
A O rigor, para o jornalismo, não se mede em prestígio: mede-se na coragem de se corrigir em público. Esta seção existe para garantir esse rigor de fora dele.
Esta é a primeira edição. Não há edição anterior para auditar, e isso me dá um privilégio raro: posso dizer, na partida, o que a revista promete não fazer.
Esta edição não inventou nenhuma entrevista. Os pensadores citados — Heidegger, Adam Smith, Marx, Aristóteles, Platão, Proust, Mino Carta, Roberto da Matta, Graciliano Ramos, Cony, Walter Benjamin, Ariano Suassuna, Gilberto Freyre — foram lidos antes de citados, e o leitor pode verificar cada frase em obras públicas. Os filmes recomendados existem. As peças mencionadas estão em cartaz ou em ciclo de remontagem documentado.
A Intermezzo não fará clickbait. Não pedirá ao leitor pressa para ler. Esta edição tem 64 páginas equivalentes; uma leitura honesta toma quatro horas. É muito? É. É o ponto.
Erros que escaparem, o leitor pode escrever para ombudsman@xaplin.com.br. Erratas saem na próxima edição, sem reescrever a história.
Boa leitura. E boa demora.
PEC reabre discussão sobre o que conta como tempo de vida do brasileiro. Análise na seção 06.
Movimentos diplomáticos entre Japão, Coreia do Sul e Filipinas indicam reconfiguração silenciosa. EUA observa.
Inflação de bens estabiliza, serviços seguem acima do centro da meta. Banco Central monitora.
Próxima Bienal de São Paulo já tem curadoria anunciada. Críticos debatem possibilidades.
Sindicato dos jornalistas discute código de conduta para uso de IA em produção noticiosa.
Pesquisa USP indica aumento de queixas de sono em adultos de 25-45 anos.
Nature publica meta-análise sobre arquitetura do sono. Resumo na seção 09.
Coletivo de pesquisadores lança documento sobre direito ao tempo de descanso.

Aristóteles, em sua Física, distingue dois modos do tempo. Chrónos é o tempo do relógio, da contagem, da sucessão. Kairós é o tempo do momento certo, da oportunidade, da ação que pede agora. Os dois coexistem em toda vida humana; o problema é quando um se impõe sobre o outro de modo tirânico. O Brasil contemporâneo, suspeito, está governado por um chrónos sem kairós: contamos minutos sem perceber momentos.
Adam Smith, na Riqueza das Nações (1776), inaugurou a economia política moderna com uma observação simples: a divisão do trabalho aumenta a produtividade porque reduz o tempo entre tarefas. A modernidade industrial nasceu dessa intuição. Mas Smith também sabia que o trabalho humano não era apenas operação econômica. O Smith dos Sentimentos Morais (1759) já havia escrito que a felicidade depende da disposição de espírito, não do volume de produção. A história industrial leu o primeiro Smith e esqueceu o segundo.
Karl Marx, um século depois, descreveu o que Smith vislumbrou e não nomeou: a mais-valia. Mas a mais-valia tem duas formas. A mais-valia relativa é extraída quando a produtividade do trabalho aumenta sem que aumente o salário. O trabalhador produz a mesma riqueza em menos tempo, mas continua trabalhando o mesmo tempo. O ganho de produtividade vai para o capital.
Martin Heidegger, em Ser e Tempo (1927), tem uma tese mais radical: o tempo é o horizonte de toda compreensão do ser. Quando perdemos a relação com o tempo, perdemos a capacidade de compreender o que somos. A existência se reduz a operação. O Dasein heideggeriano vira mero recurso.
Platão, no Timeu, descreveu o tempo como imagem móvel da eternidade. A frase é difícil mas brilhante: o tempo é a forma como o eterno aparece no mundo finito. Quando vivemos o tempo só como sucessão de obrigações, perdemos a percepção do eterno — e perdemos a percepção de que há algo maior do que a próxima reunião.
Marcel Proust, em Em Busca do Tempo Perdido (1913–1927), passou três mil páginas tentando recuperar o que o relógio destrói. A cena da madeleine é a tese de Proust em uma imagem: o tempo verdadeiro não é cronológico, é qualitativo. Existem instantes que valem anos.
Mino Carta, fundador da CartaCapital, escreveu reiteradamente sobre o que chamou de doença do imediato no jornalismo brasileiro. Carta argumenta que a aceleração das redações destrói a apuração: o jornalista que não tem tempo de checar publica o que a fonte interessada lhe disse.
Roberto da Matta, em Carnavais, Malandros e Heróis (1979), descreveu o brasileiro como ser que opera em três tempos: o tempo da casa, o tempo da rua, e o tempo do outro mundo. O tempo da rua invadiu o tempo da casa.
Graciliano Ramos, em Vidas Secas (1938), descreveu uma humanidade vivendo no tempo do sertão. A modernização brasileira do século XX prometeu acabar com a fome do sertão; conseguiu, em parte. Mas trouxe junto uma destruição que o sertão de Graciliano não conhecia: a destruição da experiência do tempo.
Carlos Heitor Cony, em suas crônicas para a Folha de S.Paulo nos anos 1990 e 2000, escreveu repetidamente sobre o que chamou de o assassinato do crepúsculo. Cony argumentava que a vida urbana brasileira tinha eliminado o entardecer como tempo simbólico.
Onde isso nos leva? À mesma conclusão a que chegaram, cada um à sua maneira, os pensadores: a vida humana só faz sentido quando há tempo para fazer sentido. Pessoas que vivem em pressa permanente perdem capacidade de atenção, de profundidade, de relação. Sociedades que vivem em pressa permanente perdem capacidade de planejamento, de instituição, de democracia.
O Brasil está num momento em que a discussão sobre o tempo voltou ao centro. A PEC do fim da escala 6x1, a inflação de serviços, o crescimento da insônia urbana, a economia de plataforma. A questão não é trabalhar mais ou menos. A questão é: quem decide quanto tempo nós temos?

O que está acontecendo no eixo Japão-Coreia do Sul-Filipinas não é aliança formal — é algo mais sutil e potencialmente mais robusto: convergência de segurança operacional. Os três países, historicamente desconfiados entre si, vêm coordenando exercícios militares, compartilhando inteligência marítima e alinhando posturas sobre o Mar do Sul da China em fóruns multilaterais.
O fato concreto é a sequência de exercícios trilaterais que se tornou rotina. O fato menos visível, mas mais importante: a China percebe agora a possibilidade real de operações coordenadas em sua periferia marítima.
A China construiu sua presença no Mar do Sul da China com base em uma premissa: cada país adversário negociaria individualmente, e Pequim teria assimetria de poder em cada negociação bilateral. Essa premissa começou a ruir quando Manila escolheu, sob a administração Marcos Jr., aproximar-se de Washington, Tóquio e Seul ao mesmo tempo.
O século XX foi o século do Atlântico. O século XXI está sendo, lentamente, o século do Indo-Pacífico. As economias mais dinâmicas, os fluxos de comércio mais densos, as rotas marítimas mais valiosas — tudo está aqui.
O que isso significa para o Brasil? O país tem dois acordos comerciais grandes em jogo e a relação intensa com a China, maior parceiro comercial brasileiro há mais de uma década. Se o Pacífico entrar em tensão real, o Brasil será pressionado a escolher lados. Precisará desenvolver, nos próximos anos, uma diplomacia de equilíbrio fino que historicamente teve dificuldade de operar.

A PEC que propõe o fim da escala 6x1 entrou em pauta brasileira em 2024 puxada por movimento popular. Em 2026, a proposta avançou em comissão. Não significa que vai virar emenda constitucional. Mas significa que a discussão atingiu o ponto em que precisa ser feita seriamente.
A Constituição de 1988 prevê descanso semanal remunerado. A CLT regula esse descanso. A prática brasileira admite escalas variadas — incluindo a 6x1, comum no comércio e em serviços. Pesquisas do Dieese e do IBGE estimam que algo entre 12 e 18 milhões de trabalhadores formais e informais cumprem jornadas de seis dias por semana de forma recorrente.
A proposta da PEC prevê migração para escala 5x2 com manutenção do salário e ajuste da carga horária semanal para 36 horas.
O argumento patronal mais comum é o do custo. A literatura econômica internacional mostra que países que implementaram reduções de jornada em décadas recentes (Alemanha, França, Países Baixos) não tiveram colapso de emprego — tiveram, sim, reorganização. O efeito final, em alguns casos, foi positivo para o emprego.
O argumento a favor é, antes de tudo, biológico e psicológico. Um único dia de descanso por semana não permite recuperação adequada de fadiga acumulada. Pesquisas brasileiras (Fundacentro, USP, Fiocruz) documentam correlação entre jornadas longas e prevalência de transtornos musculoesqueléticos, sofrimento mental e acidentes.
A PEC do 6x1 é, em última análise, a pergunta política do tempo. Mesmo se rejeitada, ela já fez uma coisa importante: trouxe a discussão para o espaço público.

Três perspectivas escritas pelo profissional da casa Xaplin cuja bio mais se aproximou de cada ângulo. As diferenças permanecem; não foram costuradas.
O trabalho industrial clássico — operário em chão de fábrica, jornada definida, separação entre tempo de trabalho e tempo de vida — não desapareceu, mas perdeu hegemonia.
O trabalhador brasileiro contemporâneo médio é prestador de serviço, freelancer, plataformizado. A noção de fora do expediente praticamente desapareceu.
Quem responde rápido fica. Quem demora, perde. O custo é arcado individualmente, não coletivamente. É privatização do desgaste e socialização da vantagem.
Não é só que estamos trabalhando mais. É que estamos sendo capturados em mais lugares ao mesmo tempo. O celular vibra; o e-mail buzina; a notificação salta; o scroll infinito.
Cada micro-captura dura segundos. Mas se acumulam ao longo do dia até que, no fim, a pessoa percebe que não fez nada com profundidade.
A atenção foi sequestrada por uma economia que ganha dinheiro com cada segundo dela.
Sociedades operam em horizontes temporais. Quando a sociedade pensa em décadas, faz infraestrutura, educação, planejamento. Quando pensa em semanas, faz post viral.
O Brasil contemporâneo opera, predominantemente, no terceiro horizonte. Planos governamentais raramente passam de um ciclo eleitoral.
O encolhimento do horizonte é o sintoma mais sério da pressa.
O que une as três perspectivas? Que a pressa contemporânea é organizada. Não acontece. É produzida — economicamente, atencionalmente, politicamente. Saber disso não muda nada por si só. Mas é o primeiro passo para reorganizar a vida em torno de algo diferente. A Intermezzo continuará acompanhando o tema.

Atendo, há mais de vinte anos, pessoas que não conseguem mais dormir. Não é um quadro novo. Freud, em 1900, já analisava sonhos como produção do inconsciente. Mas a queixa contemporânea tem traços novos.
A queixa típica não é tenho insônia desde sempre. É comecei a não dormir há uns dois anos, e não sei por quê. A pessoa adormece, mas acorda às três da madrugada com a cabeça já correndo. A insônia contemporânea é fragmentada — a pessoa dorme, mas acorda em ciclos curtos, e cada acordada já vem com pensamento operacional.
Freud falaria de uma falência do trabalho do sonho. O sonho serve, na teoria psicanalítica, para metabolizar resíduos do dia. Quando o sono é fragmentado, esse trabalho não se completa. Os resíduos ficam acumulando.
Jacques Lacan distinguia três registros — Real, Simbólico e Imaginário. O sono pleno depende de uma operação simbólica: a pessoa precisa desistir do dia. Quando essa entrega não acontece, o sujeito permanece em vigília simbólica mesmo dormindo. O corpo descansa, o sujeito não.
Carl Jung adicionaria: o sono é também tempo de elaboração de imagens arquetípicas. Quando o sono é cortado, a vida psíquica perde o canal noturno de simbolização.
O que a clínica brasileira contemporânea mostra é preocupante. A maioria dos pacientes não tem o que clinicamente se chamaria de transtorno mental grave. São pessoas funcionais, produtivas. O que elas têm é uma relação destrutiva com o tempo. O corpo recusa-se a entregar o sono porque o dia nunca terminou simbolicamente.
O tratamento não passa primeiro por medicação. Passa por uma reorganização da relação com o tempo. Aprender a fechar o dia simbolicamente. Pequenas intervenções, lentas, contraintuitivas. Mas funcionam.
Até os anos 1980, a recomendação médica era simples: dormir oito horas. Hoje, a ciência do sono é muito mais sutil. O que importa não é apenas quantas horas, mas como essas horas se distribuem em ciclos.
O sono humano normal organiza-se em ciclos de aproximadamente noventa minutos. Cada ciclo contém quatro fases: sono leve, sono profundo, sono profundo mais lento, e sono REM. O sono profundo é o tempo de recuperação física. O sono REM é o tempo de consolidação de memória, processamento emocional e limpeza de proteínas tóxicas do cérebro.
As fases não são igualmente distribuídas pela noite. O sono profundo concentra-se na primeira metade. O sono REM se intensifica na segunda metade. Dormir bem quatro horas e ter as outras quatro fragmentadas não equivale a dormir oito horas seguidas — a fragmentação destrói a arquitetura dos ciclos.
Uma meta-análise publicada na Nature Reviews Neuroscience em 2022 consolidou décadas de pesquisa. Fragmentação repetida do sono REM associa-se a queda de desempenho cognitivo equivalente, em alguns parâmetros, a privação total de sono.
Outra linha de pesquisa investiga o sistema glinfático — uma rede de eliminação de resíduos cerebrais que opera durante o sono profundo. Quando fragmentado, proteínas como beta-amilóide se acumulam. Acumulação crônica está associada a maior risco de Alzheimer em décadas posteriores. O sono ruim do trabalhador de quarenta anos pode estar construindo o Alzheimer do aposentado de setenta.
Há boas notícias. O sono é intervenível. Pequenas mudanças melhoram a arquitetura.

Ariano Suassuna morreu em julho de 2014, em Recife, aos 87 anos. Deixou peças (Auto da Compadecida, 1955; Romance d'A Pedra do Reino, 1971-2002), conferências, aulas-espetáculo. Foi figura central do Movimento Armorial, escola estética que tentou propor uma alternativa nacional ao modernismo paulista. O Armorial buscou raízes na cultura popular nordestina e teorizou que a arte brasileira não precisaria mimetizar a europeia para ser cosmopolita.
Esta análise é sobre um eixo: a relação que sua obra propõe com o tempo. O Auto da Compadecida é, na superfície, comédia popular. Em camada mais funda, é estrutura medieval renovada — uma morality play que reencena, em chave nordestina, a temática do julgamento das almas. O ritmo é, na verdade, ritmo do conto popular: digressão calculada, repetição que aprofunda. É o tempo do mamulengo, da feira, da conversa de calçada.
Walter Benjamin, em Experiência e Pobreza (1933), descreve a destruição da experiência narrativa pela velocidade da modernidade. A narrativa tradicional exigia tempo de escuta, tempo de assimilação. A modernidade industrial reduz esse tempo. A informação substitui a narrativa.
Suassuna é, neste sentido benjaminiano, um sobrevivente. Continua escrevendo na chave da narrativa antiga. Ler o Romance d'A Pedra do Reino exige paciência incomum: capítulos de cinquenta páginas, digressões eruditas, citações em latim, retomadas mitológicas medievais misturadas com cangaço sertanejo.
Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala (1933), construiu sua antropologia brasileira em torno de um conceito que dialoga: o de cultura agrário-patriarcal. Freyre tinha problemas — a celebração do patriarcado escravista, criticada em décadas posteriores por Florestan Fernandes e Lélia Gonzalez. Mas sua intuição sobre o tempo do Brasil pré-industrial coincide com o tempo que Suassuna recupera.
Platão, no Timeu, descreveu o tempo como imagem móvel da eternidade. O sertão de Suassuna está mais próximo do tempo platônico — um tempo que reflete algo maior do que si mesmo — do que o tempo urbano brasileiro contemporâneo, que é puro chrónos sem horizonte.
Por que isso importa em 2026? Porque a discussão sobre pressa contemporânea pode parecer abstrata sem um contraponto positivo. Suassuna oferece esse contraponto. Não como nostalgia — trata-se de reconhecer que a vida humana já operou em ritmos diferentes do ritmo industrial-tardio-urbano em que estamos.
A Cor do Paraíso (Rang-e Khoda, 1999, dir. Majid Majidi, Irã). Majidi é o cineasta iraniano que melhor conseguiu mostrar o tempo da infância e o tempo da pobreza sem cair em sentimentalismo. Conta a história de Mohammad, um menino cego de oito anos, e de seu pai viúvo. O filme se desenvolve em ritmo do interior iraniano. É o oposto absoluto do cinema americano contemporâneo. Não há ação. Há percepção. Filme para ver no sábado à tarde, sem celular por perto.
Estômago (2007, dir. Marcos Jorge, Brasil). Filme brasileiro pouco mencionado mas dos mais densos da década. Conta a história de Nonato, um nordestino analfabeto que descobre em São Paulo um talento para a cozinha. Alterna duas linhas temporais — Nonato livre e Nonato preso. O contraste é, em última análise, sobre tempo. João Miguel está soberbo. Não dá lição moral. Mostra.
Outras três indicações breves: Era Uma Vez na Anatólia (Nuri Bilge Ceylan, 2011); A Vida Invisível (Karim Aïnouz, 2019); Cinco Vezes Favela (vários, 2010).
Bom Retiro 958 Metros, do grupo Vertigem, em São Paulo. O grupo é referência em teatro itinerante. Propõe ao público uma caminhada por uma faixa de 958 metros na rua José Paulino, encontrando atores em pontos definidos. Cada apresentação dura aproximadamente três horas. Não há platéia sentada. O tempo é caminhado.
Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. A peça de 1943 segue sendo remontada por grupos independentes em quase todas as temporadas brasileiras. Em 2026, há temporada em cartaz no Rio de Janeiro pelo grupo Tablado. Vestido de Noiva é, entre outras coisas, peça sobre tempo psíquico — Alaíde, a noiva em coma, vive simultaneamente três planos temporais sobrepostos. Nelson Rodrigues fez em 1943 o que o cinema só faria décadas depois.
Internacional: o Théâtre du Soleil, de Ariane Mnouchkine, em Paris (Cartoucherie, Vincennes), segue em temporada permanente. Atualmente em ciclo está L'Île d'Or, espetáculo de 2021. Vale a peregrinação ao subúrbio parisiense.
Tem um homem na esquina da Rua Almirante Tamandaré com a Avenida Brás de Pina. Todo dia. Seis e vinte da manhã. Ele chega antes do ônibus. Senta no banco da parada. Cruza as pernas. Espera. O ônibus passa às seis e meia. Ele entra. Vai embora.
Eu já reparei várias vezes. Passo por ali quando volto da corrida. O cara nunca olha pro celular. Não tem celular na mão. Não tem fone de ouvido. Não tem revista. Não tem nada. Ele só senta. E espera. Olha pra frente. Pra frente é uma loja fechada de aluguel de DVD que ninguém entendeu por que ainda existe.
Numa quinta-feira eu tive coragem. Cheguei na parada cinco minutos antes dele, sentei do outro lado do banco. Ele chegou. Sentou. Cruzou as pernas. Eu falei: Bom dia. Ele respondeu: Bom dia. E voltou a olhar pra frente. Eu perguntei: Vai pro trabalho? Ele disse: Vou. Pausa. Acrescentou: Trinta e dois anos no mesmo lugar. Eu perguntei: Onde? Ele disse o nome de um banco grande. Pausa. Sou contínuo. Pausa maior. Faltam dois pra aposentar.
Eu fiquei calado. Ele não pareceu se importar com o silêncio. Quando o ônibus chegou, ele entrou. Eu não entrei.
Voltei pra casa pensando naquele homem. Trinta e dois anos pegando o mesmo ônibus na mesma hora na mesma esquina. Hoje acho que é uma forma de paciência adulta.
O cara aprendeu, sem saber que aprendeu, que o tempo da espera é tão tempo quanto o tempo do trabalho. Não é tempo morto. É tempo. Os dez minutos no banco da parada são dez minutos da vida dele tanto quanto as oito horas no banco que ele atende. Ele não tenta encurtar a espera com tela. Ele só espera. E o tempo passa.
Eu fiquei me perguntando se eu seria capaz de fazer isso. Sentar dez minutos numa parada sem celular, sem fone, sem nada. Pensei que provavelmente não. Mas o cara estava ali. Parecia ter alguma coisa que eu perdi e não sei direito o que é.
Talvez seja o que esta edição da Intermezzo está procurando nomear desde a capa.
A pressa, que sempre faz a gente chegar atrasado em si mesmo.
esboço da casa · chargista canônico em definição
O tempo é o horizonte de toda compreensão do ser.
Martin Heidegger · Ser e Tempo, 1927 · § 5
A felicidade não consiste em ter, mas em estar disposto.
Adam Smith · Teoria dos Sentimentos Morais, 1759
O tempo é a imagem móvel da eternidade.
Platão · Timeu, c. 360 a.C. · 37d
As verdadeiras viagens de descoberta consistem em adquirir novos olhos.
Marcel Proust · La Prisonnière, 1923
A pressa é inimiga da perfeição. Mas a perfeição é inimiga da pressa.
Carlos Heitor Cony · crônicas Folha de S.Paulo
O sertão é dentro da gente.
João Guimarães Rosa · Grande Sertão: Veredas, 1956