Pesquisa BTG revela três pontos que preocupam o Planalto
Análise de Luciano Aragão sobre levantamento que mostra números incômodos para o governo federal.
Análise · Luciano Aragão
A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta semana tem um número que o Palácio do Planalto prefere não celebrar em voz alta: três pontos. É a distância que separa Luiz Inácio Lula da Silva, presidente em exercício com toda a máquina federal na mão, de Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro que ainda não confirmou candidatura e carrega o sobrenome como único patrimônio político mensurável. No segundo turno, 47% a 44%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
O primeiro turno dá a Lula 42% contra 34% de Flávio. A diferença ali é mais confortável — oito pontos —, mas o que importa é o que acontece no caminho entre os dois turnos. Alguém chega ao segundo turno carregando rejeição. E a pesquisa registra que 51% dos entrevistados rejeitam voto em Flávio; 49%, em Lula. Ou seja: o presidente tem rejeição ligeiramente menor, mas o gap é de um ponto — também dentro do erro amostral. Os dois chegam ao segundo turno, nesse cenário, como candidatos que mais da metade do eleitorado não quer.
Esse é o retrato de uma democracia que não escolhe por entusiasmo, mas por exclusão. Não é novidade brasileira — é o que a literatura de comportamento eleitoral chama de voto negativo. O que muda aqui é a velocidade com que Flávio Bolsonaro, sem mandato executivo, sem base própria e sem palanque consolidado fora da órbita paterna, aproximou-se de um presidente que governou o Brasil por dois mandatos e está no terceiro.
A explicação não é a competência de Flávio. É a estrutura do descontentamento. O governo Lula chegou ao terceiro mandato com a promessa implícita de que a comparação com o período anterior bastaria para garantir legitimidade. Não bastou. A percepção econômica do eleitorado de menor renda — que historicamente ancora o PT — deteriorou-se o suficiente para abrir janelas onde antes havia muros. O bolsonarismo, enquanto fenômeno, não depende de Jair Bolsonaro. Ele o criou, mas não é condição para sua reprodução.
Flávio Bolsonaro, nesse cenário, é menos um candidato do que um recipiente. O que a pesquisa mede não é a força dele — é o tamanho do voto que está disponível para ser depositado em qualquer nome que carregue a sinalização certa.
Para o PT, o dado mais incômodo não é o placar. É o que ele implica sobre a estratégia de 2026. Se a campanha for construída sobre a polarização com Jair Bolsonaro — inelegível —, o partido pode chegar ao segundo turno sem ter testado suas fraquezas reais contra um adversário que não tem o passivo do pai. Flávio Bolsonaro herda o eleitorado sem herdar necessariamente os processos, os vídeos e as declarações que tornaram o ex-presidente tão eficiente na mobilização contrária quanto na própria.
A pesquisa foi feita com 2.009 pessoas entre 26 e 28 de junho, por telefone. São três dias de coleta, dois pontos de margem. O número vai mudar. O que não muda é o que ele revela sobre o estado de um governo que, a dois anos da eleição, ainda não encontrou argumento capaz de separar seus 47% dos outros 44%.
Luciano Aragão
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Pesquisa BTG/Nexus mostra Lula com 47% contra 44% de Flávio no 2º
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil