Trump e a montanha que fala
Análise · Clara Verdi O teatro do poder precisa de um palco visível, de um objeto concreto sobre o qual projetar a potência e a fúria.
Análise · Clara Verdi
O teatro do poder precisa de um palco visível, de um objeto concreto sobre o qual projetar a potência e a fúria. Para Donald Trump, esse objeto agora é uma montanha. A ameaça de atacar Pickaxe, no coração do Irã, “muito em breve”, não é apenas o anúncio de uma operação militar; é a nomeação de um inimigo geográfico, a transformação de um relevo em personagem. A montanha, que esconde em suas entranhas o programa nuclear iraniano, torna-se um monstro a ser abatido, um Leviatã de pedra e túneis que desafia a autoridade americana.
A retórica não é nova. Há uma semana, a mesma montanha já era o alvo designado em entrevista a uma rádio conservadora. A repetição transforma a ameaça em espetáculo, em um episódio de série anunciado com antecedência. A imagem, que já existe nos satélites da Vantor e nos relatórios da inteligência, passa a existir no imaginário público: a montanha fortificada, impenetrável, guardiã de um segredo atômico. Para destruí-la, são necessárias armas que também parecem saídas da mitologia: as bombas perfuradoras, as antibunker, desenhadas para violar a terra antes de explodir seu núcleo.
O que se oculta sob a montanha de Pickaxe é precisamente o ponto. Os túneis, escavados para resistir a ataques que já ocorreram — conduzidos por americanos e israelenses —, abrigam o talvez. Talvez os equipamentos essenciais para o enriquecimento de urânio, talvez a prova material das intenções iranianas que, oficialmente, permanecem pacíficas. O bombardeio, portanto, não seria apenas um ato de guerra, mas um ato de revelação violenta, uma escavação forçada em busca de uma verdade que justifique a própria violência que a desenterra. A montanha não esconde apenas centrífugas; esconde a ambiguidade que sustenta o conflito.
Ao dar um nome e um prazo à destruição, Trump desloca a complexidade da diplomacia nuclear para o terreno da força bruta e da narrativa simples. Não se fala de acordos ou de inspeções, mas de “eliminar” uma formação geológica. É uma política que se comunica por meio de alvos, não de tratados. A montanha, silenciosa e imóvel a 300 quilômetros de Teerã, é forçada a falar a língua do poder americano — a língua das crateras e dos tremores. E o que ela dirá, depois do ataque, talvez importe menos do que o fato de que foi obrigada a se pronunciar.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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