Três mil mortos que a Europa ainda não sabe contar
Análise · Clara Verdi A França tem um vocabulário para isso.
Análise · Clara Verdi
A França tem um vocabulário para isso. Canicule — a palavra que, desde agosto de 2003, carrega um peso específico: quinze mil mortos em duas semanas, hospitais sem capacidade, idosos encontrados dias depois nas suas casas fechadas. A canicule de 2003 não foi apenas um evento climático; foi uma crise política que derrubou ministros e obrigou o Estado francês a inventar planos de emergência, redes de vigilância para populações vulneráveis, protocolos que, na teoria, deveriam impedir a repetição. Vinte anos depois, a Europa acumula, desde junho, três mil mortes extras provocadas por ondas de calor. A pergunta que ninguém faz com suficiente insistência é: o que significa "extra" quando o número cresce a cada verão?
Significa excesso. É o termo técnico — mortalidade em excesso, o delta entre o que seria esperado e o que de fato aconteceu. Não são mortes de espetáculo, com imagem e nome. São mortes silenciosas de pessoas que o calor foi consumindo em apartamentos sem ar-condicionado, em quartos de hospital sobrecarregados, em corpos que simplesmente não tinham mais reserva para atravessar mais uma noite a trinta e seis graus. São mortes que entram na estatística tarde, quando já não há urgência jornalística.
As redes elétricas sobrecarregadas, o asfalto que derrete, os transportes paralisados — essas consequências têm fotografia. Têm trilha sonora. Entram nos noticiários como desconforto coletivo, como transtorno urbano. Mas o desconforto do gestor de fundos que não consegue pegar o metrô em Paris não é o mesmo desconforto do trabalhador senegalês na periferia de Lyon que cumpre turno em galpão sem ventilação. A onda de calor não é democrática. Nunca foi.
A Europa tem dificuldade peculiar de se enxergar como território vulnerável. Há uma geometria implícita no imaginário ocidental: o Sul global sofre catástrofes climáticas; o Norte as administra. O verão de 2023 — e os anteriores — está desmontando essa geometria com uma brutalidade que os números de mortalidade tornam inegável.
França e Bélgica concentram parte significativa desse registro, o que não é acidente geográfico: são países com infraestrutura urbana construída para climas temperados, com habitação que retém calor e populações idosas expressivas. O Estado do bem-estar social europeu, com toda sua sofisticação administrativa, não foi desenhado para este clima — e o clima não avisou que chegaria tão rápido.
Para o Brasil, a lição não é apenas meteorológica. É política. O que acontece quando a infraestrutura de um Estado rico não aguenta? Quando a rede elétrica cede, quando o transporte para, quando os hospitais saturam — não por guerra, não por colapso fiscal, mas por temperatura? A Europa está testando, involuntariamente, os limites de modelos de gestão pública que o Sul global sempre foi instruído a imitar. Três mil mortos desde junho é um número que merecia, no mínimo, essa pergunta.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Europa registra 3 mil mortes extras por ondas de calor desde junho
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
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