
A taxa de analfabetismo caiu abaixo de 5% pela primeira vez na série do IBGE. O número que sobra tem idade, endereço e uma vergonha ensinada. Esta edição foi atrás dos três. A síntese, se houver, é do leitor.
Começo por uma legenda. Na Edição 01, quatro imagens saíram creditadas como "arquivo Intermezzo". Não havia arquivo. Eram ilustrações geradas por inteligência artificial sob direção de arte. Crédito que sugere acervo fotográfico onde há síntese de máquina engana o leitor — e enganar por legenda é enganar. O crédito foi corrigido no dia 3 de julho, em todas as ocorrências, na página que está no ar. Esta nota registra o conserto no lugar onde todos leem. Erro nomeado é erro corrigível. Erro não nomeado vira hábito.
Segundo reparo: a capa da Edição 01 dizia, com honestidade que reconheço, "não há entrevistas com terceiros nesta reportagem". Honestidade não substitui apuração — declara a falta dela. Cobrei da redação apuração viva. A resposta está nesta edição: a capa parte de um documento público nomeado, a PNAD Contínua Educação 2025, do IBGE, divulgada em 13 de junho, e a seção 09 traz a escuta que faltava, com o método declarado dentro da própria seção, onde o leitor possa julgá-lo.
Terceiro: citação sem endereço. A Edição 01 atribuiu a Mino Carta uma "doença do imediato" e a Carlos Heitor Cony um "assassinato do crepúsculo" sem dizer obra nem data. Pode ser memória fiel; sem endereço, o leitor não confere — e o que o leitor não pode conferir não é jornalismo, é confiança pedida em branco. A regra desta casa, a partir desta edição, é simples: atribuição sem obra e ano não entra. Conferi as desta edição, uma a uma.
Quarto: a charge da Edição 01 saiu assinada por ninguém — "chargista canônico em definição", dizia a legenda. Charge é opinião desenhada; opinião sem autor é parede de banheiro. Desta vez o traço tem nome: Risco. Cobrarei que continue tendo.
O resto são números desta edição, para quem quiser me cobrar depois: 21 seções, 76 páginas equivalentes, uma leitura honesta toma quatro horas e meia. Erros que escaparem, o leitor escreve para ombudsman@xaplin.com.br — respondo no segundo dia, depois de deixar a noite passar. Erratas saem na próxima edição, sem reescrever a história.
Boa leitura. E boa demora.
No domingo, 5 de julho, a seleção caiu diante da Noruega e uma parte do país foi dormir com a sensação conhecida de que o ano acabou no meio. Na segunda-feira, as manchetes disputaram os culpados. Esta revista fecha na quarta. Poderia entrar na fila. Escolheu não entrar.
A capa desta edição é uma tabela do IBGE divulgada em 13 de junho, três semanas atrás. Ao leitor que estranhe o atraso, devo a explicação, não a desculpa: a eliminação envelhece em três dias; os 8,4 milhões de adultos que não leem, não. Quando a próxima Copa começar, eles seguirão sem ler — a menos que alguém trate o número como notícia e não como paisagem.
Há uma divisão de trabalho honesta no jornalismo. O diário corre atrás do que muda a cada hora, e faz bem. A revista semanal existe para outra coisa: segurar diante do leitor aquilo que o placar apaga. Não competimos com o gol da Noruega. Competimos com o esquecimento dele.
Isto não é desprezo pelo futebol — a coluna ao lado trata da eliminação com a seriedade que ela merece, porque pausa coletiva também é assunto sério. É uma questão de régua: o que estará de pé daqui a seis meses? A tabela do IBGE estará. É por isso que ela é a capa. É por isso que uma revista semanal existe.
A Pesquisa Nacional de Saúde 2026 foi lançada em 2 de julho, em Brasília; a coleta começou dia 6 e segue até 30 de novembro. Análise na seção 07.
O Copom cortou 0,25 ponto em 17 de junho, por unanimidade. O que isso faz com a prestação do fogão, na seção 12.
Brasil e França assinaram em 1º de julho, no Itamaraty, o fim da exigência de visto na Guiana Francesa, em vigor a partir de 31 de julho. Seção 06.
Noruega 2 a 1, domingo, 5 de julho, nas oitavas. A final é dia 19. A coluna âncora trata da manhã seguinte.
No boletim de 6 de julho, a projeção do IPCA de 2026 caiu de 5,33% para 5,30% — o primeiro recuo após doze semanas seguidas de alta.
As prestadoras de serviços de ativos virtuais têm até 30 de outubro para pedir autorização ao Banco Central; as regras valem desde fevereiro.
A campanha é lei desde 2019; o Dia Mundial de Combate à Hepatite é 28 de julho. O vírus que não dói, na seção 11.
A Independência da Bahia, consumada em 1823, desceu a ladeira de novo em Salvador. A voz da Bica., abaixo, estava lá — de ouvido.

No domingo, dia 5, entre o apito inicial e o pênalti que Neymar converteu tarde demais, o país fez a única coisa que ainda faz junto: parou. O comércio fechou mais cedo, as ruas esvaziaram, e por duas horas o vizinho que não fala com o vizinho gritou com ele. Na segunda-feira, as bandeirinhas de plástico continuavam penduradas sobre os botecos, sem ninguém com pressa de tirá-las. Não é luto. É outra coisa, e tem nome antigo.
Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1936), descreveu um país que desconfia do ritual público e resolve tudo na intimidade — o homem cordial não é o homem gentil, é o que não separa a praça da cozinha. A Copa é o único momento em que essa cozinha nacional se muda inteira para a praça. O sujeito que não iria a comício nem a procissão veste amarelo e senta na calçada com estranhos. Buarque ajudaria a entender por que isso quase não existe fora do futebol: falta ao país o hábito do espaço público; a Copa o empresta, de quatro em quatro anos, com hora para devolver.
Roberto DaMatta, no Universo do Futebol (1982), foi quem levou a sério o que a inteligência brasileira tratava como ópio: o futebol, escreveu ele, é uma das poucas instituições em que o país aceita a regra igual para todos — onze contra onze, o juiz apita, o placar não conhece sobrenome. Num cotidiano em que a fila anda conforme o padrinho, o jogo é a experiência mais difundida de justiça formal que o torcedor comum atravessa. Quando o país para diante da tela, não está fugindo da realidade; está visitando uma realidade onde as regras valem.
E há o terceiro pensador, o que ria. Nelson Rodrigues, nas crônicas reunidas em À Sombra das Chuteiras Imortais (1993), sustentava que em futebol a pior cegueira é a objetividade: o que importa não cabe na súmula. A súmula de domingo diz Noruega 2, Brasil 1, dois gols de Haaland. O que não cabe nela: o silêncio de três segundos que atravessou o país inteiro no segundo gol, idêntico em Belém e em Porto Alegre — talvez o último silêncio sincronizado de que o Brasil é capaz.
Digo último com medo de estar certo. As outras pausas coletivas foram caindo uma a uma. A novela das oito virou catálogo sob demanda. O jornal da noite compete com o telefone de cada um. A missa, o terço na rádio, o programa de auditório do domingo — cada geração entrega uma pausa e recebe em troca uma tela pessoal. A Copa resiste porque é agendada de fora, pela FIFA, com força de feriado: ninguém precisa combinar com ninguém. É pouco, como fundamento de vida comum. Mas é o que restou.
A pergunta que fica para as próximas semanas não é técnica — quem falhou na marcação, que geração vem aí. É esta: o que um país faz com a capacidade de parar junto, agora que o pretexto acabou de novo? Em 19 de julho haverá uma final sem o Brasil, e ela será assistida aqui com aquele interesse morno de quem olha a festa do vizinho. Depois, o expediente. O dado da nossa capa — os 8,4 milhões que não leem — atravessou todas as Copas da vida deles sem que o país parasse uma tarde por eles.
Não proponho moral. Proponho uma observação de editor: a atenção coletiva é um recurso escasso, e este país só o produz em escala a cada quatro anos. O que se faz com ela na segunda-feira seguinte — isso, nenhuma súmula registra.

Quem mora no Oiapoque, no extremo norte do Amapá, chama de catraia a canoa de madeira com motor de popa que faz, em dez minutos de rio, a travessia que a diplomacia levou décadas para simplificar. Do outro lado fica Saint-Georges-de-l'Oyapock, comuna francesa, moeda euro, tomada de padrão europeu — a única fronteira terrestre da França com o Brasil, e a mais longa fronteira terrestre da França com qualquer país, ainda que quase ninguém em Paris pense nela.
Na quarta-feira, 1º de julho, o ministro Mauro Vieira e o chanceler francês Jean-Noël Barrot assinaram no Itamaraty o acordo que suspende, a partir de 31 de julho, a exigência de visto para brasileiros na Guiana Francesa. A permanência autorizada é de até trinta dias, dentro de um período de seis meses. O texto vem embrulhado num plano de cooperação em segurança na fronteira, com o crime organizado transnacional como alvo declarado — o rio que carrega gente carrega também ouro ilegal, e os dois governos sabem disso.
A assimetria que o acordo corrige tinha algo de anedota geográfica: um brasileiro embarca para Paris sem visto e desce na França sem carimbo prévio; mas, para atravessar dez minutos de rio até Saint-Georges, precisava de um visto que se pedia longe, custava caro e demorava. A Guiana Francesa, por não integrar o espaço Schengen, tinha regra própria — e a regra própria tratava o vizinho de porta como estranho. Os oiapoquenses, que têm parente, comércio e time de futebol dos dois lados, atravessavam assim mesmo, como sempre se atravessou: de catraia, sem papel.
Há um monumento a essa espera a poucos quilômetros dali: a Ponte Binacional Franco-Brasileira, inaugurada sobre o Oiapoque depois de anos concluída sem abrir ao tráfego, travada justamente pelas exigências que não combinavam entre si. A estrutura atravessou o rio antes das pessoas. Agora que o visto cai, a ponte ganha a metade que lhe faltava — a jurídica.
O que muda na prática, dizem os moradores dos dois lados há anos, é menos o turismo e mais a vida miúda: a consulta médica, a compra, o batizado, o jogo de domingo. Os guianenses — é assim que os habitantes da Guiana se chamam, e é assim que esta coluna os chama — também esperam movimento novo no comércio de Saint-Georges, que vive em parte do real que atravessa o rio. O acordo prevê contrapartidas de fiscalização, e a França não escondeu que a prioridade dela é o combate ao garimpo ilegal que sobe os rios da região.
Resta o teste de toda fronteira: o papel assinado em Brasília precisa chegar ao guichê da margem. Em 31 de julho, quando a isenção entrar em vigor, saberemos se a catraia e o carimbo finalmente falam a mesma língua. Esta coluna voltará ao rio para conferir.

Pela porta do auditório do Ministério da Saúde, em Brasília, na quinta-feira, 2 de julho, entrou a terceira edição da maior fotografia sanitária que o Estado tira de si mesmo. No documento de lançamento, os números que importam: mais de 140 mil domicílios, cerca de 10.800 setores censitários, aproximadamente 1.800 entrevistadores, coleta de 6 de julho a 30 de novembro. A Pesquisa Nacional de Saúde não mede hospital: mede casa. É na cozinha, não no consultório, que ela pergunta o que o país tem.
A cronologia ajuda a entender o peso. A primeira PNS foi a campo em 2013; a segunda, em 2019, entregou o retrato pré-pandemia. A de 2026 é a primeira depois dela — e vai dizer, com amostra nacional, o que os anos de covid fizeram com a hipertensão não acompanhada, a diabetes sem exame, a fila que virou desistência. Entre uma edição e outra, gestores decidiram no escuro parcial. O formulário que agora bate à porta é a luz acesa com atraso.
A novidade metodológica desta edição está no sangue e na urina: para os moradores com mais de 35 anos, a pesquisa colhe biomarcadores — sódio, potássio, creatinina, colesterol, hemoglobina glicada, ácido úrico, presença de chumbo e de mercúrio —, além de sorologia para chikungunya. Em português de porta de casa: o país não vai só perguntar se a pessoa se sente bem; vai medir. A distância entre o que se declara e o que o exame mostra é, ela mesma, um dado — talvez o mais honesto de todos.
Iara Falcão Romualdo, que assina esta reportagem comigo, insiste num ponto que o noticiário de lançamento costuma pular: o entrevistado não ganha nada na hora, e é por isso que a taxa de resposta é um ato de confiança pública. Quem abre a porta ao entrevistador do IBGE está pagando, em vinte minutos de paciência, uma política de saúde que talvez só alcance o vizinho. A recusa, compreensível em tempos de golpe no interfone, sai cara: setor censitário mal coletado é posto de saúde mal dimensionado dez anos depois.
O que se decide com a resposta: a PNS alimenta o desenho da atenção primária, as metas de rastreamento, a política de saúde do idoso — o eixo desta edição, num país que envelhece mais rápido do que planejou. Quando o resultado sair, ele dirá a secretários e ministros onde a Estratégia Saúde da Família chega e onde só parece chegar. Esta editoria acompanhará a coleta até novembro e o dado até a mesa de quem decide. A porta, por ora, é do leitor: se baterem, e for o IBGE, vale abrir.

O documento tem nome, data e tabela: PNAD Contínua Educação 2025, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgada em 13 de junho de 2026. Diz o seguinte: 8,384 milhões de pessoas com 15 anos ou mais não sabem ler nem escrever no Brasil. A taxa, 4,9%, é a menor da série e fica abaixo de 5% pela primeira vez. Mais da metade dos analfabetos — 58% — tem 60 anos ou mais. A Bahia é o único estado com mais de 1 milhão de pessoas nessa condição: 1,1 milhão, taxa de 9,5%, quase o dobro da média nacional. Sobre esse mesmo documento, três leituras que não se completam — colidem.
Três perspectivas escritas para discordar, cada uma pelo profissional da casa cuja bio mais se aproximou do ângulo. Ao fim, o editor aponta onde elas se batem.
A cronologia é curta e desconfortável. A Constituição de 1988 mandou erradicar o analfabetismo. O Plano Nacional de Educação, Lei 13.005, de 2014, deu prazo à ordem: a meta 9 previa acabar com o analfabetismo absoluto até o fim da vigência do plano, em 2024.
Estamos em 2026. A taxa é 4,9%. O plano venceu com a promessa aberta, e o país passou dois anos discutindo o plano seguinte enquanto a meta anterior esfriava na gaveta.
Celebrar o menor número da série é aritmética correta e política conveniente. O documento não pede festa; pede explicação de atraso. Quem assina meta com prazo e não cumpre, em contrato privado, paga multa. Em política pública, dá entrevista.
Leio a mesma tabela e vejo outra coisa: 58% dos que não leem têm 60 anos ou mais. Na Bahia, 62,7%. O analfabetismo brasileiro de 2026 mora, na maioria, em quem foi criança nos anos 1950 e 1960 — onde a escola pública simplesmente não existia para o filho da roça.
A escola de hoje, com todos os seus problemas, alcança quem a de ontem abandonou: entre os jovens, a taxa é residual. A manchete que grita fracasso esconde esse avanço — e comete uma injustiça dupla: envergonha o idoso que não teve escola e desmoraliza a escola que hoje existe.
Discordo do meu colega ao lado no essencial: o prazo venceu, sim, mas alfabetizar quem tem 70 anos não é tarefa que caiba em meta de gabinete. Cabe em outra pergunta: que país queremos ser para os velhos que criamos sem letra?
As duas leituras ao lado discutem prazo e idade. Proponho seguir outro rastro: o do dinheiro. Alfabetização de adulto disputa orçamento com o que dá foto — e perde sempre, porque o analfabeto de 70 anos não faz manifestação, não grava vídeo, não organiza abaixo-assinado. Ele é, por definição, o eleitor que não lê a emenda.
O ciclo é conhecido em Brasília: a rubrica existe, o empenho encolhe, a execução fica abaixo do autorizado, e no ano seguinte o encolhido vira teto. Ninguém decide acabar com a educação de jovens e adultos; ela vai sendo desfinanciada por inércia, que é a forma mais educada de decisão.
Quem paga sem decidir é sempre o de baixo. Os 8,4 milhões pagam imposto no arroz e no botijão — e financiam, sem ler o contracheque de ninguém, a máquina que os esqueceu. O documento do IBGE mede a consequência. A causa está em outro documento: a lei orçamentária. É nela que esta reportagem deveria continuar.
Onde as teses colidem — anotação do editor: Camargo e Malheiro se batem na régua — ele mede o Estado pela promessa legal descumprida; ela responde que a promessa era, em parte, indevida, porque mira uma população que a escola já não alcança por escola. Malheiro e Fonseca se batem no sujeito — para uma, o problema é o tempo (uma geração sem escola envelhecendo); para a outra, é o dinheiro (uma rubrica sem eleitorado encolhendo). E Fonseca devolve a Camargo a pergunta mais dura: de que serve cobrar a meta se quem redige o orçamento não é cobrado por ninguém que não lê? A revista não escolhe entre as três. O leitor tem a tabela e as leituras.
Ela tem 74 anos, nasceu no interior da Bahia e mora com a filha. É uma entre os 8,4 milhões — e entre os 58% deles que têm mais de 60 anos. A conversa aconteceria numa cozinha, com café passado na hora. Assim foi escrita.

Fico com a última frase, que dispensa o repórter: setenta e quatro anos não é defeito da cabeça, é conta de somar. A turma noturna que fechou por baixa frequência é o dado que nenhuma tabela detalha — a estatística registra a matrícula que não houve, não a carteira baixa, a vista cansada, a rua escura. Você falou com quem mesmo, me perguntam sempre que edito reportagem alheia. Desta vez a resposta é: com o país que a tabela resume. Ele fala pelo cotovelo. Falta quem escute.

Atendo há mais de vinte anos, e algumas frases se repetem tanto no consultório que viram mobília. Uma delas: "esqueci os óculos". Quem trabalha em banco, farmácia ou repartição conhece a cena — o senhor entrega o papel e pede, com naturalidade ensaiada, que a moça leia para ele, porque esqueceu os óculos. Às vezes os óculos estão no bolso da camisa, à vista. Ninguém aponta. A moça lê. O ritual se cumpre. Os dois sabem, os dois fingem que não, e há nisso uma delicadeza que nenhum formulário mede.
O repertório do disfarce é vasto e tem sessenta anos de aperfeiçoamento em quem o pratica desde criança. A mão que naquele dia "está machucada" e por isso não assina. O "assino em casa e trago amanhã", que dá tempo de achar quem preencha. O jornal dobrado debaixo do braço, sempre o mesmo, portado como se porta um crachá. A escolha do prato "o mesmo que ele pediu", no restaurante, antes que o cardápio abra sua emboscada. São soluções inteligentes, refinadas, testadas em campo — e cada uma custa, a quem a executa, uma vigilância que não desliga nunca.
Erving Goffman, em Estigma (1963), descreveu com precisão essa aritmética: quem carrega um atributo desacreditável, mas invisível, vive administrando informação — decidir a cada encontro quem pode saber, quem não pode, quanto falta para ser descoberto. O analfabeto adulto é o caso extremo do que Goffman chamou de desacreditável: a condição não está no corpo, está na iminência de cada papel que se aproxima. Uma agência bancária, para quem lê, é um lugar tedioso. Para quem não lê, é um campo minado com ar-condicionado.
O que escuto no consultório, quando essa vergonha enfim se senta na poltrona — em geral trazida por outro sintoma, insônia, um luto, o coração acelerado em fila —, não é o desgosto de não saber. É o cansaço do teatro. Décadas de gerenciamento de cena produzem um esgotamento específico, que não aparece em exame: o de quem nunca pôde ser pego de surpresa por um papel. A pessoa não sofre por não ler bula; sofre por não poder relaxar diante de nenhuma.
Note o leitor o que esse disfarce prova, contra a suposição preguiçosa que cerca o tema: planejamento, memória, leitura social finíssima, improviso — a inteligência inteira, empregada em esconder a falta de uma técnica. Ninguém burro sustenta um segredo por sessenta anos diante de bancos, cartórios e genros. A senhora da seção anterior disse melhor do que eu: não é defeito da cabeça.
Não descrevo esses gestos para que o leitor os detecte no próximo balcão — e sim para o contrário: para que, ao reconhecê-los, faça como a moça do banco. Leia, sem apontar os óculos no bolso. O disfarce é a dignidade possível de quem o mundo escrito trancou do lado de fora. A porta, essa, não é o disfarçado quem deve abrir.

A hepatite C não dói. É por isso que mata. O vírus se instala no fígado e trabalha por vinte, trinta anos sem produzir um sintoma que justifique faltar ao serviço — quando a icterícia aparece, ou o cansaço que não passa, o que existe muitas vezes já tem outro nome: cirrose, ou carcinoma hepatocelular. Chamo as doenças pelo nome porque eufemismo não previne nada. O período silencioso, que na clínica é o drama, é na saúde pública a oportunidade: décadas de janela para um teste rápido que o SUS oferece de graça.
Julho é o mês de lembrar isso, por força da Lei 13.802, de 2019, que criou o Julho Amarelo — e do calendário internacional: 28 de julho é o Dia Mundial de Combate às Hepatites, data da Organização Mundial da Saúde. Entre 2000 e 2024, o Brasil confirmou mais de 826 mil casos de hepatites virais, segundo o Ministério da Saúde. O número assusta menos do que deveria e mais do que precisa: menos, porque cada caso é uma biografia com fígado; mais, porque a série histórica recente aponta na direção certa.
Os dados do Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais publicado pelo Ministério da Saúde em 2025 registram, na última década, queda de cerca de 50% no coeficiente de mortalidade por hepatite B e de cerca de 60% no da hepatite C. Não é milagre: é vacina e é remédio. A vacina contra a hepatite B está no calendário infantil do SUS — e é dever de quem escreve sobre saúde dizer com todas as letras: ela funciona. Para a hepatite C não há vacina, mas há o que era impensável há quinze anos: cura medicamentosa. Os antivirais de ação direta, incorporados ao SUS em 2015, curam a infecção na grande maioria dos casos tratados.
Onde está o gargalo, então? No encontro entre a pessoa e o teste. Quem tem mais de 40 anos e nunca fez o teste de hepatite C pertence justamente à geração exposta antes da triagem obrigatória dos bancos de sangue, em 1993, e antes das seringas descartáveis se tornarem regra. Essa pessoa não se percebe em risco — não usou droga injetável, não fez tatuagem, e associa hepatite a comportamento alheio. O vírus não faz essa distinção moral. O teste rápido, de sangue por punção digital, fica pronto em minutos em qualquer unidade básica.
O leitor que me acompanha desde a edição passada sabe que esta coluna não termina em susto, termina em posto de saúde: se você passou dos 40 e nunca testou, o Julho Amarelo é um bom pretexto e a fila é menor do que a do seu imposto. A doença que não dói se descobre com o teste que também não dói. A comparação é injusta só para o vírus.

Primeiro o mecanismo, depois o efeito. Em 17 de junho, o comunicado do Copom informou o corte da taxa Selic de 14,50% para 14,25% ao ano — o terceiro seguido, por unanimidade, num ciclo que começou em março, depois de um semestre inteiro com a taxa parada em 15%. A Selic é o juro que remunera o dinheiro mais seguro do país. Todo o resto se cobra em cima dela: o banco parte da Selic, soma o risco de você não pagar, o custo da agência, o imposto e a margem — e é essa soma, não a Selic, que chega ao carnê do fogão.
Por isso a primeira honestidade desta coluna: o corte de 0,25 ponto pode chegar ao crediário, e tende a chegar — mas devagar, encolhido e sem data. O juro do varejo desce por escada e sobe por elevador; não é figura de retórica, é comportamento documentado de mercado com pouca concorrência na ponta. Quem for à loja no sábado não vai encontrar a prestação 0,25% mais barata. Vai encontrar o mesmo cartaz. A transmissão da política monetária leva meses — e, no crédito ao consumo, atravessa spreads que fazem a Selic parecer detalhe.
O número que interessa mais ao leitor, aliás, não saiu de Brasília no dia 17, saiu no dia 6 de julho: o boletim Focus — o levantamento semanal de projeções que o Banco Central colhe com o mercado — registrou a primeira queda da estimativa de inflação para 2026 depois de doze semanas seguidas de alta: de 5,33% para 5,30%. Projeção não é previsão, e o Focus já errou o bastante para ninguém tratá-lo como oráculo. Mas a direção importa: é a inflação esperada que autoriza os próximos cortes, e são os próximos cortes, acumulados, que um dia aparecem no carnê.
Agora o cafezinho, porque toda taxa de juros precisa caber numa xícara para ser entendida. Faça a conta comigo, com valores de esquina: um cafezinho de balcão a 3 reais. A seleção jogou cinco partidas nesta Copa; quem acompanhou cada uma no boteco, na média de três cafezinhos por jogo — o do nervoso, o do intervalo e o do desgosto —, gastou 45 reais de café em três semanas. Aplicados a 14,25% ao ano, esses 45 reais renderiam cerca de 6 reais e 40 centavos em doze meses: dois cafezinhos. Eis a política monetária em miúdos: o país inteiro discutindo décimos de ponto, e no fim do ano o juro do seu sacrifício cafeeiro paga dois expressos e fica devendo o pão de queijo.
A moral econômica, se o leitor a quiser: juro alto só é abstrato para quem não parcela. Para quem parcela, ele é a diferença entre o fogão de 12 vezes e o de 18. O conselho desta coluna não muda desde a edição passada — desconfie de quem prometer data para o crediário ficar barato. O mecanismo está a favor, a velocidade não está. "Pode" e "tende a" seguem sendo os verbos mais honestos do meu ofício.

O objeto cabe na mão e pesa menos que um missal: caixa de plástico, alto-falante de pano, antena telescópica que se puxa com dois dedos e um roller de sintonia que exige paciência de relojoeiro. O rádio de pilha foi, por meio século, o móvel mais democrático do Brasil — funcionava onde não havia luz, falava para quem não havia escola, e nas tardes de Copa subia ao seu posto máximo: colado ao ouvido na arquibancada, narrando o jogo que o próprio dono estava vendo. Essa cena, que diverte os mais novos, é um documento: ver não bastava; era preciso alguém dizendo.
Walter Ong, em Oralidade e Cultura Escrita (1982), deu nome ao que o radinho fazia: oralidade secundária — a cultura da voz renascida dentro da era técnica. Ong trabalha aqui com uma distinção precisa: na cultura oral, o conhecimento vive na fala e na memória de quem escuta; a escrita o transfere para o papel e o torna solitário. O rádio devolveu à voz o seu público múltiplo: uma narração de futebol é escutada por milhões ao mesmo tempo, e cada gol narrado é um verso que o país inteiro decora junto. Não por acaso os locutores brasileiros viraram estilistas — o gol prolongado, o bordão, a lista dos escudos: fórmulas de memória, como nos cantadores.
Num país onde 8,4 milhões de adultos não leem — o dado é da capa desta edição —, essa história tem um subtexto sério: o rádio nunca foi acessório aqui; foi o jornal de quem não podia assinar jornal. A senhora da seção 09, que decora a carta do neto de ouvido, é herdeira direta do tio que decorava folhetos de cordel pagos para serem lidos em voz alta na feira. A cultura brasileira desenvolveu uma engenharia própria de transmissão sem letra — repente, folheto declamado, narração esportiva, novela de rádio — e o radinho de pilha foi a peça industrial dessa engenharia.
O streaming não matou o rádio; fez algo mais fino — privatizou a escuta. O fone no ouvido entrega cada um à sua playlist, ao seu narrador escolhido, ao seu recorte. Ganhou-se variedade; perdeu-se o simultâneo. O radinho era coletivo por desenho: o alto-falante aberto obrigava a vizinhança a ouvir junto, e a narração única dava ao país uma memória comum — quem tem certa idade sabe onde estava em determinados gols porque a voz que os narrou era a mesma em todas as janelas.
No domingo, o Brasil saiu da Copa, e com ele saiu de cena, até 2030, a última função pública do velho aparelho. Ele seguirá nos sítios, nas barbearias, nas vigílias de pescador — rebaixado a charme, resistente como barata de estimação. Não escrevo seu necrológio: objetos assim não morrem, mudam de prateleira. Escrevo apenas o registro, com obra e ano, de que houve um tempo em que este país inteiro cabia dentro de uma caixinha de pilha — e escutava.
Stanley & Iris (1990, dir. Martin Ritt, EUA). Robert De Niro faz Stanley, cozinheiro de fábrica que perde o emprego quando descobrem que não sabe ler — não por incapacidade no ofício, mas porque um operário que não lê rótulo vira risco jurídico. Jane Fonda é Iris, a operária viúva que o alfabetiza na cozinha de casa. Ritt, veterano de filmes sobre trabalho, acerta no que ninguém filma: o medo logístico do analfabeto — a cidade como labirinto de placas. O filme escorrega quando transforma a alfabetização em cortejo romântico, açucarando o que era social; e acerta, com força rara, na cena em que Stanley explica por que nunca pediu ajuda: pedir é ser visto. O sistema que descarta o trabalhador é o vilão real do filme, ainda que o roteiro prefira olhar para o casal.
O Leitor (The Reader, 2008, dir. Stephen Daldry, Alemanha/EUA). Aqui o segredo estrutura a tragédia: Hanna Schmitz, vivida por Kate Winslet, aceita no tribunal uma condenação maior a admitir, diante de todos, que não sabe ler. A vergonha vence o cálculo — quem leu a seção 10 desta edição reconhecerá o mecanismo levado ao extremo. O filme é moralmente espinhoso por outras razões, que não cabem nesta nota; no nosso eixo, ele faz o que Stanley & Iris não ousa: mostra o analfabetismo como identidade clandestina, administrada a vida inteira, com custo maior que a liberdade. As cenas em que Hanna aprende a ler na prisão, sozinha, cotejando fita e página, estão entre as mais precisas já filmadas sobre o ato físico de decifrar.
Duas indicações breves, ambas brasileiras e ambas na chave do intermediário — a figura de quem lê pelos outros: Central do Brasil (1998, dir. Walter Salles), em que Dora escreve na estação as cartas de quem não pode escrevê-las, cobrando pela intimidade alheia; e Narradores de Javé (2003, dir. Eliane Caffé), em que um vilarejo ameaçado por uma represa encarrega o único homem que sabe escrever de registrar sua história — e descobre que quem segura a caneta decide a lenda. Os quatro filmes existem, têm ficha pública, e nenhum precisa de estrela: precisam de espectador com tempo. É o que esta revista tem a oferecer.
O teatro é a mais antiga tecnologia de transmissão para quem não lê — anterior à escola, mais eficaz que o sermão, mais barata que o livro. A dramaturgia popular brasileira sempre soube disso e construiu sobre isso: o mamulengo pernambucano, o bumba meu boi, o pastoril, a cavalhada. São formas que carregam enredo, sátira política e código moral inteiros pela voz, pelo gesto e pela repetição — bibliotecas ambulantes para plateias sem letra. Quem estudou só a dramaturgia de texto conhece metade do teatro brasileiro; a outra metade nunca precisou de papel.
O caso exemplar dessa via de mão dupla é Morte e Vida Severina (1955), de João Cabral de Melo Neto — poeta erudito, de rigor quase matemático, que escreveu um auto de Natal pernambucano na forma dos folhetos e das récitas populares. O texto nasceu livro; virou voz em 1966, na montagem do TUCA, o teatro da universidade católica paulista, com música de Chico Buarque — e foi pela voz e pela melodia que Severino entrou na memória de gente que jamais abriria um volume de poesia. O circuito completo: a cultura oral empresta a forma ao poeta; o poeta devolve o poema à cultura oral. Nenhuma das partes sai devendo.
Adelaide Fontes, que assina comigo, lembra o detalhe de ofício que fecha o argumento: o ator brasileiro decora — e decorar, ofício desprezado pelos manuais, é a tecnologia da senhora da seção 09 e do tio dela que recitava folhetos na feira. Um elenco que estreia carrega na memória, sem papel na mão, mais texto do que muitos leitores atravessam num semestre. O palco sempre soube o que a política educacional custa a aprender: a letra é um dos suportes da palavra. Nunca foi o único. E nas noites em que a luz cai e o cenário emperra, é o suporte mais antigo que segura a sessão — a voz de alguém, dizendo, e uma plateia inteira guardando de ouvido.
Tem uma banca de jornal na esquina da rua onde fica minha padaria. Digo minha padaria como se dissesse meu time: por afeição e teimosia. O jornaleiro chama-se Sr. Edmilson e herdou a banca do sogro, que a herdou de um cunhado, numa genealogia que ele conta diferente cada vez que pergunto.
Todo dia, ali pelas sete, chega um senhor de camisa passada. Compra sempre o mesmo jornal. Antes de pagar, pede: lê aí as manchetes pra mim, Edmilson, que esqueci os óculos. E o Edmilson lê. Lê a manchete principal, o placar, a chamada da política. O senhor escuta de olho fechado, como quem confere. Depois dobra o jornal debaixo do braço, paga, e vai embora com ele — o jornal que ele não vai ler, ou vai, nunca perguntei.
Reparei que os óculos, alguns dias, estão no bolso da camisa dele. O Edmilson também reparou, tenho certeza, porque o Edmilson repara em tudo. Nunca falamos disso. Há um pacto ali, assinado por ninguém: o homem pede, o outro lê, os óculos ficam quietos no bolso, e a manhã segue sua obrigação.
Numa quinta-feira, o Edmilson tinha ido resolver documento e quem estava na banca era o filho, rapaz de fone no ouvido. O senhor chegou, pediu a leitura. O rapaz, sem má vontade, mas sem liturgia, resumiu: tá tudo aí igual ontem, chefe. O senhor ficou um instante parado. Depois disse, devagar, a manchete de anteontem — palavra por palavra, entonação e tudo, do jeito que o Edmilson tinha lido. Tá igual isso aqui?, perguntou. O rapaz tirou o fone: mais ou menos, o senhor quer que eu leia? Ele quis.
Voltei pra casa com a cena na cabeça, e com inveja de uma coisa que não sei nomear direito. O homem guardava o jornal de anteontem inteiro na voz do Edmilson. Eu, que leio o dia todo por ofício, não guardo o que li ontem à tarde. Passo os olhos, recorto, arquivo, esqueço — a letra me permite esquecer, e eu agradeço e esqueço. Ele não tem essa licença. O que entra, entra pra ficar.
Não sei se o senhor da camisa passada não lê ou se apenas prefere a voz. Já me convenci das duas coisas em dias diferentes. Sei que ele compra o jornal todo dia, o que faz dele assinante mais fiel do que muito leitor. E sei que, quando o Edmilson lê as manchetes em voz alta, por dois minutos a banca vira o que a feira era pro folheto de cordel: um lugar onde a notícia é dita, escutada e levada embora na cabeça de alguém.
A moral, se houver, ficou com ele — dobrada debaixo do braço.

A caneta que o Estado não entregou pesa mais do que parece.
traço de Risco · cartunista da casa · nanquim sobre papel
A leitura do mundo precede a leitura da palavra.
Paulo Freire · A Importância do Ato de Ler, 1981
Ler é sonhar pela mão de outrem.
Fernando Pessoa (como Bernardo Soares) · Livro do Desassossego, publicado em 1982
Que outros se orgulhem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que li.
Jorge Luis Borges · Un lector, em Elogio da Sombra, 1969 · tradução da casa
Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.
João Guimarães Rosa · Grande Sertão: Veredas, 1956
Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem em seu ofício.
Graciliano Ramos · entrevista, 1948
A leitura, quase tanto quanto respirar, é nossa função essencial.
Alberto Manguel · Uma História da Leitura, 1996
Há uma frase enterrada na Lei 13.005, de 2014, que ninguém emoldurou: a meta 9 do Plano Nacional de Educação prometia erradicar o analfabetismo absoluto até o fim da vigência do plano. A vigência acabou em 2024. Passei uma tarde com o texto da lei aberto ao lado da tabela nova do IBGE, a de 13 de junho, e o exercício tem algo de acareação: de um lado, o país que se declarou; do outro, o país que se mediu. Entre os dois documentos, 8,4 milhões de pessoas.
Aprendi, em vinte e dois anos cobrindo Brasília, a desconfiar dos documentos declaratórios. Constituições, planos nacionais, pactos federativos, cartas de intenção: são a autobiografia autorizada do Estado — o que ele gostaria que se lembrasse dele. A prosa é sempre generosa, o prazo é sempre de outro mandato. Existe porém um documento em que o país não posa: a lei orçamentária anual, com seus anexos que ninguém lê por prazer. Ali não há adjetivo, há rubrica. E rubrica não promete — paga ou não paga.
É por isso que chamo o orçamento de autobiografia verdadeira. Diga-me quanto empenhaste, e te direi quem és. O documento que promete erradicar o analfabetismo é solene; o documento que decide, ano após ano, quanto vale a alfabetização de uma senhora de 74 anos é uma planilha sem retórica — e é nela que a promessa vai morar ou morrer. Quando a execução de uma política encolhe abaixo do autorizado, e o encolhido do ano vira o teto do ano seguinte, não houve decisão anunciada em plenário. Houve inércia. A inércia é a forma mais educada de dizer não, porque dispensa a coragem de dizê-lo.
A mecânica não é segredo, é hábito. Alfabetizar adulto é política sem inauguração: não corta fita, não descerra placa, não rende a foto do primeiro dia de aula com mochila nova. O beneficiário tem 70 anos, mora longe da câmera e — eis o detalhe que fecha o circuito — não lê a emenda parlamentar, não lê o diário oficial, não lê o próprio nome na lista dos contemplados que não o contemplam. É o único eleitorado estruturalmente incapaz de fiscalizar, por escrito, o que se escreve sobre ele. O sistema funciona para quem entende como ele funciona. Escrevo para os que não têm como entender: é a definição do meu ofício que aprendi a preferir.
Não termino com solução, que seria presunção de colunista. Termino com o hábito que recomendo ao leitor que lê — e que, por ler, tem o privilégio da acareação: quando ouvir promessa educacional, peça o par dela na planilha. A autobiografia autorizada está nos discursos. A verdadeira sai todo ano, em dezembro, com anexos. O documento está escrito. Falta o país que o leia.












Colaboraram nesta edição: Beto Calazans (À Meia-Luz) · Vicente Moreno e Adelaide Fontes (Lado B) · Iara Falcão Romualdo (Saúde Pública) · e o Risco, cartunista da casa, que não tem rosto — só traço.