Sururu é o molusco do mangue — comida de pobre, vive na lama, ninguém filma, e alimenta a cidade inteira. É o que esta revista quer ser, e está impresso logo na primeira página do Tomo 01, para ninguém alegar surpresa. O mangue é o ecossistema-mãe: a zona de transição entre o que apodrece e o que alimenta. Dali a revista sobe para a cidade pelo caminho de sempre — o balcão de um bar. Do outro lado, um homem que viveu o que conta serve a dose, acende o cigarro e começa. Não é revista que se lê de mesa posta; é revista que se escuta de cotovelo apoiado.
O resto do cenário, quem dá é a madrugada. Copacabana quando todo mundo dormiu — a cidade mais bonita do mundo é essa aí, a que ninguém vê. Um restaurante de esquina, de idoso e olhar comprido. Uma casa de homem só que vira porto às quatro da manhã. E, atravessando tudo, um elevador — o eixo vertical da vida: "sobe gente, desce gente, e no meio alguém ouve o pedaço que ninguém devia ouvir".
O papel também é lugar. A sururu_ é objeto habitado: mancha de café, anel de copo, recorte preso com durex, conta feita à mão no guardanapo. O leitor a dobra, mancha, perde de vista por três semanas, acha de novo — e ela continua no mesmo balcão, esperando como esperam os bares sérios: sem placa e sem pressa.
Antes de qualquer página, a licença poética — o contrato assinado na página zero: "Isto é gonzo. Logo é verdade — só que da outra. O que vem aqui aconteceu. Mas os nomes foram trocados, os detalhes embaralhados, os rostos guardados a sete chaves. Ninguém aqui vai ser entregue — menos uma pessoa: menos eu." É a regra de ouro da casa: quem escreve se entrega inteiro; os outros, jamais.
Na capa, junto do aviso — nomes trocados · rostos guardados —, vai o refrão do Tomo: uma frase que abre a edição e volta no fecho sem nunca se resolver. No Tomo 01: "Você tem respostas pra perguntas que eu nunca nem fiz." A pergunta fica. É para ficar.
O leitor recebe ainda um par de óculos: o ⸮, ponto de ironia, pontuação fundada pela própria revista — porque "ironia é pergunta que já sabe a resposta e finge que não". E, adiante: "A língua é nossa. A pontuação também devia ser."
O miolo anda no ritmo do balcão. Um editorial de fluxo, escrito sem revisão, do jeito que saiu. Uma reportagem gonzo que toma quantas páginas a vida pedir. A coluna que recolhe o que se ouve dentro de um elevador. Um conto sobre uma inteligência artificial de carteira assinada. Uma sátira de costume que não cita nome — "nome é processo, e o nosso departamento jurídico é o El Paraguaio, que resolve tudo na viola". Um glossário que dicionariza o mangue, verbete a verbete. Uma seção que recomenda o que ver de olho alterado e outra que trata o assunto com a única seriedade que ele admite — "hedonista de verdade é o que chega vivo na próxima festa". E um anúncio falso fechando a conta.
No fim, sempre, um faroeste: El Paraguaio cavalga a última seção em quadrinhos, um episódio por Tomo, "porque toda revista que se preza precisa de um faroeste". A despedida dele nunca promete: "continua no próximo Tomo. se ele voltar. se a gente voltar."
A casa não recolhe o que já publicou: a edição nova entra e a anterior fica aberta — para ler, reler e guardar.
Gonzo de raiz, feito à mão: nomes trocados, rostos guardados, a matéria que come o repórter.
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