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Teerã e a vertigem do abismo

Análise · Clara Verdi Há uma tentação quase irresistível em ver os dez dias de fogo no Estreito de Ormuz como mais um capítulo na longa e previsível…

Teerã e a vertigem do abismo
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Análise · Clara Verdi

Há uma tentação quase irresistível em ver os dez dias de fogo no Estreito de Ormuz como mais um capítulo na longa e previsível crônica da inimizade entre Teerã e Washington. Seria um erro, uma simplificação que aplana as arestas do que de fato está em jogo. O que se desenha nos cálculos do regime iraniano não é um simples dilema tático, mas uma escolha existencial sobre a própria natureza do seu poder, uma escolha forçada pela morte de um aiatolá e a ascensão de outro.

A sucessão de Ali Khamenei por seu filho, Mojtaba, em fevereiro, não foi apenas uma troca dinástica num regime teocrático; ela desequilibrou a delicada arquitetura de poder entre políticos, militares e a linha-dura. É nesse cenário de placas tectônicas em movimento que surgem as três opções sobre a mesa, cada uma um caminho para um tipo diferente de precipício. Ceder, escalar, ou manter o impasse — nenhuma delas é uma rota para a vitória, mas para diferentes formas de sobrevivência.

A primeira via, a da concessão, é um veneno político. Aceitar as demandas americanas — abrir mão do controle de Ormuz, do urânio enriquecido — seria admitir que a pressão militar funcionou. Para um regime que por décadas construiu sua legitimidade sobre a narrativa da resistência, a capitulação não é apenas uma derrota; é uma heresia. Significaria entregar a única ferramenta de dissuasão que se provou mais imediata e eficaz que mísseis ou milícias aliadas: a capacidade de impor um custo direto à economia global.

A escalada, por sua vez, é a aposta no caos como catalisador. Atacar bases americanas, sabotar a infraestrutura do Golfo, na esperança de que a dor econômica force Washington a negociar. É o caminho do risco máximo, a estratégia que pode transformar inimigos regionais numa coalizão mais ampla e arrastar o Irã para um conflito que não pode vencer. É a opção de quem, encurralado, decide incendiar o tabuleiro.

Resta a terceira via, a mais provável e a mais corrosiva: a gestão da instabilidade. Manter a pressão sobre Ormuz, o suficiente para manter o poder de barganha, mas sem cruzar a linha que levaria a uma guerra total. É uma estratégia de desgaste que consome o regime por dentro, enquanto a inflação e o desemprego corroem a vida dos iranianos comuns, aqueles que observam os murais dos aiatolás sem ver reflexo de suas próprias vidas. Teerã joga com o tempo, mas o tempo também joga contra Teerã.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Irã avalia três opções após dez dias de ataques no Estreito de Ormuz

Fontes: g1 · BBC News Brasil