Crônica de um país que privatizou a esperança

_ — Jornalismo Gonzo Por Jumerli Sururu Manolo Acordei com o despertador tocando uma notícia: tarifa de 50% nos EUA. Desliguei.

SURURU_ — Jornalismo Gonzo

Por Jumerli Sururu Manolo


Acordei com o despertador tocando uma notícia: tarifa de 50% nos EUA. Desliguei. Não o despertador — a esperança.

Fui ao padeiro. O pão francês custava R$ 1,20. Agora custa R$ 1,80. O padeiro me olhou com aquela cara de quem quer pedir desculpas mas precisa pagar aluguel.

"Seu Manolo, a farinha subiu."

"Eu sei, Agenor. Tudo sobe nesse país. Menos o salário e a autoestima."

Sentei no banco da praça. Li no celular que um bilionário brasileiro comprou uma ilha na Nova Zelândia "para caso de colapso civilizatório". O nome dele eu não vou dizer porque não quero processo, mas rima com "banqueiro".

A esperança, que era direito constitucional (artigo 5º, inciso nenhum), virou produto premium. Disponível na versão Lite (para quem ganha até 3 salários mínimos: consiste em acreditar que amanhã pode ser melhor), na versão Pro (para classe média: consiste em acreditar que seu filho vai morar fora) e na versão Enterprise (para ricos: consiste em já ter um plano B na Nova Zelândia).

Eu? Sigo na versão Gratuita com Anúncios: esperança interrompida a cada 5 minutos por uma notícia de que o mundo está acabando.

Mas o pão do Agenor continua bom. E enquanto o pão for bom, eu levanto.


Sururu_ publica quinzenalmente | Jumerli Sururu Manolo não existe, mas deveria