

O que vem aqui aconteceu — no bar, na calçada, na fila do café das quatro da manhã e dentro de mim. Mas os nomes foram trocados, os rostos guardados a sete chaves, os endereços embaralhados de propósito. O camelô tem outro nome. O dono do bar tem outro bar. A mulher das quentinhas nunca vai saber que está aqui — e é exatamente assim que ela fica protegida: anônima e inteira. Ninguém desta edição vai ser entregue menos uma pessoa menos eu, como sempre.
Já o que é fato público — o placar, a data, o termômetro — esse eu conferi antes de escrever, porque inventar fato público não é licença poética, é golpe baixo. O 2 a 1 é real. O domingo 5 de julho é real. Os 11,8 graus da madrugada de 8 de junho na Vila Militar são reais, estão no Inmet. O resto — o que doeu, o que aqueceu, o tamanho exato do silêncio no bar — foi medido com o único instrumento que eu tenho: o corpo. E o corpo, graças a Deus, não é objetivo.

Segunda-feira, seis de julho, o frio entrando pela janela que não fecha direito desde o governo passado. Fui no armário atrás do casaco bom — o herdado, o de defunto, que esquenta como só roupa de morto esquenta — e o que me caiu no braço foi ela: a camisa amarela. Dobrada, quieta, com cara de quem também não queria conversar. Fiquei um tempo segurando aquilo como quem segura um telegrama. Era pra ser só um casacoum casaco e nada mais, porra, e veio um país junto. Vesti o casaco por cima da camisa, porque intimidade a gente esconde por camadas, e desci.
Na padaria o rádio tocava baixinho, como quem pede desculpa. Seu Bento (nome trocado, carinho verdadeiro) me passou o café sem perguntar nada — que é a forma mais alta de solidariedade nacional disponível em julho de 2026. Um homem de marmita no balcão disse, pra ninguém: "eu nem ia ver o jogo". Todo mundo fingiu que acreditou. É o nosso jeito de rezar.
Esta edição nasceu aí, entre o café e a mentira piedosa. É sobre o frio — o do termômetro e o outro. É sobre perder em rede nacional num domingo e acordar às quatro da manhã na segunda do mesmo jeito. É sobre quem esquenta a cidade enquanto a cidade dorme de raiva. Tem o ascensorista, como sempre — alguém deixou um cobertor pra ele, a coluna conta. Tem uma seção nova de frases que eu pesquei na rua, porque a rua escreve melhor do que eu e não cobra direitos. E tem o El Paraguaio no fim, cavalgando na friagem, porque toda revista que se preza precisa de um faroeste — e todo faroeste que se preza chega na hora em que a vila mais precisa.
FRIAGEM s.f. — O Inmet mede o ar; a friagem mede a vida. Onze vírgula oito graus na Vila Militar é dado meteorológico; friagem é dormir de meia, acordar com saudade de um corpo e chamar isso de "friozinho gostoso" pra não assustar as visitas.
SERENO s.m. — A chuva que não se assume. Molha devagar, sem alarde, igual boleto: quando você percebe, já entrou. Quem trabalha de madrugada não usa guarda-chuva contra ele. Usa paciência.
QUENTINHA s.f. — Marmita com diploma de afeto. O único diminutivo da língua portuguesa que aumenta: dentro cabem o arroz, o feijão, a farofa e o resto do dia inteiro de quem cozinhou às cinco da manhã. Ver: Dona Zefa (nome trocado; o tempero, jamais).
VIRA-LATA (COMPLEXO DE) loc. — Nelson Rodrigues inventou o termo depois de 1950, e a gente vem renovando a assinatura de quatro em quatro anos ⸮. Detalhe que o Nelson não registrou: o vira-lata de verdade, o da rua, não tem complexo nenhum. Dorme no ponto de ônibus, aceita carinho sem cerimônia e não pede desculpa por existir. Tem muito a ensinar à seleção — e ao resto de nós.
RESSACA s.f. — (1) O mar devolvendo o que não quis. (2) O corpo, idem. (3) O país, idem, toda vez que acorda numa segunda-feira depois de um domingo de 2 a 1.
AGASALHO (CAMPANHA DO) s.f. — A única guerra que o Brasil declara todo ano. Vence sempre — só que tarde. Que é, aliás, o nosso jeito consagrado de vencer ⸮

O bar do Nelson (nome trocado; a cerveja gelada no fundo e quente no gargalo, isso é dele mesmo) tinha gente até no batente da porta. Do lado de fora, um vento que entrava pela manga e me cumprimentava como se fosse meu primo. Do lado de dentro, o calor de sessenta corpos apostando o humor da semana num único aparelho de televisão. O jogo era longe, em Nova Jersey, dezessete horas no nosso relógio — o sol deles ainda alto, o nosso já indo embora com pressa de quem sabia de alguma coisa.
Do gol deles aos 79 eu não vi a bola entrar: eu vi o bar. Sessenta pessoas murchando no mesmo segundo, um pneu furado coletivo. O Nelson parou com o copo na metade do caminho e ficou estátua — três segundos de museu. Aí alguém gritou "calma que dá tempo", que é a oração mais rezada do futebol brasileiro e a menos atendida ⸮
O segundo veio aos 90, e o ar saiu do bar como quem tira o pino do ralo. O camisa nove deles — o norueguês enorme, com cara de quem paga boleto em dia — fez o dele sem maldade nenhuma, que é o jeito mais cruel de sofrer maldade. No pênalti do Neymar, nos acréscimos, o bar inteiro comemorou de raiva. Gol de honra é a gorjeta que a derrota deixa na mesa pra não parecer mal-educada.
Depois foi aquilo: o silêncio de sessenta pessoas vestindo casaco ao mesmo tempo. Um homem no fundo cantou o comecinho de "Sampa" errado e ninguém corrigiu, porque corrigir era ter que conversar. O Nelson começou a virar cadeira em cima de mesa às oito da noite de um domingo de Copa — faça esse cálculo. No caixa, sem tirar o olho do troco, me disse baixinho que julho era o mês que ia pagar o telhado novo. O telhado que espere. A Noruega não sabe, mas fez gol no telhado do Nelson.

O Deda (nome trocado) vende o que a rua pede: guarda-chuva quando chove, gelinho quando ferve, bandeira quando o Brasil promete. Apostou o dinheiro da mercadoria do mês inteiro no verde-amarelo — "Copa é a minha safra, Jumerli, é o meu São João". Aí veio o domingo. E a safra geou.
Perguntei quanto ficou parado. Ele fez a conta de cabeça olhando pro alto, que é onde os camelôs guardam a contabilidade: umas trezentas bandeiras, corneta "nem me fala", e as faixas. "A faixa eu não posso nem vender de raiva, que tá escrito uma coisa que não aconteceu." Segurei o abraço que me subiu, porque abraço de pena o Deda ia recusar — e com razão.
"Mas bandeira não estraga", ele me disse, já embrulhando o estoque no plástico com um carinho de quem cobre filho pra dormir. "Guardo pra 2030. Aí vendo essa e a nova. Dobro o lucro." Olha a fé de estoquista do homem: o país caiu nas oitavas num domingo e na segunda ele já tinha lançado o futuro no ativo. Economista nenhum tem essa carteira. O Deda opera na bolsa da esperança e nunca, jamais, aposta contra o Brasil ⸮
Comprei uma bandeira por dez conto, sem pechinchar. E a confissão prometida: naquela noite, com o frio mordendo o cobertor fino, abri a bandeira por cima da cama. Dormi embrulhado na pátria por necessidade térmicae por outra coisa. Funcionou. Sonhei em verde e amarelo e acordei sem ironia nenhuma no corpo — o que me assustou bem mais que o frio.


O inverno deste ano chegou dando recado: 11,8 graus na madrugada de 8 de junho, na Vila Militar, recorde do ano segundo o Inmet — o terceiro recorde em três dias seguidos, que é o Inmet gaguejando de frio. Julho pegou o bastão e continuou a prova. Saí às quatro da manhã de quarta-feira e fui andando na direção de qualquer luz acesa.
A primeira luz era do seu Almir (nome trocado), padeiro, as mãos enterradas na massa como quem esquenta as mãos no único lugar do mundo onde ainda era verão. Perguntei do jogo. "Vi o primeiro tempo. Aí fui dormir, que o pão não sabe de Copa." O pão não sabe de Copa. Anotei na palma da mão, de frio e de respeito. O homem perdeu a tragédia nacional por causa do fermento — e o fermento, convenhamos, nunca decepcionou ninguém ⸮
Duas quadras adiante, a Rosângela (nome trocado), gari, a vassoura riscando o chão num compasso que era quase um baião. Ali estava a única pessoa da semana varrendo de verdade o que o país inteiro fingia varrer por dentro. Frio de estalar tampa de marmita. Ela usava luva de lã por baixo da luva de trabalho: a mão dela era um segredo guardado dentro de outro. "Frio é igual chefe", me disse sem parar o braço. "Reclamar não adianta. O negócio é chegar antes dele."
Na porta do hospital, a Dona Zefa (nome trocado; o tempero é sagrado e intransferível) despachava café e quentinha pra plantonista, vigia, acompanhante de doente — a fila da madrugada, a mais honesta que existe, porque ninguém fura. O café dela custa menos que qualquer aplicativo e chega mais quente que qualquer promessa. Perguntei se tinha visto o jogo. "Vi o povo triste na segunda. Pra mim já era placar." A mulher lê o país pela fila do café. O IBGE devia contratar.
Voltei quando o céu clareou, e a conta fechou sozinha no caminho: o Brasil que acorda às quatro nunca teve tempo de ter complexo de vira-lata — está ocupado alimentando, varrendo e aquecendo os complexados. A seleção perdeu de 2 a 1⸮ A Dona Zefa ganha de goleada todo santo dia, de um adversário que não tira férias. Só que o jogo dela não passa na TV. Vitória de pobre não tem narrador.
O Nelson ligou a TV mesmo assim. "Por causa do barulho", explicou. "Bar sem bola parece velório sem defunto: falta o motivo e sobra o clima." O bar estava pela metade — metade Copa, metade frio, que empurra qualquer pessoa pra perto de qualquer coisa acesa.
Na mesa do canto, o seu Ismael (nome trocado), aposentado, torcia pela Noruega com seriedade de escanteio nos acréscimos. Estranhei, oxe. Ele explicou sem tirar o olho da tela: "se eles forem campeões, a gente perdeu pro campeão. A dor fica com pedigree." O homem transforma eliminação em investimento: quanto mais longe a Noruega for, mais nobre fica a nossa queda. Isso não é torcida — é gestão de patrimônio emocional ⸮
Foi nessa mesa, entre um gole e uma falta que não foi marcada, que um homem de touca disse a frase que foi parar na capa. Discutiam se doía mais cair nas oitavas ou na final. E ele, com a calma de quem já caiu de todas as alturas: "tanto faz, rapaz. A gente só perde junto. Ganhar é que separa." Ninguém entendeu na hora — sinal de que era verdade. Ganhar separa: aparece dono da vitória, aparece pai do gol, aparece quem "sempre acreditou". Perder não tem herdeiro. Perder é o único patrimônio que o brasileiro divide sem briga.
Saí com a frase no bolso e o frio me esperando na porta feito cobrador. No caminho pra casa, as janelas dos prédios piscavam TV — a cidade inteira assistindo às quartas de final dos outros, embrulhada em cobertor, aprendendo devagar o ofício raro de gostar de futebol sem precisar ganhar nada. Talvez seja isso a maturidade. Ou talvez seja só o inverno. Em julho, no Rio, os dois têm a mesma temperatura.
A tese desta matéria eu roubei da rua, como tudo que presta aqui: a derrota é um empréstimo que a cidade toma de si mesma e paga em prestações de madrugada. Segunda, o bar vazio. Terça, a piada envergonhada. Quarta, a piada sem vergonha — e quando a piada anda solta é que a cura começou. Quinta, o jogo dos outros. Sexta, o pão de novo. O luto nacional dura o que dura um boleto: quando vence, já venceu outro.
Passei na banca do Deda: já era outra banca. Guarda-chuva na frente, meia de lã pendurada, e as bandeiras num saco lacrado que ele bate de leve quando passa, feito quem tranquiliza cavalo. Passei na padaria: o seu Almir tinha inventado um "pão de inverno", que é o mesmo pão com outro nome e o dobro da fila — aprende, mercado. A Rosângela eu não vi. Quem chega antes do frio também vai embora antes do repórter.
E eu? Fui pra casa escrever isto aqui, com a camisa amarela de volta ao fundo do armário — lavada, dobrada, guardada sem raivaquase sem raiva. A matéria me comeu de frio e me devolveu aquecido, que é o contrato desta casa: a matéria come o repórter, e é pra comer mesmo. Quatro anos é logo ali. O Deda que o diga: bandeira não estraga. Esperança bem guardada também não — é só tirar do plástico de vez em quando pra ver se ainda serve. Serve. Infelizmente e ainda bem, serve sempre ⸮

O ascensorista não responde, como sempre. Mas esta semana ele fez uma coisa que a coluna precisa registrar: no dia mais frio, ficou parado no térreo de porta aberta, um tempão — e o elevador virou estufa pública, sala de espera do prédio inteiro. A administração chamou de desperdício de energia. O caderninho chama de política pública. A coluna fica com o caderninho ⸮
Deu sururu, esta quinzena, a casa de apostas — todas elas, o cassino de bolso que patrocina o time, o campeonato, o intervalo e a narração, e que depois manda notificação às onze da noite perguntando se você não quer "recuperar". Recuperar, uma ova: recuperar é palavra de fisioterapeuta, não de cassino. Aposta não é renda extra — é imposto voluntário sobre a esperança, cobrado justamente na hora em que ela está mais fraca. O bicheiro antigo ao menos ficava na esquina e tirava o chapéu. O de agora mora dentro do teu bolso e te acorda de madrugada ⸮
Deu sururu também a campanha do agasalho — não por existir, que ela é santa, mas por precisar nascer de novo todo ano, como se o inverno fosse pego de surpresa. O frio chega na mesma época faz milênios; a caridade organizada chega sempre uma rasteira depois. Cidade que se aquece pelo susto não se aquece: se remedia. E remédio, todo mundo sabe, trata o sintoma pra não precisar conhecer a doença.
E deu o maior sururu de todos a gente — nós, a espécie, filial Brasil — que chama de "fracasso nacional" onze homens cansados perdendo de 2 a 1 pra um país sério, e chama de "normal" um país onde quem assa o pão nunca assistiu a um jogo inteiro porque trabalha na hora de todos eles. O fracasso está mal endereçado. Sempre esteve ⸮
Domingo, cinco de julho, Cláudio Moreira pegou o plantão da tarde com a camisa amarela por baixo do uniforme de botão — contra o regulamento e a favor de si mesmo. Na sala sem janela, o jogo passava num monitor pequeno, sem som, de canto de olho, que é como a classe trabalhadora assiste às finais da própria esperança. No comecinho da noite o sistema apitou: pico de chamados. O Brasil tinha acabado de cair, e o país inteiro resolveu perguntar alguma coisa pra alguém que não fosse responder "eu avisei".
No fim do turno, Cláudio pegou o elevador. O ascensorista, coberto até o queixo com o cobertor que tinha aparecido no banquinho, perguntou: e aí, seu Cláudio, viu o jogo? Cláudio disse que viu pedaços. "Pedaço é o que a gente vê de tudo", disse o ascensorista, e apertou o térreo. Desceram em silêncio, os dois profissionais do escutar, cada um com o seu pedaço. Lá fora fazia um frio de dez graus e o Brasil, apesar do placar e do resto, continuava existindo — o que, pensou Cláudio, já era um resultado e tanto pra uma segunda-feira que ainda nem tinha começado.

Glauber Rocha filmou "Deus e o Diabo na Terra do Sol" no sertão de Monte Santo, na Bahia, com Manuel e Rosa fugindo pelo mundo atrás de qualquer coisa que prometesse — um beato, um cangaceiro, um destino. É cordel filmado: a câmera canta, o violeiro conta, a história pula do jeito que a memória pula. Não se assiste. Se atravessa.
Veja de madrugada, no frio, embrulhado no que tiver — se for uma bandeira, melhor ainda. Não pra entender tudo, que nem o Glauber fazia questão, e essa era a força. Pra sentir o tamanho da fome que move um homem pelo sertão. E quando entrar em cena o Antônio das Mortes, o matador, repara na solidão de quem atravessa o mundo a serviço de uma coisa que ele mesmo não sabe nomear.
Por que recomendar isso aqui⸮ Porque todo andarilho de viola que cruza o sertão nas páginas desta revista bebe dessa fotografia — o nosso, o das últimas páginas, que não me deixa mentir. E porque a profecia do filme serve pro Brasil desta semana como luva de lã: o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão. Tudo vira. Time vira. Até o frio, uma hora, vira. A gente só precisa estar vivo pra ver a virada — e essa, amigo, é a única escalação que importa.
O primeiro serviço que sofre futebol por você. Nossos profissionais roem as unhas, xingam o juiz, acreditam até os 90 e choram o gol de honra — enquanto você dorme, trabalha ou vive.
O Pacote Eliminação Premium inclui: silêncio no ônibus, piada pronta pra quarta-feira e vergonha de segunda com nota fiscal. Planos a partir de 4 anos de espera.










Aposta esportiva não é renda extra. É despesa fantasiada de renda. A banca sempre ganha — é por isso que ela tem dinheiro pra patrocinar o campeonato inteiro. Se você está apostando "pra recuperar o que perdeu", isso tem nome e tem saída: jogo problemático se trata, e o primeiro passo é contar pra alguém hoje. Sem vergonha. A vergonha calada é o lucro deles ⸮
Álcool não esquenta. Ele abre as portas do corpo pro frio entrar com mais educação: a pele arde de calor enquanto a temperatura de dentro despenca. No inverno, quem bebe demais e apaga no relento corre risco de verdade. Viu alguém dormindo na rua no frio? Não julgue — acione o SAMU, 192, e doe agasalho antes que a campanha precise pedir. O frio não espera a caridade se organizar.
E a tristeza: a de Copa passa em mais ou menos uma semana — a gente cronometrou nesta edição, do silêncio de domingo à piada de quarta. Se a sua não passar, se ficar aí parada feito frio de dentro, tem gente pra escutar de graça, a qualquer hora: CVV, 188, 24 horas, todo dia. Ligar não é fraqueza. É a jogada mais corajosa deste caderno inteiro.