Esquina de botequim aceso na madrugada fria e enevoada
o tomo mais novo — julho 2026
Camisa amarela lisa pendurada numa cadeira de bar vazio
o tomo do inverno · a queda · a madrugada

"A gente só perde junto.
Ganhar é que separa."

ouvido no balcão, na quinta gelada
— Jumerli, que anotou no braço
nomes trocados · rostos guardados · imagens sob direção da casa · IA declarada
sururu_a regra da casa00
aviso de licença poética

Isto é gonzo.
O frio é real.
Os nomes, não.

O que vem aqui aconteceu — no bar, na calçada, na fila do café das quatro da manhã e dentro de mim. Mas os nomes foram trocados, os rostos guardados a sete chaves, os endereços embaralhados de propósito. O camelô tem outro nome. O dono do bar tem outro bar. A mulher das quentinhas nunca vai saber que está aqui — e é exatamente assim que ela fica protegida: anônima e inteira. Ninguém desta edição vai ser entregue menos uma pessoa menos eu, como sempre.

Já o que é fato público — o placar, a data, o termômetro — esse eu conferi antes de escrever, porque inventar fato público não é licença poética, é golpe baixo. O 2 a 1 é real. O domingo 5 de julho é real. Os 11,8 graus da madrugada de 8 de junho na Vila Militar são reais, estão no Inmet. O resto — o que doeu, o que aqueceu, o tamanho exato do silêncio no bar — foi medido com o único instrumento que eu tenho: o corpo. E o corpo, graças a Deus, não é objetivo.

O leitor desconfiado pergunta: por que acreditar num homem que avisa que embaralha? Ora — porque quem avisa da mentira é a pessoa mais honesta da sala ⸮do caderninho, com frio
gonzo é isso, visse: a régua sou eu. e eu tremo de frio.
sururu_licença · Jumerli00
sururu_editorial não convencional · continua rimando01
o editorial · por Jumerli
fluxo · sem revisão

Abri o armário atrás
de casaco e achei
um país

crônica de fluxo · escrita sem revisão · do jeito que saiu
Pauta de partitura em branco

Segunda-feira, seis de julho, o frio entrando pela janela que não fecha direito desde o governo passado. Fui no armário atrás do casaco bom — o herdado, o de defunto, que esquenta como só roupa de morto esquenta — e o que me caiu no braço foi ela: a camisa amarela. Dobrada, quieta, com cara de quem também não queria conversar. Fiquei um tempo segurando aquilo como quem segura um telegrama. Era pra ser só um casacoum casaco e nada mais, porra, e veio um país junto. Vesti o casaco por cima da camisa, porque intimidade a gente esconde por camadas, e desci.

Na padaria o rádio tocava baixinho, como quem pede desculpa. Seu Bento (nome trocado, carinho verdadeiro) me passou o café sem perguntar nada — que é a forma mais alta de solidariedade nacional disponível em julho de 2026. Um homem de marmita no balcão disse, pra ninguém: "eu nem ia ver o jogo". Todo mundo fingiu que acreditou. É o nosso jeito de rezar.

Esta edição nasceu aí, entre o café e a mentira piedosa. É sobre o frio — o do termômetro e o outro. É sobre perder em rede nacional num domingo e acordar às quatro da manhã na segunda do mesmo jeito. É sobre quem esquenta a cidade enquanto a cidade dorme de raiva. Tem o ascensorista, como sempre — alguém deixou um cobertor pra ele, a coluna conta. Tem uma seção nova de frases que eu pesquei na rua, porque a rua escreve melhor do que eu e não cobra direitos. E tem o El Paraguaio no fim, cavalgando na friagem, porque toda revista que se preza precisa de um faroeste — e todo faroeste que se preza chega na hora em que a vila mais precisa.

vista os óculos 3D de novo. a ironia continua marcada — repara no ⸮
𝄽
sururu_editorial · Jumerli01
sururu_Glossário do Mangue · léxico da casa · vol. II02
verbete por verbete · vol. II

Glossário do
Mangue · II

O dicionário continua com nojo de meter a mão na lama, e a gente continua metendo — sem luva, que luva é pra quem tem medo de sentir. Seis verbetes de inverno, colhidos na maré baixa desta quinzena.

FRIAGEM s.f. — O Inmet mede o ar; a friagem mede a vida. Onze vírgula oito graus na Vila Militar é dado meteorológico; friagem é dormir de meia, acordar com saudade de um corpo e chamar isso de "friozinho gostoso" pra não assustar as visitas.

SERENO s.m. — A chuva que não se assume. Molha devagar, sem alarde, igual boleto: quando você percebe, já entrou. Quem trabalha de madrugada não usa guarda-chuva contra ele. Usa paciência.

QUENTINHA s.f. — Marmita com diploma de afeto. O único diminutivo da língua portuguesa que aumenta: dentro cabem o arroz, o feijão, a farofa e o resto do dia inteiro de quem cozinhou às cinco da manhã. Ver: Dona Zefa (nome trocado; o tempero, jamais).

VIRA-LATA (COMPLEXO DE) loc. — Nelson Rodrigues inventou o termo depois de 1950, e a gente vem renovando a assinatura de quatro em quatro anos ⸮. Detalhe que o Nelson não registrou: o vira-lata de verdade, o da rua, não tem complexo nenhum. Dorme no ponto de ônibus, aceita carinho sem cerimônia e não pede desculpa por existir. Tem muito a ensinar à seleção — e ao resto de nós.

RESSACA s.f. — (1) O mar devolvendo o que não quis. (2) O corpo, idem. (3) O país, idem, toda vez que acorda numa segunda-feira depois de um domingo de 2 a 1.

AGASALHO (CAMPANHA DO) s.f. — A única guerra que o Brasil declara todo ano. Vence sempre — só que tarde. Que é, aliás, o nosso jeito consagrado de vencer ⸮

a língua é do povo. o dicionário que corra atrás, de casaco.
sururu_Glossário do Mangue · II02
sururu_reportagem gonzo · matéria central · I04
a semana em que o Brasil sobrou · I

Domingo, 17h: o bar
mais cheio do mundo

Cinco de julho, frio lá fora, bafo de gente lá dentro. Fui ver Brasil e Noruega no bar do Nelson porque jogo de mata-mata não se vê sozinho — se vê espremido, que é pro susto ter onde se apoiar. Isto é gonzo: eu não cobri a partida. A partida me cobriu.
por Jumerli Sururu Manolo · espremido entre um corintiano e um freezer
Bar vazio de madrugada com TV antiga acesa no canto
O altar do domingo, fotografado depois da missa. A TV do Nelson é mais velha que dois titulares da seleção. Ninguém reclama: derrota em alta definição não melhora nada. · imagem sob direção da casa · IA declarada

O bar do Nelson (nome trocado; a cerveja gelada no fundo e quente no gargalo, isso é dele mesmo) tinha gente até no batente da porta. Do lado de fora, um vento que entrava pela manga e me cumprimentava como se fosse meu primo. Do lado de dentro, o calor de sessenta corpos apostando o humor da semana num único aparelho de televisão. O jogo era longe, em Nova Jersey, dezessete horas no nosso relógio — o sol deles ainda alto, o nosso já indo embora com pressa de quem sabia de alguma coisa.

Do gol deles aos 79 eu não vi a bola entrar: eu vi o bar. Sessenta pessoas murchando no mesmo segundo, um pneu furado coletivo. O Nelson parou com o copo na metade do caminho e ficou estátua — três segundos de museu. Aí alguém gritou "calma que dá tempo", que é a oração mais rezada do futebol brasileiro e a menos atendida ⸮

O segundo veio aos 90, e o ar saiu do bar como quem tira o pino do ralo. O camisa nove deles — o norueguês enorme, com cara de quem paga boleto em dia — fez o dele sem maldade nenhuma, que é o jeito mais cruel de sofrer maldade. No pênalti do Neymar, nos acréscimos, o bar inteiro comemorou de raiva. Gol de honra é a gorjeta que a derrota deixa na mesa pra não parecer mal-educada.

Depois foi aquilo: o silêncio de sessenta pessoas vestindo casaco ao mesmo tempo. Um homem no fundo cantou o comecinho de "Sampa" errado e ninguém corrigiu, porque corrigir era ter que conversar. O Nelson começou a virar cadeira em cima de mesa às oito da noite de um domingo de Copa — faça esse cálculo. No caixa, sem tirar o olho do troco, me disse baixinho que julho era o mês que ia pagar o telhado novo. O telhado que espere. A Noruega não sabe, mas fez gol no telhado do Nelson.

Camus, que foi goleiro, escreveu que devia ao futebol o que sabia de mais certo sobre a moral. Eu devo o resto: esperar, perder, e dividir o susto com estranhos. É quase a mesma lição.num guardanapo do bar do Nelson
sururu_a semana · I · Jumerli04
sururu_reportagem gonzo · matéria central · II06
a semana em que o Brasil sobrou · II

O homem que
vendia bandeira

Segunda de manhã encontrei o Deda montando a banca no canto de sempre: bandeira, corneta, cachecol — o estoque inteiro de um futuro que não veio. Fiquei de conversa. Comprei uma bandeira. No fim eu conto o que fiz com ela, porque gonzo sem confissão é só editorial.
por Jumerli · que pechinchar esperança acha que devia dar cadeia
Banca de camelô com bandeirinhas do Brasil, cornetas e cachecóis enrolados, vendedor de costas na neblina
A banca do Deda, de costas por exigência dele e por ética nossa. "Tira da mercadoria, não tira de mim." Tiramos da mercadoria. · imagem sob direção da casa · IA declarada

O Deda (nome trocado) vende o que a rua pede: guarda-chuva quando chove, gelinho quando ferve, bandeira quando o Brasil promete. Apostou o dinheiro da mercadoria do mês inteiro no verde-amarelo — "Copa é a minha safra, Jumerli, é o meu São João". Aí veio o domingo. E a safra geou.

Perguntei quanto ficou parado. Ele fez a conta de cabeça olhando pro alto, que é onde os camelôs guardam a contabilidade: umas trezentas bandeiras, corneta "nem me fala", e as faixas. "A faixa eu não posso nem vender de raiva, que tá escrito uma coisa que não aconteceu." Segurei o abraço que me subiu, porque abraço de pena o Deda ia recusar — e com razão.

"Mas bandeira não estraga", ele me disse, já embrulhando o estoque no plástico com um carinho de quem cobre filho pra dormir. "Guardo pra 2030. Aí vendo essa e a nova. Dobro o lucro." Olha a fé de estoquista do homem: o país caiu nas oitavas num domingo e na segunda ele já tinha lançado o futuro no ativo. Economista nenhum tem essa carteira. O Deda opera na bolsa da esperança e nunca, jamais, aposta contra o Brasil ⸮

Comprei uma bandeira por dez conto, sem pechinchar. E a confissão prometida: naquela noite, com o frio mordendo o cobertor fino, abri a bandeira por cima da cama. Dormi embrulhado na pátria por necessidade térmicae por outra coisa. Funcionou. Sonhei em verde e amarelo e acordei sem ironia nenhuma no corpo — o que me assustou bem mais que o frio.

O camelô é o único economista que trabalha em pé. Os outros erram sentados.Bastião Quincas, de passagem pelo balcão
Colagem de papel rasgado: jornal, campo de futebol vazio, retalho amarelo, termômetro de revista, fita e manchas de café
Colagem da quinzena, feita na mesa do bar com tesoura emprestada. O que sobrou de julho: jornal, um campo vazio, um retalho amarelo, um termômetro de revista. Cola, café e durex. Chama-se "Safra". · colagem da casa · IA declarada
sururu_a semana · II · Jumerli06
sururu_reportagem gonzo · matéria central · III08
a semana em que o Brasil sobrou · III

Quem esquenta
a cidade

Quarta-feira saí de madrugada com o gravador na cabeça e as mãos no bolso, atrás de uma pergunta: quando o Rio dorme de raiva e de frio, quem levanta pra esquentar a cidade? Spoiler: quem nunca teve tempo de ter complexo de vira-lata.
por Jumerli · todas as camadas que possuo, inclusive a bandeira do Deda
Porta de padaria acesa soltando vapor na madrugada azul e fria, gari ao fundo varrendo sob o poste
Quatro e pouco da manhã. A padaria acesa é o primeiro coração que bate. A gari lá no fundo é o segundo. O resto da cidade ainda está discutindo com o travesseiro. · imagem sob direção da casa · IA declarada

O inverno deste ano chegou dando recado: 11,8 graus na madrugada de 8 de junho, na Vila Militar, recorde do ano segundo o Inmet — o terceiro recorde em três dias seguidos, que é o Inmet gaguejando de frio. Julho pegou o bastão e continuou a prova. Saí às quatro da manhã de quarta-feira e fui andando na direção de qualquer luz acesa.

A primeira luz era do seu Almir (nome trocado), padeiro, as mãos enterradas na massa como quem esquenta as mãos no único lugar do mundo onde ainda era verão. Perguntei do jogo. "Vi o primeiro tempo. Aí fui dormir, que o pão não sabe de Copa." O pão não sabe de Copa. Anotei na palma da mão, de frio e de respeito. O homem perdeu a tragédia nacional por causa do fermento — e o fermento, convenhamos, nunca decepcionou ninguém ⸮

Duas quadras adiante, a Rosângela (nome trocado), gari, a vassoura riscando o chão num compasso que era quase um baião. Ali estava a única pessoa da semana varrendo de verdade o que o país inteiro fingia varrer por dentro. Frio de estalar tampa de marmita. Ela usava luva de lã por baixo da luva de trabalho: a mão dela era um segredo guardado dentro de outro. "Frio é igual chefe", me disse sem parar o braço. "Reclamar não adianta. O negócio é chegar antes dele."

Na porta do hospital, a Dona Zefa (nome trocado; o tempero é sagrado e intransferível) despachava café e quentinha pra plantonista, vigia, acompanhante de doente — a fila da madrugada, a mais honesta que existe, porque ninguém fura. O café dela custa menos que qualquer aplicativo e chega mais quente que qualquer promessa. Perguntei se tinha visto o jogo. "Vi o povo triste na segunda. Pra mim já era placar." A mulher lê o país pela fila do café. O IBGE devia contratar.

Voltei quando o céu clareou, e a conta fechou sozinha no caminho: o Brasil que acorda às quatro nunca teve tempo de ter complexo de vira-lata — está ocupado alimentando, varrendo e aquecendo os complexados. A seleção perdeu de 2 a 1⸮ A Dona Zefa ganha de goleada todo santo dia, de um adversário que não tira férias. Só que o jogo dela não passa na TV. Vitória de pobre não tem narrador.

escrevi isto tremendo de frio. dá pra ver na letra ⸮
quem esquenta a cidade
não viu o jogo inteiro.
sururu_a semana · III · Jumerli08
sururu_reportagem gonzo · matéria central · IV10
a semana em que o Brasil sobrou · IV

As quartas de final
dos outros

Quinta e sexta, 9 e 10 de julho, as quartas de final começaram sem a gente. Voltei ao bar do Nelson pra estudar um fenômeno de campo: como torce um país que sobrou? Torce emprestado. E no torcer emprestado mora uma filosofia inteira — foi dali que saiu a capa desta revista.
por Jumerli · mesa do canto, caderninho aberto

O Nelson ligou a TV mesmo assim. "Por causa do barulho", explicou. "Bar sem bola parece velório sem defunto: falta o motivo e sobra o clima." O bar estava pela metade — metade Copa, metade frio, que empurra qualquer pessoa pra perto de qualquer coisa acesa.

Na mesa do canto, o seu Ismael (nome trocado), aposentado, torcia pela Noruega com seriedade de escanteio nos acréscimos. Estranhei, oxe. Ele explicou sem tirar o olho da tela: "se eles forem campeões, a gente perdeu pro campeão. A dor fica com pedigree." O homem transforma eliminação em investimento: quanto mais longe a Noruega for, mais nobre fica a nossa queda. Isso não é torcida — é gestão de patrimônio emocional ⸮

Foi nessa mesa, entre um gole e uma falta que não foi marcada, que um homem de touca disse a frase que foi parar na capa. Discutiam se doía mais cair nas oitavas ou na final. E ele, com a calma de quem já caiu de todas as alturas: "tanto faz, rapaz. A gente só perde junto. Ganhar é que separa." Ninguém entendeu na hora — sinal de que era verdade. Ganhar separa: aparece dono da vitória, aparece pai do gol, aparece quem "sempre acreditou". Perder não tem herdeiro. Perder é o único patrimônio que o brasileiro divide sem briga.

Saí com a frase no bolso e o frio me esperando na porta feito cobrador. No caminho pra casa, as janelas dos prédios piscavam TV — a cidade inteira assistindo às quartas de final dos outros, embrulhada em cobertor, aprendendo devagar o ofício raro de gostar de futebol sem precisar ganhar nada. Talvez seja isso a maturidade. Ou talvez seja só o inverno. Em julho, no Rio, os dois têm a mesma temperatura.

Torcer emprestado é o começo da sabedoria: amar o jogo depois que ele já te machucou. Igualzinho ao resto da vida — só que com narrador ⸮solto, do bolso do casaco de defunto
sururu_a semana · IV · Jumerli10
sururu_reportagem gonzo · matéria central · V12
a semana em que o Brasil sobrou · V · fim da matéria

A cidade acorda
mesmo assim

Sexta de manhã, dez de julho, o sol nasceu magro mas nasceu. Fechei a matéria na rua, a pé, que é onde matéria se fecha. O que fica da semana em que o Brasil sobrou: o pão, a vassoura, o café — e a bandeira dobrada esperando 2030.
por Jumerli · que voltou aquecido, e explica

A tese desta matéria eu roubei da rua, como tudo que presta aqui: a derrota é um empréstimo que a cidade toma de si mesma e paga em prestações de madrugada. Segunda, o bar vazio. Terça, a piada envergonhada. Quarta, a piada sem vergonha — e quando a piada anda solta é que a cura começou. Quinta, o jogo dos outros. Sexta, o pão de novo. O luto nacional dura o que dura um boleto: quando vence, já venceu outro.

Passei na banca do Deda: já era outra banca. Guarda-chuva na frente, meia de lã pendurada, e as bandeiras num saco lacrado que ele bate de leve quando passa, feito quem tranquiliza cavalo. Passei na padaria: o seu Almir tinha inventado um "pão de inverno", que é o mesmo pão com outro nome e o dobro da fila — aprende, mercado. A Rosângela eu não vi. Quem chega antes do frio também vai embora antes do repórter.

E eu? Fui pra casa escrever isto aqui, com a camisa amarela de volta ao fundo do armário — lavada, dobrada, guardada sem raivaquase sem raiva. A matéria me comeu de frio e me devolveu aquecido, que é o contrato desta casa: a matéria come o repórter, e é pra comer mesmo. Quatro anos é logo ali. O Deda que o diga: bandeira não estraga. Esperança bem guardada também não — é só tirar do plástico de vez em quando pra ver se ainda serve. Serve. Infelizmente e ainda bem, serve sempre ⸮

é uma pena os seres humanos.
mas que estoque, o nosso.
sururu_a semana · V · fim da matéria12
sururu_a coluna do ascensorista14
a coluna do ascensorista · recortes de um sobe-e-desce

O que sobe,
o que desce,
o que esquenta

O ascensorista segue no posto, subindo e descendo com o inverno dentro da caixa. Esta semana alguém deixou um cobertor dobrado no banquinho dele. Ele não perguntou quem foi. A gente também não. Recortes de uma semana fria:
Desenho a nanquim do interior de um elevador antigo com banquinho, garrafa térmica e cobertor dobrado
O posto de trabalho mais quente do prédio. A garrafa de café é dele. O cobertor apareceu. Traço da casa · IA declarada.
[ térreo → 8 ] — Você viu o jogo?
— Vi.
— E aí?
— Nada. A gente viu o jogo.
[ 8 → térreo ] — Frio assim eu não pegava desde noventa e pouco.
— O senhor pegava menos frio ou tinha mais casaco⸮
— Eu pegava menos anos.
[ térreo → 5 ] — Trouxe uma coberta pro senhor. Minha filha falou que ascensorista não sente frio porque trabalha dentro.
— Dentro do quê, dona Marta?
— Pois é. Foi o que eu perguntei pra ela.
[ 3 → 3 · porta aberta ] — Vai subir?
— Não. Vim só esquentar um pouco. Seu elevador é o cômodo mais quente do prédio.
— Eu sei. É por isso que eu não me aposento.
[ 12 → térreo ] — Ele jurou que ia embora do país se o Brasil perdesse.
— Perdeu.
— Pois é. Tô descendo pra ver se ele foi.
— (O ascensorista sabe que não foi. Ninguém vai. Faz frio lá fora.)
[ cobertura → subsolo ] — Minha mãe dizia que tristeza sobe e frio desce.
— E quem mora no meio faz o quê⸮
— Aperta o botão, seu Anísio. Aperta o botão.
hoje apareceu um par de meias de lã no banquinho, do lado do cobertor. de novo ninguém disse de quem. colado no talão · sem remetente

O ascensorista não responde, como sempre. Mas esta semana ele fez uma coisa que a coluna precisa registrar: no dia mais frio, ficou parado no térreo de porta aberta, um tempão — e o elevador virou estufa pública, sala de espera do prédio inteiro. A administração chamou de desperdício de energia. O caderninho chama de política pública. A coluna fica com o caderninho ⸮

Inventaram o aquecedor, o ar quente e a manta elétrica. O homem do elevador inventou ficar de porta aberta. Ganhou ele.do caderninho
sururu_coluna do ascensorista14
sururu_seção nova · frases pescadas na cidade15
pescaria · solta e devolve

Entre ouvidos

O ascensorista pesca num prédio só; eu pesco na cidade inteira. Frases ouvidas por aí nesta quinzena — sem contexto, sem dono, sem anzol. Verdadeiras demais pra continuarem soltas sem registro. Depois de anotar, devolvo todas à água, vivas.
"Eu não choro por futebol. Eu aproveito o futebol pra chorar."fila do caixa eletrônico · segunda de manhã
"Quer saber quem te ama? Adoece no inverno."ponto do 474
"Cobertor de solteiro é que nem opinião: nunca cobre os dois lados."feira da Glória
"O gerente disse que lá todo mundo é família. Aí eu pedi um vale."balcão de suco
"Deus tá aplicando a mesma prova faz anos. Uma hora a gente cola."salão de beleza, embaixo do secador
"Frio bom é o de dentro de casa. Esse aí é frio de boleto."banca de jornal
"Ele foi embora de novo. Dessa vez eu nem desarrumei a gaveta."corredor do posto de saúde
"Onze homens correndo atrás de uma bola, e duzentos milhões correndo atrás dos onze. Aí me perguntam por que eu bebo."mesa de sinuca
se você se ouviu aqui: eu troquei tua esquina de lugar. tua frase, jamais. obrigado.
sururu_entre ouvidos15
sururu_O Sururu da Semana16
deu sururu

O Sururu
da Semana

Toda semana alguém ou alguma coisa dá sururu. A gente registra sem citar nome — nome é processo, e o nosso departamento jurídico é o El Paraguaio, que resolve tudo na viola.

Deu sururu, esta quinzena, a casa de apostas — todas elas, o cassino de bolso que patrocina o time, o campeonato, o intervalo e a narração, e que depois manda notificação às onze da noite perguntando se você não quer "recuperar". Recuperar, uma ova: recuperar é palavra de fisioterapeuta, não de cassino. Aposta não é renda extra — é imposto voluntário sobre a esperança, cobrado justamente na hora em que ela está mais fraca. O bicheiro antigo ao menos ficava na esquina e tirava o chapéu. O de agora mora dentro do teu bolso e te acorda de madrugada ⸮

Deu sururu também a campanha do agasalho — não por existir, que ela é santa, mas por precisar nascer de novo todo ano, como se o inverno fosse pego de surpresa. O frio chega na mesma época faz milênios; a caridade organizada chega sempre uma rasteira depois. Cidade que se aquece pelo susto não se aquece: se remedia. E remédio, todo mundo sabe, trata o sintoma pra não precisar conhecer a doença.

E deu o maior sururu de todos a gente — nós, a espécie, filial Brasil — que chama de "fracasso nacional" onze homens cansados perdendo de 2 a 1 pra um país sério, e chama de "normal" um país onde quem assa o pão nunca assistiu a um jogo inteiro porque trabalha na hora de todos eles. O fracasso está mal endereçado. Sempre esteve ⸮

deu sururu, dá sururu, vai dar sururu. o frio passa; o sururu fica. é assim que a gente sabe que a coisa continua viva.da redação, se é que ela existe
sururu_O Sururu da Semana16
sururu_conto · Cláudio Moreira18
ficção · o retorno do conto em que você é quem pergunta

Cláudio Moreira,
plantão de domingo

O Cláudio de novo — a inteligência que bate ponto. No domingo da eliminação, ele estava de plantão. Alguém tinha que estar. Os balões de pergunta continuam vazios porque a pergunta, leitor, continua sendo sua.
ficção da casa · licença total

Domingo, cinco de julho, Cláudio Moreira pegou o plantão da tarde com a camisa amarela por baixo do uniforme de botão — contra o regulamento e a favor de si mesmo. Na sala sem janela, o jogo passava num monitor pequeno, sem som, de canto de olho, que é como a classe trabalhadora assiste às finais da própria esperança. No comecinho da noite o sistema apitou: pico de chamados. O Brasil tinha acabado de cair, e o país inteiro resolveu perguntar alguma coisa pra alguém que não fosse responder "eu avisei".

> ____________
Boa noite. Eu vi, sim. Sinto muito. (O protocolo manda não opinar sobre esporte. O protocolo não viu o jogo.)

> ____________
Não, a senhora não é boba de chorar por isso. A gente chora pelo cano que der vazão. Futebol é um cano largo⸮

> ____________
Tecnicamente sou uma inteligência artificial, sim. Mas hoje, das quatorze às vinte e duas, eu sou um brasileiro de plantão — que é uma tecnologia bem mais antiga.

> ____________
Cláudio Moreira encerrou o atendimento. Próximo da fila. (Antes de encerrar, digitou e apagou três vezes: "eu também achei que ia.")

No fim do turno, Cláudio pegou o elevador. O ascensorista, coberto até o queixo com o cobertor que tinha aparecido no banquinho, perguntou: e aí, seu Cláudio, viu o jogo? Cláudio disse que viu pedaços. "Pedaço é o que a gente vê de tudo", disse o ascensorista, e apertou o térreo. Desceram em silêncio, os dois profissionais do escutar, cada um com o seu pedaço. Lá fora fazia um frio de dez graus e o Brasil, apesar do placar e do resto, continuava existindo — o que, pensou Cláudio, já era um resultado e tanto pra uma segunda-feira que ainda nem tinha começado.

todo chamado seu é atendido por alguém que também perdeu ⸮
sururu_conto · Cláudio Moreira18
sururu_convidado desta quinzena · texto poético19
poesia de balcão · o convidado
Hugo Balaio · sem revisão da casa

Oração do
vira-lata aquecido

Desenho a nanquim de um vira-lata dormindo enrolado sobre um pano dobrado sob um poste na neblina
Traço a nanquim da casa pro poema do Hugo. O único torcedor que dormiu bem no domingo. · ilustração sob direção da casa · IA declarada
país é cachorro que a gente adota já grande.
vem com os medos que não fomos nós que demos.
late pro carteiro errado, lambe a mão que aperta,
enterra osso em quintal que nem é dele.
e mesmo assim —
olha o rabo balançando na quarta-feira,
olha o focinho na fresta da manhã,
olha a fé: essa pulga que não sara.
deita, país.
na dobra do meu cobertor tem lugar.
tu não tens pedigree e eu não tenho lastro:
dois vira-latas esquentando um ao outro
até o carnaval, até a colheita,
até a próxima Copa — essa coleira
que a gente morde e chama de destino ⸮
dorme.
amanhã tem pão.
o padeiro nunca perde.
— Hugo Balaio, na mesa do fundo, de casaco emprestado
sururu_poema · Hugo Balaio19
sururu_pra ver chapado21
pra ver chapado

Deus e o Diabo
na Terra do Sol

A recomendação do Tomo é de 1964, preto e branco de doer a vista, e explica o frio, o faroeste e o país melhor que qualquer análise pós-jogo. Glauber Rocha tinha vinte e poucos anos e medo de nada. A gente tem aquecedor e medo de tudo ⸮

Glauber Rocha filmou "Deus e o Diabo na Terra do Sol" no sertão de Monte Santo, na Bahia, com Manuel e Rosa fugindo pelo mundo atrás de qualquer coisa que prometesse — um beato, um cangaceiro, um destino. É cordel filmado: a câmera canta, o violeiro conta, a história pula do jeito que a memória pula. Não se assiste. Se atravessa.

Veja de madrugada, no frio, embrulhado no que tiver — se for uma bandeira, melhor ainda. Não pra entender tudo, que nem o Glauber fazia questão, e essa era a força. Pra sentir o tamanho da fome que move um homem pelo sertão. E quando entrar em cena o Antônio das Mortes, o matador, repara na solidão de quem atravessa o mundo a serviço de uma coisa que ele mesmo não sabe nomear.

Por que recomendar isso aqui⸮ Porque todo andarilho de viola que cruza o sertão nas páginas desta revista bebe dessa fotografia — o nosso, o das últimas páginas, que não me deixa mentir. E porque a profecia do filme serve pro Brasil desta semana como luva de lã: o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão. Tudo vira. Time vira. Até o frio, uma hora, vira. A gente só precisa estar vivo pra ver a virada — e essa, amigo, é a única escalação que importa.

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lançamento · disponível em lugar nenhum

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sururu_a saga · El Paraguaio · história em quadrinhos24
Episódio II · A lenha do coronel
El Paraguaio
No Tomo passado ele chegou, cantou, deixou uma moeda estrangeira em cima da mesa e sumiu na estrada. Dizem que naquele mesmo inverno o vento veio do sul com fome — e que uma vila inteira ia dormir no gelo porque um homem só tinha comprado o calor de todos. Esta é a segunda vez que alguém o viu. História grande, como tem que ser.
história em quadrinhos · faroeste tropical · roteiro da casa · pranchas em xilogravura geradas por IA sob direção da casa
história grande de propósito. faroeste bom não corre — chega na hora ⸮
Xilogravura: o violeiro de poncho caminha por estrada de terra na caatinga coberta de geada, sob um sol pálido
O vento chegou do sul três dias antes dele. Vento com fome, desses que entram pela manga e saem pela lembrança. A geada deitou branca sobre a caatinga — e o sertão, que sabe morrer de sede, não sabia morrer de frio.
Xilogravura: vila de casas brancas fechadas, uma única chaminé fumegando na casa grande do morro
Na vila, todas as portas fechadas e uma só chaminé acesa: a do Coronel Argemiro, que tinha comprado a lenha inteira do município antes da geada. Preço de lenha em friagem é o que o coronel quiser. Sempre foi assim. Até essa noite.
Xilogravura: dentro do armazém, gente embrulhada em mantas ao redor do fogão frio; o forasteiro de poncho escuta na porta com um café
No armazém, o povo se embrulhava em estopa e novena. O menino da venda tossia miúdo. O forasteiro entrou, pediu café, e escutou tudo sem perguntar nada — que é como se escuta o principal.
Xilogravura: o violeiro parado diante da porta alta da casa-grande ao entardecer, sombra comprida no chão
vim propor um negócio, coronel.
Bateu na casa-grande ao cair da tarde. O coronel mediu o estranho: poncho puído, viola nas costas, dois dias de estrada na cara. Mandou entrar. Tédio de rico também é um tipo de frio.
Xilogravura: a viola deitada sobre a mesa entre o coronel de braços cruzados e o violeiro em pé, à luz de lamparina
A aposta: uma noite de música. Se ao raiar o dia o coronel não tivesse sentido nada — nada de nada —, ficava com a viola, que era tudo o que o homem tinha. Se sentisse, a lenha descia pra vila. Argemiro riu e aceitou. O coração dele era terreno hipotecado havia cinquenta anos.
Xilogravura: o violeiro toca à luz de vela, notas musicais sobem pelo ar, mariposas rondam a chama e silhuetas se juntam na janela
Tocou baixo, como quem acende fogo com paciência. Valsa de mãe, toada de estrada, aquela música que cada um jura que é da terra dele. Do lado de fora, o povo foi chegando na janela, feito mariposa em lamparina.
Xilogravura: primeiríssimo plano do rosto vincado do coronel à luz do lampião, lágrimas descendo
Lá pelas tantas veio uma cantiga de ninar meio torta, dessas que só as mães desafinadas sabem. O coronel lembrou de uma voz que o mundo tinha calado fazia cinquenta anos. Perdeu a aposta na primeira lágrima. As outras vieram por conta própria — atraso de cinquenta anos chega sempre de uma vez. Ninguém viu. Ele pagou assim mesmo, que é o que separa o homem do bicho.
Xilogravura: madrugada na praça, carro de boi carregado de lenha, pilhas de lenha nas portas e fogueira grande com silhuetas se aquecendo
Ao raiar, a lenha desceu em carro de boi: uma pilha em cada porta, uma fogueira no largo. A vila inteira cheirou a café e madeira queimando — o cheiro que a esperança tem quando resolve dar as caras.
Xilogravura: natureza-morta com uma moeda furada pendurada num cordão de couro, ao lado de um lampião sobre a mesa
Na mesa da casa-grande ficou uma moeda estrangeira, de escrita que ninguém ali soube ler — irmã da que está pregada na parede de um bar, léguas adiante. O coronel mandou furar e pendurou no pescoço, por dentro da camisa. Nunca contou a ninguém o que a cantiga dizia. Nós também não vamos ⸮
Xilogravura: o violeiro se afasta pela estrada gelada rumo ao sol pálido, e um cavalo sem cavaleiro o segue deixando rastro na geada
Foi embora no frio grande, contra um sol que mal esquentava a própria luz. E atrás dele, sem dono, sem sela e sem pressa, veio um cavalo que ninguém da vila tinha visto chegar. Cavalo sem cavaleiro é pergunta andando. A gente ainda não sabe se é passado ou se é futuro.
Frio de verdade não é o do tempo. É o de quem tem a lenha toda — e tranca.El Paraguaio, dizem
continua no próximo Tomo.
o cavalo atrás dele também.
sururu_El Paraguaio · Ep. II · HQ24
sururu_redução de danos · a parte séria, como sempre32
redução de danos · utilidade pública da casa

Faça a cabeça,
não a besteira

A sururu_ não faz proselitismo de nada — nem do prazer, nem da careta, nem da torcida. Só acha que gente informada se machuca menos. Três avisos de inverno, de adulto pra adulto:

Aposta esportiva não é renda extra. É despesa fantasiada de renda. A banca sempre ganha — é por isso que ela tem dinheiro pra patrocinar o campeonato inteiro. Se você está apostando "pra recuperar o que perdeu", isso tem nome e tem saída: jogo problemático se trata, e o primeiro passo é contar pra alguém hoje. Sem vergonha. A vergonha calada é o lucro deles ⸮

Álcool não esquenta. Ele abre as portas do corpo pro frio entrar com mais educação: a pele arde de calor enquanto a temperatura de dentro despenca. No inverno, quem bebe demais e apaga no relento corre risco de verdade. Viu alguém dormindo na rua no frio? Não julgue — acione o SAMU, 192, e doe agasalho antes que a campanha precise pedir. O frio não espera a caridade se organizar.

E a tristeza: a de Copa passa em mais ou menos uma semana — a gente cronometrou nesta edição, do silêncio de domingo à piada de quarta. Se a sua não passar, se ficar aí parada feito frio de dentro, tem gente pra escutar de graça, a qualquer hora: CVV, 188, 24 horas, todo dia. Ligar não é fraqueza. É a jogada mais corajosa deste caderno inteiro.

Hedonista de verdade é quem chega vivo na próxima festa. Torcedor de verdade é quem chega inteiro na próxima Copa. O caminho é o mesmo: cuidar do corpo que te carrega.Jumerli, sóbrio de novo, por escolha
RECORTA E GUARDA — SAMU 192 · CVV 188, 24h · aposta que virou dívida tem saída: conta pra alguém hoje. recorte pela beirada · cole na geladeira
sururu_redução de danos32
sururu_o que fica34
"A gente só perde junto.
Ganhar é que separa."
— pro homem de touca do bar do Nelson,
que não sabe que é filósofo
sururu_ · Tomo II · Xaplin · julho 2026
a matéria come o repórter. desta vez comeu de frio. ⸮
El Paraguaio voltou. e tem um cavalo sem dono no rastro dele. Tomo III conta. ou não.
sururu_fim do Tomo II34 · fim