse ciclo que une continentes.

O susto inicial diante de um nome novo pode ofuscar a realidade epidemiológica: para a maioria esmagadora das pessoas, a infecção será assintomática ou se manifestará como um quadro viral leve. A preocupação da vigilância em saúde se concentra na pequena parcela de casos que evolui para formas neurológicas graves. É o que se observa na morte de uma paciente em Santa Catarina, ainda sob investigação para determinar se o vírus foi a causa direta do óbito. É nesse um por cento que a medicina de alta complexidade e a saúde pública são testadas.

A chegada do vírus do Nilo Ocidental não é tanto uma surpresa quanto uma confirmação. Em um mundo interligado, vírus viajam. Seguem rotas de comércio, de turismo e, como neste caso, rotas migratórias ancestrais. A questão nunca foi se novos patógenos chegariam, mas quando e como os detectaríamos. Os quatro casos confirmados, com um quinto em investigação no Piauí, indicam que nosso sistema de vigilância funciona. Ele capturou os sinais. O que ainda não sabemos é a real dimensão da circulação do vírus no território. Estes casos são a ponta de um iceberg ou focos isolados e contidos? A resposta ainda está no ar.

Mais do que o Aedes aegypti, o vetor aqui é o Culex, o pernilongo que "faz barulho", como descreve Barbosa. É um detalhe técnico com uma implicação imensa. Ele nos força a olhar para além das campanhas focadas em água parada em pneus e vasos de planta, e a pensar em um ecossistema mais amplo, que envolve aves, diferentes espécies de mosquitos e a nossa própria presença como elemento acidental.

A febre amarela nos ensinou sobre o ciclo silvestre que, eventualmente, transborda para o urbano. A dengue nos tornou especialistas em um mosquito doméstico. O que este vírus viajante, trazido por aves e entregue pelo mais comum dos pernilongos, tem a nos ensinar?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil confirma 4 casos de Febre do Nilo Ocidental em agosto

Fontes: g1 · BBC News Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.