Intermezzo { } · quem fazanálise e perspectiva · quarta · meio-diacasa Xaplin
o universo

Intermezzo{ }

a revista que pensa antes de gritar
um prédio · um rito · uma redação inteira
a notícia importante não precisa gritar.
Intermezzo { } · o ombudsmanantes de tudona porta
antes de tudo · o ombudsman

Ninguém entra sem passar por mim

Sebastião Leal abre a revista toda quarta. Hoje abre esta página. Não é tradição: é compromisso de método.

Esta página descreve a Intermezzo por dentro: o prédio, o rito, as pessoas. Página assim carrega um risco conhecido, e o risco tem nome: elogio. Redação que se elogia está de folga. Li linha por linha antes de deixar publicar. O que passou é descrição. O que era propaganda, cortei.

Onde a descrição escorregar, o leitor me escreve — ombudsman@xaplin.com.br — e a correção sai nomeada, sem reescrever a história. Erro nomeado é erro corrigível. Erro não nomeado vira hábito.

Uma última coisa antes de o leitor subir: a nota ao pé desta página diz como a casa conta o que conta. Está lá para isso. A licença fica na mesa, nunca por baixo dela.

— S.L.
Intermezzo { } · o lugarIvários andares
I · o lugar

O prédio

A Intermezzo não é um endereço na internet: é um prédio de vários andares, e tudo o que a revista precisa mora dentro dele.

Há um prédio, e o prédio trabalha inteiro. Num andar, a redação; noutro, a fotografia — onde vale a regra de que a foto não ilustra a matéria: a foto é a matéria. Mais acima, o design e a diagramação; embaixo, o parque gráfico, que faz o edifício tremer de leve nas noites de fechamento. E num andar próprio, a agência de publicidade da casa, a NØV, que toda semana pega a capa recém-fechada e a trata como cartaz: sem slogan, sem texto de apoio. O anúncio é a capa; a capa é o anúncio.

O prédio tem janelas para fora — correspondentes em Brasília, São Paulo, Nova York, Lisboa, Buenos Aires e Berlim — e uma vaidade que preferiu virar disciplina: ali, todo mundo tem nome. Cada matéria assinada, cada foto com autor, cada ilustração creditada, cada página com o nome de quem a desenhou, no expediente, na folha de verso da contracapa, em corpo pequeno. Quem fez, fez. Está escrito.

Os horários dizem mais do que qualquer manual. Às dez e meia, a roda de pauta; às cinco da tarde, a roda de fechamento; nas terças à noite, uma única janela acesa — a sala do editor-chefe, uma prova de página em papel e um lápis 2B. Quem passa na calçada e olha para cima aprende, sem querer, o essencial: a revista se faz com a casa inteira e se fecha com a luz de um homem só.

"O prédio é a marca tanto quanto a capa."regra escrita da casa

E a casa tem posição — não finge o contrário. A primeira lição, ali, é que a imparcialidade não existe: "governo concede aumento" e "trabalhadores conquistam aumento" são ambos verdade, e a escolha do verbo já é posição. A Intermezzo escolhe consciente. A posição vem da apuração, não da agenda; a firmeza é editorial, não panfletária. Quando um assunto tem mais de uma face, as faces vão para a página — e a síntese, se houver, é do leitor.

Intermezzo { } · o ritoIItoda quarta
II · o rito

Como uma edição fecha

A semana da Intermezzo tem a forma de uma escada, e a escada termina sempre no mesmo degrau: quarta-feira, meio-dia.

Na sexta e no sábado, a semana decanta: os fatos passam, o tema-âncora fica. No domingo, a convocação — cada matéria procura, dentro da casa, a pessoa cuja vida passa mais perto do ângulo dela. Na segunda, às duas da tarde, a Mesa Semanal confirma o tema. Na terça, escreve-se. Na terça à noite, a prova impressa e o lápis 2B: tracinho vertical, a matéria sai; tracinho horizontal, volta para o autor. Na quarta às dez, a última revisão. Na quarta ao meio-dia, a revista está na rua.

São dezesseis seções, sempre as dezesseis, numa ordem que não muda — e o ombudsman abre, nunca fecha. Se uma seção falha na semana, a página sai vazia, com uma nota dizendo por quê: a ausência também é informação. A seção de Frases só imprime citação que se pode conferir em obra pública; quando não há, não se inventa — confessa-se. Duas perguntas matam ou salvam qualquer pauta: isso aqui já existe em outro lugar? e tem gente real nessa matéria? Sem gente real, a pauta morre. Não se negocia.

A capa é pensada para funcionar de longe, ampliada num muro, reconhecível mesmo com o título tapado — e bate porque a matéria sustenta, nunca o contrário. Nenhuma capa fecha sem que o título seja lido em voz alta.

"A quarta é o dia em que o leitor brasileiro ainda tem coragem."maurício lamego · por que a intermezzo sai na quarta

E há o fecho que a liturgia confessa: às onze da noite, depois que todos foram embora, o editor-chefe fecha a capa sozinho — ele, que passa o dia inteiro dizendo que jornalismo é coletivo. "Vou dando um último olhar." Toda a redação sabe. Ninguém comenta.

Intermezzo { } · quem sobeIIIa redação
III · as pessoas

Quem sobe no prédio

Um prédio é feito de quem sobe todo dia. Estes sobem.

As duas figuras da porta

a palavra final · a cobrança
Retrato de Maurício LamegoMaurício Lamegoeditor-chefeDe Olinda, 1968 — pernambucano, não recifense, e faz questão da diferença. Lê tudo, escreve quase nada; a palavra final da capa, toda quarta, é dele. Em casa, um buldogue francês chamado Vinagre, com a mesma cara que ele faz diante de um texto com adjetivo sobrando. Edita para o leitor que vai morrer lendo e não sabe.
Retrato de Sebastião LealSebastião LealombudsmanDe Campina Grande, 1957, filho de tipógrafo. Contrato blindado: não pode ser demitido por causa de matéria publicada. Nunca responde a leitor no mesmo dia — deixa a noite passar — e lê as cartas em voz alta para a cadela Dolores antes de responder. Sonha compor em tipo móvel uma edição inteira sem um único erro; sabe onde ainda funciona uma oficina no Rio, passa na calçada, nunca entrou.

A espinha

as colunas fixas
Retrato de Beatriz FonsecaBeatriz FonsecapolíticaVinte e dois anos de Brasília com uma calma que não é frieza: é tempo de digestão. Caderno físico, caneta de tinta líquida; fonte que mentiu uma vez é cortada em silêncio, para sempre. A gata chama-se Ata.
Retrato de Dra. Camila TorresDra. Camila TorressaúdeCRM ativo, doutorado em epidemiologia. Chama a doença pelo nome e recusa o eufemismo; número de mortes só entra com fonte primária. O vira-lata chama-se Bizu.
Retrato de Helena VasconcelosHelena VasconcelostecnologiaPediu demissão no dia em que descobriu o que o sistema que ela mesma construiu fazia com o tempo dos entregadores. Escreve sobre decisão, não sobre produto, e chama a inteligência artificial pelo nome do modelo — nunca "a máquina pensa". A gata chama-se Ada.
Retrato de Ricardo MendesRicardo MendeseconomiaEscreve "pode" e "tende a" onde os outros escrevem "vai". Diz sempre onde o economista trabalha e quem paga o salário dele. O vira-lata chama-se Focus — o único Focus em que ele confia.
Retrato de Marcos Tibúrcio MadureiraMarcos Tibúrcio MadureiraesportesAtleta, para ele, tem nome, idade, salário e lesão — nunca "gladiador", nunca "herói". Entrevista roupeiro como entrevistaria presidente. Sampaio Corrêa, declarado em rodapé.
Retrato de Prof. Otávio EstrelaProf. Otávio EstrelaciênciaTermina toda coluna com a referência bibliográfica completa: citar direito é o único abraço que aprendeu a dar. Guarda, desde 1996, um caderno com 4.300 frases que parecem inteligentes e estão erradas. O gato preto chama-se Kepler.
Retrato de André CavalcantiAndré CavalcanticulturaEscreve devagar e revisa cinco vezes; nunca usa "obra-prima" — chama o livro pelo nome e pela página. Tudo o que assina diz, por baixo do texto: isso existiu, em tal lugar, em tal data, e eu vi. Mora também nas páginas da Bica.

As chefias

quem segura a semana
Retrato de Clarissa VenturiniClarissa Venturinieditora executivaO eixo da casa: roda de pauta às dez e meia, roda de fechamento às cinco, sem exceção. Agenda de papel desde os dezenove anos. Dúvida factual aberta não fecha matéria — prazo não é resposta.
Retrato de Irene NogueiraIrene NogueirapautaLê de tudo, do boletim do Banco Central ao fanzine. Duas perguntas dela abrem qualquer reunião: o que está fora do radar? Quem ainda não foi ouvido nessa história?
Retrato de João RamosJoão RamosreportagemAprendeu a apurar aos doze anos, perguntando preço de peixe no Ver-o-Peso: quem responde, quem mente, quem some. Bordão: você falou com quem mesmo? Fonte protegida não se compartilha — regra por escrito.
Retrato de Bruno ArcoverdeBruno ArcoverdefechamentoAprendeu a esperar olhando o pai marinheiro voltar do mar. Lê o último parágrafo primeiro. Quando o texto precisa de tempo, decreta: isso aqui dorme.
Retrato de Eduardo Cordeiro CamargoEduardo Cordeiro CamargobrasilCresceu folheando voto de tribunal como quem lê quadrinhos. Não opina: faz o documento falar. Começa pela hora exata e pela porta por onde o personagem entrou.
Retrato de Clarice Antunes RothClarice Antunes RothinternacionalAlemão de cozinha, aprendido com a avó. Toda decisão do mundo passa pela mesma régua: quem manda no orçamento e quem perde.
Retrato de Joana Maranhão PiresJoana Maranhão PiresculturaFilha de musicista do Ilê Aiyê. Nunca abre matéria pela biografia do artista — abre pelo gesto, pela frase, pelo objeto.
Retrato de Letícia Sayão FerrazLetícia Sayão FerrazcomportamentoEscuta longo, edita curto. Não psicologiza: descreve o gesto e deixa o leitor concluir.
Retrato de Mariana Yoshioka PradoMariana Yoshioka PradotecnologiaTecnologia, para ela, é infraestrutura, não novidade. Explica o sistema sem analogia infantil e sem condescender.
Retrato de Paulo Sérgio Bandeira CostaPaulo Sérgio Bandeira CostacidadesFilho de portuário, de Belém. Dá sempre a coordenada e o quarteirão exato — nunca "a região central".
Luís Otávio Bocayuva PessoamúsicaFilho de quem montava amplificador valvulado. Escuta duas, três vezes antes de escrever, e descreve o som pelo gesto físico do músico.
Henrique Bittar SandimesportesEscreve esporte como se escreve política: pouco lirismo, muita cláusula contratual, o tempo de jogo em fração — aos 19'37".

Os colunistas da casa

as outras penas
Augusto Sampaio VilhenapolíticaCriado entre arquivos e cheiro de cera de abelha, em Ouro Preto. Abre toda coluna com uma cena do passado antes de aterrissar no fato da semana.
Frederico Ostermann LinseconomiaTermina toda coluna com uma pergunta, nunca com uma sentença.
Iara Falcão Romualdosaúde públicaPaciência de quem viu paciente desistir de fila. Não fala "do SUS" em abstrato: fala da unidade tal, no município tal, com o nome do servidor.
Pedro Augusto ReigadociênciaUm telescópio mal montado na varanda, uma enciclopédia comprada em prestações. Texto de quem ensina há trinta anos sem perder a paciência.

Quem vai à rua

a reportagem
Tomás Henrique CaldeirapolíticaCresceu em Brasília ouvindo acórdão na mesa do jantar. Cita o crachá de quem viu como dado descritivo da cena.
Retrato de Rodrigo DantasRodrigo Dantasreportagem especialJamais escreve "supostamente" sem dizer quem suspeita. Chama o documento pelo número.
Retrato de Simone PalmeiraSimone Palmeiradireitos humanosEscreve grudada na cena: a temperatura, o cheiro, o detalhe da roupa. Nunca chama vítima de "alvo". Perde tempo conferindo a grafia do nome próprio — e não considera tempo perdido.
Retrato de Thiago YamazakiThiago YamazakiambienteCalma de engenheiro; a infraestrutura é personagem. Não chama desastre de "tragédia": chama de rompimento, derramamento, queimada.
Retrato de Vera MalheiroVera Malheiroeducação e justiçaRitmo de conversa em mesa de cozinha. Jamais escreve "menor" para falar de adolescente.
Retrato de Nestor GamaNestor Gamaamérica latinaA tabela de moedas na geladeira da infância, em Manaus. Chama cada país pelo nome que os próprios habitantes usam.
Retrato de Yusra SalehYusra Salehoriente médioExplica sem rebaixar. Nunca chama conflito de "milenar": nomeia o ano, o regime, o tratado.
Marina Quintela BezerraculturaComeça a matéria pelo trajeto até o lugar: o leitor chega junto.
Clara Verdi · Rafael Tokyo · Adriana Lagos · Pablo Buenos AirescorrespondentesOs quatro do lado de fora. Escrevem de onde o Brasil não se vê — e devolvem o país em perspectiva.

A espinha invisível

quem segura a página
Aldo MesquitacopydeskFilho de tipógrafo, de Salvador. Pergunta de trabalho: essa palavra está trabalhando ou está enfeitando? Não toca em coluna assinada — coluna é voz do colunista, não da casa. Toca cavaquinho mal, mas toca todo domingo.
Poliana VargascopydeskMantém o glossário do que a casa não usa, atualizado toda sexta. Pergunta de trabalho: essa palavra é da gente ou é de assessor?
Antônio LisboachecagemFichário físico com quatro mil fontes desde 2007, em três cores: azul confere, vermelho não confere, lápis é dúvida. Quem te contou? Você ouviu ou leu?
Juliana KoppchecagemHerdou da avó a mania de conferir três vezes. Pergunta de trabalho: isso é primário ou é segunda mão?
Eduardo Schiavondireção de arteAprendeu hierarquia visual na banca da Rua Treze de Maio, no Bixiga. Capa com uma única imagem dominante. Tem gravitas ou está só sério? Não usa dégradé. Nunca.
Ester BicalhoilustraçãoAprendeu a desenhar copiando azulejo de igreja, em Diamantina. Nanquim sobre papel. Isso não é decoração, é argumento — e, se a ilustração pode ser substituída por foto, é foto.
Marina CastrofotografiaA mesma Yashica analógica desde os catorze anos. A foto começa na conversa; enquanto a cena não é dela, não dispara.
No expediente, na folha de verso da contracapa, todos estes nomes saem em corpo pequeno. Quem fez, fez.
Intermezzo { } · o conviteIVquarta · meio-dia
IV · o convite

A revista está na rua

A Edição 01 está no ar, inteira: dezesseis seções, uma capa que se lê em três perspectivas — a síntese, se houver, é do leitor — e o ombudsman na porta, como sempre. O tema da estreia: o tempo que não temos. Uma leitura honesta toma quatro horas. É muito? É. É o ponto.

no ar desde 28 de maio de 2026
Intermezzo · Edição 01 · O tempo que não temos
dezesseis seções, três perspectivas, uma charge.

ler a Edição 01

A Edição 02 já está na rua — O país que não pode ler —, fechada como toda edição fecha: quando as duas perguntas tiveram resposta e o lápis 2B não teve mais o que riscar. As duas edições seguem abertas, logo abaixo. Enquanto isso, o prédio segue aceso — e a janela da terça à noite continua sendo a última a apagar.

"Boa leitura. E boa demora."sebastião leal · edição 01
As pessoas desta página são vozes autorais da casa Xaplin — personas, no sentido antigo do teatro: máscaras que dizem verdade. A licença poética da Intermezzo é declarada, nunca disfarçada. O leitor sabe; a casa faz questão.
{ }
Intermezzo · análise e perspectiva da casa Xaplin · quarta · meio-dia
Intermezzo · a coleçãoVo acervo aberto
V · a coleção

Todas as edições, de portão aberto

A casa não recolhe o que já publicou: a edição nova entra e a anterior fica aberta — para ler, reler e guardar.

Capa da Intermezzo · O país que não pode ler
edição atual · julho 2026
Edição 02 · O país que não pode ler

Dezesseis seções, três perspectivas, uma charge — a análise que pensa antes de gritar.

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