Teerã não joga pôquer
Análise · Clara Verdi A lista de exigências iranianas para reabrir o Estreito de Ormuz, lida assim, de um fôlego, parece a um só tempo o delírio…
Análise · Clara Verdi
A lista de exigências iranianas para reabrir o Estreito de Ormuz, lida assim, de um fôlego, parece a um só tempo o delírio de um regime encurralado e a mais fria das lições de realpolitik. Fim das sanções e do bloqueio naval; retirada das tropas americanas da vizinhança; indenizações de guerra; devolução de ativos congelados; cessar-fogo contra seus aliados regionais; ponto final nas ameaças. Não é um pedido. É um ultimato que nasce morto. E Teerã sabe disso.
É um erro, portanto, tratar a declaração de Mohammad Bagher Zolghadr, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, como o ponto de partida de uma negociação. É precisamente o contrário. É uma declaração de que, nos termos atuais, não há negociação possível. Ao apresentar uma lista de impossibilidades, o Irã não está blefando numa mesa de pôquer com Donald Trump. Está virando a mesa. O teatro diplomático entre Omã e Teerã, com funcionários americanos sussurrando à Reuters sobre um acordo iminente, vira fumaça diante da dureza do fato.
O que se desenrola no Golfo Pérsico é menos sobre o programa nuclear iraniano — o pretexto oficial, a justificativa para as sanções e os memorandos de entendimento que nascem e morrem no mesmo verão — e mais sobre a gramática da força. A retórica de Trump, oscilando entre um “acordo” e a “rendição total”, só admite um vocabulário: o da capitulação. O Irã, ao fechar a passagem por onde escoa um quinto do petróleo mundial, responde na única língua que Washington parece entender. A asfixia econômica, arma predileta dos americanos, ganha uma contrapartida logística. Um garrote contra o outro.
A intransigência iraniana não é apenas uma bravata para consumo interno. É um cálculo. As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos se aproximam, e o preço da gasolina para o consumidor americano é uma variável que nenhum presidente republicano pode ignorar. Zolghadr, ao enumerar suas condições, não fala apenas com a Casa Branca; fala com o eleitorado americano. Ele expõe o custo da política externa de seu adversário.
Enquanto diplomatas buscam uma fresta, a Guarda Revolucionária, pela voz de seu porta-voz, deixa claro que qualquer reabertura de Ormuz depende “da plena aceitação das condições do Irã pelos EUA”. Não é sobre uma nova rota de navegação. É sobre a velha rota do poder. Quem cede primeiro? Quem pisca?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Irã exige suspensão de sanções e retirada de tropas para reabrir Ormuz
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · CNN Brasil