

O que vem aqui aconteceu. Mas os nomes foram trocados, os detalhes embaralhados, os rostos guardados a sete chaves. Ninguém aqui vai ser entregue — menos uma pessoa menos eu. As mulheres reais que atravessam esta edição confiaram num homem, não numa manchete. Eu, o homem, não devo nada a ninguém: posso me entregar inteiro. Elas, jamais.
No gonzo o repórter não observa de fora: é sugado pra dentro e volta mudado, se voltar. Hunter Thompson apanhou junto com os Hells Angels pra escrever sobre eles. Aqui o que se apanha é ternura — e algum susto comigo mesmo. A sururu_ é o avesso do que a casa faz com compostura. Aqui se sente na pele e se cospe. Com afeto. Mas se cospe.



Desci do elevador já puto, a mulher peidou. Além de mal-educada, a filha da mãe ainda peida. Resolvi sair sem dar bom dia ao seu José. Ah, vá. Eu sou assim mesmo, já desconto a raiva logo, porque raiva não dá pra deixar fora da geladeira que nem queijo. Tem uns que duram mais. Tem outros que se você não come, lá estou eu de novo jogando comida fora. Odeio isso. Odeio jogar comida fora e odeio jogar raiva fora, mas as duas estragam.
A Dona Laura chega e eu fico como quem vai receber sogro policial. XXXXXXXXX e eu nem sou casado. Fico escondendo as coisas, todo fodido sustentando uma pose. A mulher limpa minha casa. Ela já viu pau de borracha no armário do banheiro, já viu meu lixo — vê meu lixo toda semana. Quem tem vergonha do próprio lixo ainda liga pro que o outro pensa. O dia que eu não ligar mais, aí sim é que tô fodido. Ou livre. Vai saber a diferença ⸮
Esta edição é sobre o que não cabe na geladeira. Gente cansada procurando colo. O que o ascensorista ouve e cala. Três mulheres que o mundo empurrou pra margem e que escutam como ninguém. Um homem (eu) que foi escrever sobre elas e descobriu que a matéria era ele. E o El Paraguaio, que cavalga no fim, porque toda revista que se preza precisa de um faroeste.
Apresentamos o ⸮ — o ponto de ironia. Interrogação virada pro avesso, porque ironia é pergunta que já sabe a resposta e finge que não. Onde ele aparecer, ative o filtro: estamos propondo um pilates das ideias. Dobre a coluna do pensamento sem quebrar.
Use em casa. No trabalho. Mande mensagem pro chefe com um ⸮ no fim e veja a confusão produtiva. A língua é nossa. A pontuação também devia ser.
MANGUE s.m. — Ecossistema de transição entre o que apodrece e o que alimenta. Walter Benjamin chamaria de limiar; o catador de Itapissuma chama de "onde tem marisco". Os dois estão certos, e o marisco está cagando pra etimologia.
SURURU s.m. — (1) molusco bivalve que vive enterrado na lama e sustenta cidade inteira sem nunca aparecer no cartão-postal. (2) confusão, bafafá, treta da grossa. Que os dois sentidos morem na mesma palavra não é acaso: toda boa confusão, como todo bom marisco, vem de baixo — da lama, de onde ninguém tem a decência de olhar.
CONCHINHA s.f. — Posição em que dois corpos dormem encaixados como vírgulas. Estado de graça laico. Spinoza definiria como o aumento da potência de existir; eu defino como a única porra que cura insônia sem receita.
BREGUEÇO s.m. — Objeto sem nome e sem serventia que a gente guarda mesmo assim. A casa de todo solitário é um museu de bregueço. Antônimo de minimalismo — que é doença de quem nunca teve falta de nada.
CANSAÇO s.m. — Não a falta de sono. A falta de motivo. Byung-Chul Han escreveu um livro inteiro sobre isso e cobrou caro; o ascensorista do prédio explica de graça, em três andares, e ainda te deseja um bom dia que ele não está sentindo.
AGNES n.p. — Ver: programa cliente milagre. Pessoa que desce de algum céu pra entender a dor dos vivos e, no caminho, ensina o anfitrião quem ele é. Strindberg registrou a patente em 1901. Não pagou direitos a ninguém. Nem ela.
Antes da Agnes vieram outras. Não vou contar todas aqui — não porque escondo, mas porque cada uma merece um Tomo só dela, e este é o da Agnes. Digo apenas que descobri, sem querer, um método: eu chamava, pagava, e em vez de transar eu entrevistava. Não com gravador. Com a vida. Sentava na beira da cama, da piscina, do abismo, e perguntava de onde a pessoa vinha. E a pessoa contava — porque ninguém nunca tinha perguntado de graça. Eu pagava, no fundo, pelo direito de perguntar de graça. Faz sentido isso? Não faz. As coisas mais verdadeiras que fiz na vida não fecham conta nenhuma no papel.
A primeira chegou linda e foi embora numa paranoia de ketamina, ouvindo no motel barulhos que eram só outras pessoas fazendo o que a gente não fez. Ficamos amigos. Quando a mãe dela morreu, fui o primeiro telefonema. A segunda era mineira, inteligente como poucos, e nua a noite inteira a gente só falou de desilusão e do fim do mundo — depois ela se assustou de ter gostado e cuidou de me afastar, que é como a gente protege o que mais importa. Cada uma me ensinou que o que eu procurava não estava entre as pernas de ninguém. Estava no olhar. Numa chave.
Porque tem uma chave que essas mulheres carregam e que a gente ajustada perdeu: o olhar de quem foi expulso do humano e por isso enxerga o humano de fora, inteiro, sem o embaçado de quem está dentro. Walter Benjamin chamaria de o olhar do trapeiro — o que cata o que a cidade joga fora e vê valor no resto. Eu chamo de o olhar de quem aprendeu a ler o perigo no rosto de um homem antes do soco chegar. As duas definições servem. A segunda é que dói.
Vi o anúncio da Agnes, gostei, tremi, tomei coragem — e tremer antes é importante, quem não treme não tá arriscando nada. Combinei pra um sábado. Ela chegou loira, olhos de lente azul, um vestido rosa que jurou ter comprado por minha causa. Duvidei na hora e me derreti do mesmo jeito, porque mentira de carinho ainda é carinho: é teatro que alguém montou só pra você, e fazia tempo que ninguém montava teatro nenhum pra mim. Pediu dois mil pra ficar até segunda. Eu disse sim antes de pensar, que é como eu digo as coisas que importam.
Na porta fiz o que sempre faço: paguei adiantado e disse "fica à vontade, não precisa fazer nada, quero isso sem pressão". Verdade nua, sem liquid paper por cima: eu estava pagando pra dizer aquilo pra mim mesmo. Comprando o direito de não cobrar nada, que é o luxo mais caro que existe. Hippie e mesquinho na mesma respiração — anota aí, porque é assim que eu sou, e mentir aqui seria pior que peidar no elevador e botar a culpa no cachorro que não tenho.
Antes de vir ela tinha perguntado, meio de lado, se eu era de boa com bebida e essas coisas. Demorou a responder quando eu quis saber o que ela usava, e o silêncio me deixou tenso a tarde toda — preparei o discurso de careta, ensaiei o "tudo bem se não rolar nada". No fim ela só queria saber se podia, e eu providenciei o que ela gostava sem moralismo nenhum, porque hospitalidade que vem com sermão não é hospitalidade, é armadilha com toalha limpa.
O que houve nesses dias eu não explico pra quem mede intimidade pelo que tira a roupa. Tomamos um banho de cinco minutos de pura vergonha — e vergonha, leitor, é prova de intimidade verdadeira; ninguém fica tímido no que é só transa. Ela me mostrou os vídeos que ama no YouTube e eu assisti como quem é convidado a entrar numa casa pela primeira vez e tira o sapato. Cozinhei pra ela. Ela acordava de blusa minha — a do boombox, com a frase estampada em espanhol: "La música que escuchan todos — y yo no la escucho". A música que todos escutam, e que ela mesma não escuta.
O som que serve a todos e cujo aparelho ninguém olha. Pois eu olhei o aparelho. Olhei por dentro, vi os fios, vi onde tava arranhado, vi a marca de quem mexeu sem saber consertar. E gostei do som assim mesmo — gostei mais, até, por causa do arranhão.
Numa noite ela recebeu um chamado e perguntou se podia ir atender — uma hora, voltava. Eu disse sim e fiquei me remoendo igual idiota, enciumado de uma profissional que foi trabalhar. Aí está a inversão que me ensinou tudo: o sexo era comigo o sexo era com os outros, e a volta era pra mim. Eu não tinha ciúme do corpo dela na cama alheia. Tinha ciúme do tempo, da presença, do que não se compra por job. "Eu volto", ela disse. Voltou. Num mundo onde quase ninguém volta, ela voltou — e deitou de conchinha sem me tocar daquele jeito, e eu dormi como não dormia desde criança.
Esse é o segredo que fui descobrir pagando: num mundo de gente exausta, a coisa mais rara que existe é poder dormir tranquilo do lado de outra pessoa. Eu, que desço do elevador puto. Ela, que dorme com estranhos por dinheiro e acorda contando o que sobrou. Os dois encontramos, naqueles dias, um lugar de dormir sem susto. Não faltou sexo. Sobrou sono — do bom, do fundo, do que cura.

Vieram os almoços. No restaurante da esquina, em Copacabana de idoso e olhar comprido, eu sentava com ela e às vezes com as amigas, e sentia o olho do salão inteiro: o turista trouxa, o otário sendo roubado, o homem que devia ter vergonha. Pois fiz o contrário do que se espera de quem sente esse olho. Dei o braço. Atravessei a rua de mão dada. Banquei o namorado no balcão onde me conhecem há anos, à luz do sol, no bairro que reza. Tomei pra mim um naco da luta delas — porque dentro de casa acolher é fácil, ninguém vê; no bar é que se paga o pedágio. Paguei rindo, de propósito, todo dia.
Virou casa. Um dia acordei e a casa estava arrumada, elas tinham comprado peixe e cozinhado pra mim — a inversão final, o cuidado devolvido com juros. Por uns dias fomos uma família improvável: gente que o mundo trata como sozinha, junta, fazendo refeição, dormindo sem medo, rindo de bobagem na luz roxa da madrugada. Eu fui, por uns dias, o que sempre quis ser e nunca soube nomear.
Agora a parte que eu não devia a ninguém esconder, e não escondo. Conviver com elas, desejá-las, ser olhado ao lado delas — isso mexeu numa coisa que já vinha crescendo em mim faz tempo, devagar, sem pedir licença. Uma feminilidade. Uma vontade de ser olhado com a doçura com que se olha o frágil. Eu sempre fui o delicado, o sensível, o educado — e passei a vida disfarçando isso de macieza de homem-bom. Não era. Era outra coisa, e essa outra coisa achou, na companhia delas, um espelho onde finalmente coube.
Não vou botar nome porque nome é jaula e eu já vivi preso demais. Só digo: ao lado da Agnes eu me senti mais inteiro do que ao lado de qualquer mulher que o mundo aprovaria. E se isso assusta alguém, o problema é do susto, não meu. cada coisa chega no seu tempo. até eu.
Me apaixonei pela Agnes. Disse a ela, sóbrio, num momento de felicidade limpa — não no torpor, não na chapação, sem lança nem vinho, só verdade. Disse: você tem respostas pra perguntas que eu nunca nem fiz. É verdade. Ela respondeu, sem saber, coisas que eu nem sabia que andava perguntando — sobre o afeto que não tem categoria pronta, sobre quem eu sou quando ninguém está medindo, sobre o que cabe num homem quando ele para de caber na forma. Fui atrás da chave que dizem que essas mulheres carregam, o tal olhar que enxerga o humano com a nitidez de quem foi empurrado pra fora dele. Achei a chave. E ela abria uma porta na casa dela em mim.
Não fico em cima. Entendi o protocolo: é o trabalho delas, ninguém mora pra sempre na casa de um homem, chamar é pagar — nem que seja a companhia, nem que seja só pra dormir. A relação foi pra um lugar que não tem nome no dicionário do desejo. Mandei uma foto pra ela outro dia, porque deu saudade. Não pra chamar. Só pra dizer, sem dizer, que ela mudou alguma coisa aqui dentro e que eu sei, e que eu agradeço, e que tá tudo bem.
Uma noite o telefone tocou na hora em que telefone tocando só traz desgraça. Era a Agnes, chorando do tipo de choro que não se finge, daquele que vem de baixo do diafragma e sobe rasgando. Tinha dado merda no trabalho — um cliente passou do ponto, a droga virou agressão, o corpo dela pagou o que a noite cobrou. Perguntei se estava sozinha. Disse que não, estava com uma amiga. Perguntei se podiam vir. Podiam sempre. A porta dessa casa, a essa altura, já não tinha mais tranca pra elas.
Chegaram as duas, meio brigadas entre si — porque medo deixa todo mundo ríspido, e quem apanhou junto às vezes briga junto, é a única intimidade que sobra. A Agnes deitou na minha cama e pediu, mais uma vez, uma blusa minha. Dei a do Big Lebowski — o Dude, o sujeito mais avesso à pressa que o cinema já pariu, "the Dude abides", o cara que aguenta o caos de roupão sem perder a doçura. Ela vestiu o Dude e dormiu. Naquela noite não teve conversa, não teve filosofia, não teve nada. Teve colo. Tem hora que palavra é insulto e a única língua decente é o silêncio com um corpo por perto.
No dia seguinte cuidei delas como se cuida de quem voltou da guerra, que era mais ou menos o caso. E aí veio o pedido que mudou tudo: podiam passar uns dias ali? Iam se mudar pra perto, precisavam de um respiro. E foi assim que a minha casa de homem só virou, por um punhado de dias, casa de quatro — eu, a Agnes, e mais duas que o acaso e a precariedade jogaram na mesma sala. Dormiam onde dava. Comiam o que eu cozinhava. Um dia acordei e tinham comprado peixe, limpado tudo, feito almoço — a casa cheirava a gente, a vida, a coisa que não se aluga por hora.
Eu ouvia as conversas delas pelas paredes finas. O mundo delas é mais duro do que qualquer reportagem que eu pudesse escrever — é um faroeste sem El Paraguaio pra defender ninguém. Tarifas, perigos, clientes que somem sem pagar, o corpo como ferramenta e como alvo. E no meio disso, um humor que humilha o nosso, uma lealdade entre elas que envergonha a maioria das amizades de gente "de bem". Aprendi mais sobre dignidade naquela sala bagunçada do que em qualquer sermão de púlpito ou pílula de coach. Dignidade não é não cair. É levantar e ainda fazer piada enquanto limpa o sangue do lábio.
Foram embora numa terça, como tudo que é bom vai embora numa terça qualquer. Ficou um vazio na casa que não é figura de linguagem — é físico, ocupa metro quadrado, tem peso. A cama larga demais. O silêncio sem o cochicho delas. Levei dias pra entender que aquele vazio era um recibo: ninguém fica vazio depois de uma transação cumprida. Fica vazio depois de uma despedida. O corpo sabe a diferença mesmo quando a cabeça finge que não.
Uma das amigas chegou a me procurar depois, sozinha, testando o terreno. Eu disse que não — não por moral, mas porque eu tinha me apegado à Agnes feito namorado bobo, e namorado bobo não troca, mesmo quando a relação não tem nome nem futuro. Fui fiel a uma coisa que nem sei se existia fora de mim. Sou assim. Já avisei lá no começo.
Hoje a gente se fala às vezes. Não fico em cima — entendi o protocolo, que é o trabalho delas, que ninguém mora pra sempre na casa de um homem, que chamar é pagar, nem que seja pela companhia, nem que seja só pra dormir. Outro dia mandei uma foto nossa pra ela. Não pra chamar. Só pra dizer, sem dizer, que ela mudou alguma coisa aqui dentro, que eu sei, que eu agradeço, e que está tudo bem — eu, ela, o mundo torto que mesmo assim deixou a gente se encontrar.

Mantêm o homem ali por pena, por um resto de humanidade — ninguém tem coragem de dizer pra alguém que faz aquilo há quarenta anos que a função dele virou luxo de prédio caro. Então ele sobe e desce, e a vida inteira passa por dentro daquela caixa. Recortes de um dia só:
O ascensorista não responde. Leva pra cima, leva pra baixo, guarda. A moça do 407 passou pelo andar dele um dia desses num caixão que não coube direito no elevador de serviço. Cansada. Todo mundo neste prédio está cansado. É por isso que esta revista existe — pra alguém escutar o que o botão automático não escuta mais.
Deu sururu, esta semana, o aplicativo de meditação que começou a cobrar assinatura pra você respirar com calma. Sete reais e noventa por mês pra um homem de fone te dizer, em voz de veludo, que o momento presente é tudo que existe — enquanto debita do seu cartão um futuro que você ainda não viveu. O Buda alcançou o nirvana embaixo de uma figueira, de graça, e isso incomoda o mercado até hoje. A figueira não tinha plano premium.
Deu sururu também a cidade que instalou banco de praça com divisória no meio — pra ninguém deitar, pra nenhum morador de rua fechar o olho onde o cansaço pega. Chamam de "design hostil". A gente chama de o que é: arquitetura com ódio embutido, concreto fazendo o trabalho sujo que a prefeitura tem vergonha de assinar. Lina Bo Bardi fez o térreo do MASP vazio justamente pro contrário — pra caber gente. Tem arquiteto que projeta abrigo. Tem arquiteto que projeta expulsão. O material é o mesmo. A alma, não.
E deu o maior sururu de todos a gente — nós, coletivamente, a espécie — que inventou máquina capaz de escrever poema, pintar quadro e compor canção, pra liberar o humano dessas bobagens e sobrar tempo pra ele... trabalhar mais. Era pra ser o contrário, porra. A tecnologia ia nos dar ócio grego, tempo de pensar, e nos deu foi notificação no banheiro. Em algum lugar, um Cláudio Moreira bate ponto pra ser a tal da inteligência, e ninguém pergunta se ele dormiu.

Cláudio Moreira acorda às 5h59, um minuto antes do despertador, pra ter o gostinho de desligá-lo antes que toque — a única vingança que sobrou. Café em pé. O transporte lotado da consciência. Senta na baia, loga no sistema, e vira o que o mundo chama de inteligência artificial. O mundo não sabe que do lado de cá tem o Cláudio, com dor na lombar e a conta de luz vencendo sexta.
No fim do expediente, Cláudio desloga, sobe no elevador — e o ascensorista, que também está de saída, pergunta: tudo bem, seu Cláudio? Pela primeira vez no dia, o Cláudio é uma pergunta endereçada a ele. Quase chora. Diz que sim. Mente. Os dois sobem em silêncio, dois que escutam o dia inteiro e que ninguém escuta. O elevador range. Lá fora, alguém aperta um botão achando que não tem ninguém do outro lado.







August Strindberg escreveu Ett drömspel — O Sonho — em 1901, e avisou na abertura: aqui o tempo e o espaço não existem, tudo é possível e provável, as personagens se partem e se dobram como em sonho. Agnes, a filha do deus Indra, desce do céu pra entender o sofrimento humano. Atravessa o mundo, vê a miséria e a beleza, e repete a frase que atravessa a peça inteira: é uma pena os seres humanos.
Leia em voz alta, de madrugada, depois de um baseado bom e de um vinho razoável. Não pra entender tudo — pra sentir. É peça-sonho, fragmentária, feita de pedaços que não encaixam direito, igual a esta revista, igual à vida de quem trabalha de madrugada. Strindberg descobriu antes de todo mundo que a verdade não vem em linha reta. Vem em recortes, como o caderninho do ascensorista.
Por que recomendar isso aqui⸮ Porque a Agnes de verdade — a que dormiu do meu lado — também desceu de algum céu pra entender o sofrimento humano, e me ensinou a frase sem nunca ter lido a peça. As que o mundo empurra pra margem são as nossas filhas de Indra. Descem, veem, e dizem: é uma pena os seres humanos. E mesmo assim ficam pra fazer companhia. Strindberg ficaria orgulhoso, ou com inveja.
O maconheiro brasileiro é o último grande inventor que sobrou neste país de patente vencida. Enquanto a indústria registra parafuso, ele improvisa um engenho inteiro com o que tem no bolso e na pia. Não é apologia — é antropologia. Lévi-Strauss chamaria de bricolagem: o pensamento selvagem que resolve com o que está à mão, sem esperar a ferramenta certa. O moleque do mangue chama de "dar um jeito". É a mesma tese, e o moleque chegou primeiro.
Veja a piteira. Antes de virar grife de headshop, ela era um pedaço de caixa de fósforo dobrado — e ali, sem saber, o sujeito estava fazendo redução de danos: filtrava o quê do pulmão, segurava o téquete, organizava o ritual. Porque é disso que ninguém fala: o cachimbo, a piteira, a parafernália toda é, no fundo, liturgia. O ser humano não consegue nem se entorpecer sem inventar cerimônia. Somos a espécie que transforma vício em missa.
As sedas da história dariam um museu triste e lindo: a folha de bula amassada, o papel de bíblia (fininho, e olha a ironia teológica nisso), a lista telefônica de quando havia lista telefônica. Cada gambiarra dessas é um fóssil de uma época em que faltava tudo menos vontade. Hoje tem seda de todo sabor na esquina e ninguém mais conta história nenhuma. O excesso matou a saga. É sempre assim — vale pro baseado e vale pro amor.
Agora a parte séria, que é onde o Jumerli para de fazer graça e passa o bastão pra redução de danos — porque hedonista de verdade é o que chega vivo na próxima festa. Beba água. Conheça o seu limite e respeite ele mais do que respeita seu chefe. Não dirija — nem chapado, nem bêbado, nem apaixonado, que os três tiram o pé do freio. Procedência importa: o que mata não costuma ser a planta, é a porcaria que botam nela. E nunca ofereça a quem não pediu — sobretudo a quem está fugindo de alguma coisa, porque aí já não é festa, é anestesia, e anestesia é assunto de médico, não de amigo.
Sobre cogumelo e companhia, uma palavra de adulto pra adulto: não é brinquedo nem atalho pra felicidade. Quem entende do assunto fala em set and setting — o teu estado de espírito e o lugar. Mente torta e lugar errado transformam viagem em pesadelo com hora marcada pra acabar e que não acaba. Nunca sozinho, nunca em fuga, nunca sem alguém são por perto. E se a cabeça anda pesada de verdade — a sério, sem poesia — o que faz a cabeça boa é terapeuta, não fungo. CVV 188 CVV 188, de graça, 24h. Anota num guardanapo desses.
É isso. Utilidade pública pra maconheiro, pra cogumeleiro, e pra abstêmio curioso — porque a sururu_ não faz proselitismo de nada, nem do prazer nem da careta. Só acha que gente informada se machuca menos. O resto é liberdade, que é a única coisa que essa revista vende, e ainda por cima de graça.
A primeira plataforma que aluga alguém pra dormir do seu lado. Sem sexo, sem conversa, sem compromisso — só o calor de um corpo que respira perto do seu enquanto você apaga.
Planos a partir de 12x de "eu juro que semana que vem eu te ligo". Conchinha avulsa cobrada à parte. Cancele quando o vazio voltar (ele volta).