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o universo

Lado B

a loja de discos que fechou mas continua aberta
a revista do que ficou no outro lado do disco
Lado B · o lugarIluz baixa
I · o lugar

A loja que fechou mas continua aberta

Não procure o endereço. A loja fechou — e é justamente por isso que ela abre.

Toda cidade teve uma. A loja de discos onde o dono ouvia antes de vender — e às vezes desaconselhava a compra, porque conhecia o freguês melhor do que o freguês se conhecia. Onde a capa passava de mão em mão, o vinil girava atrás do balcão e a conversa demorava mais que a compra. Quando essas lojas fecharam, não foi a música que acabou: foi a conversa. O algoritmo assumiu o balcão e passou a recomendar sem ouvir ninguém.

O Lado B é essa loja depois do fechamento. A luz está baixa, as caixas de vinil continuam no lugar, e há alguém atrás do balcão. Fundo preto quase absoluto, uma folha de papel cru, o ouro de uma etiqueta antiga — é assim que a revista se apresenta, e é assim que ela funciona: fotografia em preto e branco, frase longa, argumento antes de qualquer elogio. Quem entra, entra para ouvir de novo. E para ouvir por inteiro.

"Crítica não é entretenimento. Crítica é serviço público. Quando bem feita, ajuda o leitor a pensar mais alto sobre o que escuta, lê, vê. Quando mal feita, ajuda a indústria a vender mais. A diferença está no rigor."Vicente Moreno · carta do editor

A casa tem um nome para o próprio andamento: recusa discreta. Ninguém aqui promete consertar o estado da crítica — reduzida, quase toda, a nota de divulgação com estrelinhas. A posição é outra, e está impressa: "O Lado B não vai consertar isso. Mas vai recusar participar disso."

Lado B · o ritoIIsem hora marcada
II · o rito

Como nasce uma edição

Quinzenal, sem hora fixa. Cadência, nesta loja, não é data no calendário: é quando a crítica está pronta e o assunto pede.

A pauta é puxada por um fato cultural real — um disco, um filme, um livro, uma exposição, um palco. Nunca a manchete política do dia: para isso existe o resto do jornal. E, quando nada pulsa lá fora com força suficiente, a revista recua no tempo, deliberadamente, e volta a uma obra do passado que ainda fala. O balcão não tem pressa; tem critério.

Cada texto sustenta a mesma espinha: a ferida, o porquê, a alternativa. Nomeia o que dói, explica por que dói e aponta um caminho — porque a mira da casa é o sistema, nunca o artista. Quando uma coluna diz que um disco não funciona, explica por quê: em quatro páginas, não em duas frases. E ninguém escreve do que não ouviu. Há quem exija três audições completas antes da primeira linha; quem só escreva de disco que tocou na própria vitrola; quem leia a ficha técnica linha a linha; quem peça a partitura sobre a mesa; quem não escreva de concerto a que não foi, de corpo presente, com o programa de mão guardado depois.

as palavras que não entram
"imperdível" não passa da porta. "fenomenal" e "magistral" ficam do lado de fora, com as estrelinhas.

Cada crítico da casa mantém a própria lista de palavras vetadas — e a defende como quem defende o ouvido. Luiz Horta Bernardes resume: elas expulsam o leitor do concerto. O elogio, aqui, só entra depois do argumento.

O acabamento também é rito. Nenhum rosto de artista vivo aparece em imagem — a obra fala pelo dono. Toda imagem sai com crédito. As fotos vão a preto e branco, porque a imagem do Lado B não anuncia: carrega. A crítica de disco fecha com a ficha técnica completa, conferida, impressa em letra de máquina sobre fundo escuro. E a edição inteira se despede com uma assinatura manuscrita, em ouro.

Em paralelo corre a Residência Digital: dois ciclos por ano, três artistas por ciclo de seis meses, um tema por ciclo — o primeiro de 2026 se chama Arte como linguagem do gozo. São os residentes que vestem as matérias: capa, ilustração, animação, obra autoral de ponta a ponta.

"O cânone mínimo do Lado B — o que o streaming não te recomenda, mas devia."discoteca básica · edição no ar
Lado B · quem atendeIIIo elenco
III · as pessoas

Quem atende o balcão

Uma loja é feita de quem fica depois do fechamento. Estes ficaram.

O editor

a chave da loja
Vicente MorenoO dono do balcão. Sete mil e quatrocentos vinis num apartamento alugado para os discos, e um gato chamado Coltrane que nunca derrubou nenhum. É dele a tese que sustenta a casa: a crítica volta a ter espaço de respiro — e respiro não se mede em cliques.

Os cinco críticos

cada um com o seu veto
Arnaldo Duvalcrítica musicalO solfejo o ensinou a duvidar do ouvido; Pixinguinha, a confiar nele de novo — "a crítica vive nessa oscilação". Piano duas horas por manhã, sem exceção. Nenhum adjetivo afetivo em texto publicado: o argumento faz o serviço.
Caio GalvãoescavaçãoAchou aos catorze, na biblioteca da mãe, um catálogo de gravadora dos anos 1950. "Foi a primeira escavação. Demorei trinta anos pra perceber que era escavação." Quatro mil discos catalogados, um Fusca 75 herdado do pai — e não escreve sobre disco que não tenha tocado pessoalmente.
Heitor VenturaestúdioO pré-amplificador que montou de sucata aos quinze decidiu a vida: "som não é magia, é circuito mal aterrado". Explica cadeia de sinal comparando mixagem com cozinha mineira — isto é tempero, não prato principal. Recusa pauta de disco que ele mesmo produziu.
Luiz Horta Bernardesconcerto e óperaFez Letras por escolha: "pra escrever sobre música é melhor saber escrever do que saber música." Coleciona programas de mão desde 1975, dá ao regente o protagonismo — ombro alto, braço travado, ele anota tudo — e não escreve sobre concerto a que não foi.
Nilo Monteirocrônica musicalAprendeu no rádio do pai que falar de música é falar de tempo passando. Abre quase toda crônica numa mesa de bar e tira a música dali, nunca do release; no meio do texto, sempre uma observação sobre o tempo lá fora. Largou o mestrado: "Salvei os dois ofícios."
Riscoa chargeNão tem rosto, não dá entrevista. Na edição no ar, assinou A fábrica de canções: entra inspiração, sai produto padronizado. O traço fica; o resto é assunto da loja.

A Residência Digital

dois ciclos por ano · três artistas
A parede de obras da loja. Quem assina a capa, a ilustração e a animação de cada edição.
Aldir Benevides Tamuracurador-chefe"Curador não escolhe obra: escolhe artista. Obra é consequência." Um ateliê-galpão em Santa Teresa com quatro estações, uma por residente; matcha em vez de café, porque café acelera demais pra olhar arte; e expediente que termina às sete da noite, sem exceção.
Ísis Malafaia Romãoarte generativaO código é o pincel, e é dela, linha por linha. Cada obra ouve o disco que vai ilustrar: o sistema responde ao som e gera a imagem. Prompt não é prática — "isso é gerar imagem, não é arte". Matemática e viola caipira, na mesma pessoa.
Jorge Chen Nascimentocolagem digitalOito a quinze camadas por obra: fotografia antiga, texto, grafismo. Mais de oitocentas revistas antigas no acervo. "Minha estética é meu antídoto contra o feed." Domingo é almoço em família, na Liberdade.
Talita Aguiar Mbekivídeo e animaçãoUm a dois segundos de animação por dia, quadro a quadro, mesa de luz física e tablet. A estética é carioca e sul-africana ao mesmo tempo — e o luto pela mãe atravessa o trabalho, sem pedir licença. Cinema sul-africano todo domingo.
Nesta loja ninguém mostra o rosto. Mostra o que ouviu.
Lado B · o conviteIVa porta encostada
IV · o convite

A porta está encostada

A edição no ar abre com a carta do editor e atravessa a loja inteira: a Tropicália lida como estratégia, não como nostalgia; o Tim Maia que ele mesmo escondeu; o pop que ninguém compôs — feito para o algoritmo escutar primeiro; Lina Bo Bardi e o concreto que vira gente; e a Discoteca Básica de estreia, cinco discos que o streaming não recomenda, mas devia: Clube da Esquina, Acabou Chorare, Construção, África Brasil, Secos & Molhados.

no ar desde maio de 2026
Lado B · a edição no ar
carta do editor · a memória da canção · o rock que mata · achados & perdidos · escavação · discoteca básica · a charge
ler a edição no ar

A loja abre de quinze em quinze dias, pontual — mas o critério continua dono da vitrine: entra a melhor crítica da quinzena, nunca a mais apressada. Enquanto isso, a luz do balcão fica acesa: sempre há um disco girando do lado de dentro, e sempre é o outro lado.

As pessoas desta página são vozes autorais da casa Xaplin — personas, no sentido antigo do teatro: máscaras que dizem verdade. A licença poética do Lado B é declarada, nunca disfarçada. O leitor sabe; a casa faz questão.
Lado B · crítica cultural da casa Xaplin · quinzenal · sem hora marcada
Lado B · a coleçãoVo acervo aberto
V · a coleção

Todas as edições, de portão aberto

A casa não recolhe o que já publicou: a edição nova entra e a anterior fica aberta — para ler, reler e guardar.

Capa da Lado B · O palco de fraque
edição atual · julho 2026
Edição 02 · O palco de fraque

O que o algoritmo não toca: música, arte e cultura com o fôlego que a pressa não dá.

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