Toda cidade teve uma. A loja de discos onde o dono ouvia antes de vender — e às vezes desaconselhava a compra, porque conhecia o freguês melhor do que o freguês se conhecia. Onde a capa passava de mão em mão, o vinil girava atrás do balcão e a conversa demorava mais que a compra. Quando essas lojas fecharam, não foi a música que acabou: foi a conversa. O algoritmo assumiu o balcão e passou a recomendar sem ouvir ninguém.
O Lado B é essa loja depois do fechamento. A luz está baixa, as caixas de vinil continuam no lugar, e há alguém atrás do balcão. Fundo preto quase absoluto, uma folha de papel cru, o ouro de uma etiqueta antiga — é assim que a revista se apresenta, e é assim que ela funciona: fotografia em preto e branco, frase longa, argumento antes de qualquer elogio. Quem entra, entra para ouvir de novo. E para ouvir por inteiro.
A casa tem um nome para o próprio andamento: recusa discreta. Ninguém aqui promete consertar o estado da crítica — reduzida, quase toda, a nota de divulgação com estrelinhas. A posição é outra, e está impressa: "O Lado B não vai consertar isso. Mas vai recusar participar disso."
A pauta é puxada por um fato cultural real — um disco, um filme, um livro, uma exposição, um palco. Nunca a manchete política do dia: para isso existe o resto do jornal. E, quando nada pulsa lá fora com força suficiente, a revista recua no tempo, deliberadamente, e volta a uma obra do passado que ainda fala. O balcão não tem pressa; tem critério.
Cada texto sustenta a mesma espinha: a ferida, o porquê, a alternativa. Nomeia o que dói, explica por que dói e aponta um caminho — porque a mira da casa é o sistema, nunca o artista. Quando uma coluna diz que um disco não funciona, explica por quê: em quatro páginas, não em duas frases. E ninguém escreve do que não ouviu. Há quem exija três audições completas antes da primeira linha; quem só escreva de disco que tocou na própria vitrola; quem leia a ficha técnica linha a linha; quem peça a partitura sobre a mesa; quem não escreva de concerto a que não foi, de corpo presente, com o programa de mão guardado depois.
O acabamento também é rito. Nenhum rosto de artista vivo aparece em imagem — a obra fala pelo dono. Toda imagem sai com crédito. As fotos vão a preto e branco, porque a imagem do Lado B não anuncia: carrega. A crítica de disco fecha com a ficha técnica completa, conferida, impressa em letra de máquina sobre fundo escuro. E a edição inteira se despede com uma assinatura manuscrita, em ouro.
Em paralelo corre a Residência Digital: dois ciclos por ano, três artistas por ciclo de seis meses, um tema por ciclo — o primeiro de 2026 se chama Arte como linguagem do gozo. São os residentes que vestem as matérias: capa, ilustração, animação, obra autoral de ponta a ponta.
A edição no ar abre com a carta do editor e atravessa a loja inteira: a Tropicália lida como estratégia, não como nostalgia; o Tim Maia que ele mesmo escondeu; o pop que ninguém compôs — feito para o algoritmo escutar primeiro; Lina Bo Bardi e o concreto que vira gente; e a Discoteca Básica de estreia, cinco discos que o streaming não recomenda, mas devia: Clube da Esquina, Acabou Chorare, Construção, África Brasil, Secos & Molhados.
A loja abre de quinze em quinze dias, pontual — mas o critério continua dono da vitrine: entra a melhor crítica da quinzena, nunca a mais apressada. Enquanto isso, a luz do balcão fica acesa: sempre há um disco girando do lado de dentro, e sempre é o outro lado.
A casa não recolhe o que já publicou: a edição nova entra e a anterior fica aberta — para ler, reler e guardar.
O que o algoritmo não toca: música, arte e cultura com o fôlego que a pressa não dá.
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