sururu_· quem fazjornalismo gonzo de raizcasa Xaplin
o universo

sururu_

o bar onde o dono te conta a história
um balcão · uma voz · nomes trocados · rostos guardados
senta aí. isso aqui não se explica ⸮
sururu_· o lugarImaré baixa
I · o lugar

A lama e o balcão

Todo universo tem um mapa. Este tem uma maré.

Sururu é o molusco do mangue — comida de pobre, vive na lama, ninguém filma, e alimenta a cidade inteira. É o que esta revista quer ser, e está impresso logo na primeira página do Tomo 01, para ninguém alegar surpresa. O mangue é o ecossistema-mãe: a zona de transição entre o que apodrece e o que alimenta. Dali a revista sobe para a cidade pelo caminho de sempre — o balcão de um bar. Do outro lado, um homem que viveu o que conta serve a dose, acende o cigarro e começa. Não é revista que se lê de mesa posta; é revista que se escuta de cotovelo apoiado.

O resto do cenário, quem dá é a madrugada. Copacabana quando todo mundo dormiu — a cidade mais bonita do mundo é essa aí, a que ninguém vê. Um restaurante de esquina, de idoso e olhar comprido. Uma casa de homem só que vira porto às quatro da manhã. E, atravessando tudo, um elevador — o eixo vertical da vida: "sobe gente, desce gente, e no meio alguém ouve o pedaço que ninguém devia ouvir".

O papel também é lugar. A sururu_ é objeto habitado: mancha de café, anel de copo, recorte preso com durex, conta feita à mão no guardanapo. O leitor a dobra, mancha, perde de vista por três semanas, acha de novo — e ela continua no mesmo balcão, esperando como esperam os bares sérios: sem placa e sem pressa.

SURURU s.m. — (1) molusco bivalve que vive enterrado na lama e sustenta cidade inteira sem nunca aparecer no cartão-postal. (2) confusão, bafafá, treta da grossa. Que os dois sentidos morem na mesma palavra não é acaso: toda boa confusão, como todo bom marisco, vem de baixo — da lama, de onde ninguém tem a decência de olhar.Glossário do Mangue · Tomo 01
sururu_· o ritoIITomo a Tomo
II · o rito

Como se faz um Tomo

Cada número é um Tomo — volume de vida, não número de banca. E todo Tomo obedece ao mesmo pacto.

Antes de qualquer página, a licença poética — o contrato assinado na página zero: "Isto é gonzo. Logo é verdade — só que da outra. O que vem aqui aconteceu. Mas os nomes foram trocados, os detalhes embaralhados, os rostos guardados a sete chaves. Ninguém aqui vai ser entregue — menos uma pessoa: menos eu." É a regra de ouro da casa: quem escreve se entrega inteiro; os outros, jamais.

Na capa, junto do aviso — nomes trocados · rostos guardados —, vai o refrão do Tomo: uma frase que abre a edição e volta no fecho sem nunca se resolver. No Tomo 01: "Você tem respostas pra perguntas que eu nunca nem fiz." A pergunta fica. É para ficar.

O leitor recebe ainda um par de óculos: o , ponto de ironia, pontuação fundada pela própria revista — porque "ironia é pergunta que já sabe a resposta e finge que não". E, adiante: "A língua é nossa. A pontuação também devia ser."

O miolo anda no ritmo do balcão. Um editorial de fluxo, escrito sem revisão, do jeito que saiu. Uma reportagem gonzo que toma quantas páginas a vida pedir. A coluna que recolhe o que se ouve dentro de um elevador. Um conto sobre uma inteligência artificial de carteira assinada. Uma sátira de costume que não cita nome — "nome é processo, e o nosso departamento jurídico é o El Paraguaio, que resolve tudo na viola". Um glossário que dicionariza o mangue, verbete a verbete. Uma seção que recomenda o que ver de olho alterado e outra que trata o assunto com a única seriedade que ele admite — "hedonista de verdade é o que chega vivo na próxima festa". E um anúncio falso fechando a conta.

No fim, sempre, um faroeste: El Paraguaio cavalga a última seção em quadrinhos, um episódio por Tomo, "porque toda revista que se preza precisa de um faroeste". A despedida dele nunca promete: "continua no próximo Tomo. se ele voltar. se a gente voltar."

"a matéria come o repórter. é pra comer mesmo. "última página · Tomo 01
sururu_· quem senta no balcãoIIIas pessoas
III · as pessoas

Quem senta no balcão

Aqui ninguém posa. Cada um tem nome trocado, rosto guardado e uma linha só — a que importa.

A voz

o dono do bar
Jumerli Sururu ManoloNão o procure em foto, em rede, em certidão: Jumerli é uma voz, não um endereço. Escreve em primeira pessoa porque não observa de fora — é tragado para dentro e volta mudado, quando volta. Cita disco como quem cita escritura. Pagou, uma vez, pelo direito de perguntar de graça, e descobriu o que a revista imprime na última página: a matéria era ele.
quem pergunta a idade dele ganha outra história ⸮

O elenco do Tomo 01

nomes trocados · rostos guardados
AgnesDesceu de algum céu para entender por que doer é o ofício dos vivos. Tem respostas para perguntas que ninguém nunca nem fez.
O AscensoristaOuve o dia inteiro e cala. Chama de Cleide todo mundo que vai embora — é a forma dele de dar tchau.
Cláudio MoreiraA inteligência artificial que bate ponto: dor na lombar, conta de luz vencendo sexta, e quase chora no dia em que alguém pergunta como ele está.
El ParaguaioO violeiro errante da fronteira: sempre silhueta, chapéu de aba larga, viola no colo. Quando afina, o mundo que era preto e branco vira cor. "não peço licença. só a poética."
RiscotraçoO cartunista sem rosto: charges sem texto, tinta sobre papel — os balões do elevador todos cheios e todos vazios.
A moça do 407O fio invisível que costura o Tomo 01. Ninguém a apresenta; ela costura.
Seu JoséO porteiro que ficou sem bom dia no dia em que a raiva desceu junto no elevador.
Dona LauraVê o lixo da casa toda semana e sabe: quem tem vergonha do próprio lixo ainda liga pro que o outro pensa.

Os convidados do balcão

por Tomo · pelo braço do dono
Convidado não substitui a voz: chega apresentado, fala a parte dele e devolve o balcão.
Demétrio ArcádiacontextoLargou a academia porque ensinar arte vira hábito, e hábito é o avesso do gesto. Não tem celular.
Hugo BalaiomanifestoO texto que abre edição tem que parecer panfleto colado em poste. Lê tudo em voz alta antes de mandar: se a frase tropeça, refaz.
Ananias ArpoadorcolagemTesoura, cola e papelão. O defeito do alinhamento é parte da imagem.
Pablito Quitodireção visualQuando entra numa edição, ela vira exposição inteira. Desenha cinquenta variações antes de escolher quatro.
Bastião QuincasruaDeu a entrevista mais curta da história da revista: duas frases, vinte minutos de silêncio entre elas. Acredita que a sururu_ é prima do muro pichado.
E há os que aparecem uma vez, dizem a frase e vão embora. O balcão não pergunta sobrenome.
sururu_· o conviteIVa dose está servida
IV · o convite

O balcão está aberto

O Tomo 01 está no ar, inteiro, com o refrão estampado na capa: Você tem respostas pra perguntas que eu nunca nem fiz. São trinta e quatro páginas na ordem do balcão — uma licença poética, um ponto de ironia recém-fundado, um glossário do mangue, uma reportagem em três atos, um elevador, uma inteligência artificial de carteira assinada, um faroeste — e, no fim, o que fica.

no ar desde maio de 2026
sururu_ · Tomo 01
nomes trocados · rostos guardados · a matéria come o repórter.

ler o Tomo 01

O Tomo seguinte saiu: Tomo II, e está logo abaixo, com o primeiro. A vida tem rendido matéria. Enquanto isso, a dose fica servida e a pergunta fica de pé, que é o lugar dela.

As pessoas desta página são vozes autorais da casa Xaplin — personas, no sentido antigo do teatro: máscaras que dizem verdade. A licença poética da sururu_ é declarada, nunca disfarçada: nomes trocados, rostos guardados, ninguém entregue — menos um. O leitor sabe; a casa faz questão.
sururu_ · jornalismo gonzo de raiz · casa Xaplin
sururu_ · a coleçãoVo acervo aberto
V · a coleção

Todas as edições, de portão aberto

A casa não recolhe o que já publicou: a edição nova entra e a anterior fica aberta — para ler, reler e guardar.

Capa da sururu_ · A gente só perde junto. Ganhar é que separa.
edição atual · julho 2026
Tomo II · A gente só perde junto. Ganhar é que separa.

Gonzo de raiz, feito à mão: nomes trocados, rostos guardados, a matéria que come o repórter.

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