III · as pessoas
Quem se senta à Mesa
Uma casa é feita de quem volta. Estes voltam toda quinta.
As três figuras fixas do Jazigo
anfitrião · piano · trova
O. AlmeidaO anfitrião. Assina só com a inicial; o resto, ele conta no salão. Três décadas de mesa, um gato gordo chamado Lupicínio e a convicção de que crônica de costumes se faz com pouca teoria, muito olho, muito ouvido e muito tempo de cadeira.
Vicente MorenoO piano. Sete mil e quatrocentos vinis num apartamento alugado para os discos, e um gato chamado Coltrane que nunca derrubou nenhum. O bar sem ele é um bar.
Jurandir CiprianoO trovador satírico. Banquinho ao lado do piano, violão Di Giorgio, só toca em dó maior e sai sempre às onze da noite: depois disso, o público fica menos amigo. A canção da semana é publicada só como letra — a música existe ao vivo no Jazigo, e em lugar nenhum mais.
A Mesa Permanente
vinte e quatro cadeiras
Décio Saldanhachefe da mesaAssiste a um filme e enxerga um golpe de estado. O gato se chama Rosebud.
Adelaide FontescuradoriaOitenta e um anos, e cada um deles está de pé. "Eu publico como quem manda carta. Não espero resposta. Espero que chegue."
Apolinário do ValemúsicaNão lê o mundo: ouve. A feira-livre é uma orquestra que ninguém anotou; ele anota.
Caetano VazensaioAprendeu violão com um tio cego e sustenta que a síncope é um adiamento, e o adiamento, uma forma de afeto.
Bento do RosáriointeriorEntra num lugar e a sala fica menor, porque ele encurta a distância entre as pessoas.
Caio BaetaprosaTradutor de poesia francesa da Lapa; sabe a hora exata em que a Lapa cheira a flor murcha e querosene.
Lia CamposbairroEscreve com lupa: uma única palavra, um único copo, uma única nuvem.
Moacir DantasesporteEscreve corpos em glória, que fazem o que a física proíbe — e, depois, corpos que pagam o preço.
Ingrid TulipaimagemPensa a edição como instalação e esconde uma tulipa recortada, minúscula, em cada obra: a assinatura no lugar do rosto que não dá.
Alano IturracartumNanquim sobre papel xerox, nunca digital; desenha durante o sarau, no canto da janela.
Plinio CastelãodramaturgiaRubrica sem adjetivo: "ela entra. ela espera. ela sai." Quando não tem ator, lê tudo sozinho, fazendo todas as vozes.
Diana Cardimteatro"Crítica de teatro é amor sem indulgência." Trinta e três anos seguidos de Avignon; correspondência por carta, nunca por e-mail.
Lúcio WallensteinliteraturaTrilíngue, vermute às onze da manhã; fecha o texto com um epigrama que tem ar de provérbio, mas é dele.
Davi MascarenhascinemaAbandonou o próprio curta na montagem; foi esse fracasso que o fez crítico decente. Leva um DVD na pasta para mostrar cinco minutos a alguém depois do sarau.
Bernardo CarmoegatraduçãoTraduz devorando. Casado com Hadidja, poetisa moçambicana, que lê em voz alta no português dela enquanto ele ajusta.
Caio AlbuquerqueresenhaResenha boa não conta o livro: conta como o livro entra na vida de quem lê. Ou sai, se for o caso.
Glauco MaranhãopoesiaTrês gerações de tipógrafos atrás dele; a métrica do samba é a métrica dele.
Marina AntoniazziarticulistaPsicanalista; quando o texto resiste, senta em silêncio numa arquibancada de teatro vazia e espera.
Lara Macedovoz novaVinte e quatro anos, Madureira, gíria sem aspas, ônibus pelo número da linha. Se a mãe não rir nem ficar séria, refaz.
Otávio SenacopydeskNão escreve para a revista, por cláusula declarada. Devolve a prova com pergunta na margem, nunca afirmação; a quinta leitura é em voz alta, descalço, sob o olhar do gato Crase.
Eduardo ResendeviagemCobre o mundo só onde já não tem correspondente brasileiro. Fotografa para lembrar a luz, não para publicar.
Renan BelchiorpoesiaCaderno vermelho, sempre. Poesia que não fede a corpo, para ele, é decoração. Na página dupla, Glauco assina à esquerda; ele, à direita.
Hortência TristãocostumesAceitou o cargo sob uma condição, e a condição é dela. "A margem é o centro fora do lugar. Sentar nela é a forma mais antiga de literatura."
O. AlmeidacomportamentoAcumula: a cadeira de comportamento na Mesa é a mesma que abre a revista.
A cozinha editorial
quem segura a edição
Roberta Aldemarchefia editorialQuando o texto não chegou ao ponto, a casa segura: a Bica. é semanal, mas a obra não tem prazo — tem ponto.
Maíra CalazansadjuntaProsa lírica. Mestre de cerimônias prometida do Tomo 02, em letra impressa.
Agenor Vilela Baptistaconfraria"Toda edição tem que ter uma frase de abertura e uma de fechamento, e as duas têm que se responder."
Flávia Ouriques LeprevisitantesA que faz caber quem não é da casa.
O Ateliê Visual
capa · gravura · tipo · página
Pablo ZerbacapistaAquarela e nanquim; um respingo de azul-real em toda capa, mesmo quando a paleta não pede.
Otoniel BarrettoxilogravuraDe Juazeiro do Norte; uma estrela de cinco pontas miúda em cada gravura, herança do tio dos folhetos. A cadela Goiva dorme nas aparas de cedro.
Mirtes CanhototipografiaDe Curitiba; aprendeu a ler em placa de loja. Em toda capa há um R ligeiramente diferente dos outros erres.
Clarissa UenodiagramaçãoDe Londrina; a última página de cada edição tem a margem inferior dois milímetros maior. Ela diz que a página se despede.
Ingrid TulipacoordenaçãoCoordena o Ateliê da mesma cadeira em que edita a imagem da Mesa.
Bernardo FarocartumBelém; aprendeu desenho copiando as capas de revista que o pai guardava numa caixa debaixo da cama.
Celeste IglesiasilustraçãoSalvador; ilustra de uma janela alta, aberta para o Atlântico.
Domingos AbdularetratoSão Luís; cresceu diante do retrato a óleo do avô, de terno, mão na lapela — e retrata o mundo a partir dali.
Dora BenchimolcartumBelém, casa judaico-marroquina da rua Manoel Barata, um pé de cupuaçu no quintal.
Fátima SaldívarcartumCampo Grande; falava guarani com a avó e português na escola. Desenha nas duas línguas.
Igor DemanborofotografiaLondrina; herdou do avô um quartinho com papel fotográfico vencido e cheiro de fixador.
Juraci BorgescartumTeresina; passou um verão inteiro copiando revistas à mão na biblioteca municipal.
Quim DelgadocartumVitória; filho do filósofo da Praia do Suá, o pescador que sentava no muro para pensar.
Roberval SalgueirocartumMaringá; pai libanês do tecido, mãe professora de matemática. O traço saiu da régua e do corte.
Valesca LudgeropinturaGoiânia; fazenda sem eletricidade até os onze anos: lamparina, vela e o céu inteiro.
o RiscochargeNão tem rosto, não dá entrevista. O Tomo 01 saiu, de propósito, com "chargista · nome em definição"; a estreia assinada é assunto do Tomo 02.
A Confraria
a roda maior
Quem faz o salão ser o salão. Não cabe inteira em página nenhuma; ficam aqui alguns dos que qualquer quinta encontra.
Silvio VenturaEntra como quem pede desculpa por existir; escreve nos guardanapos que o Almeida já deixa perto da mesa dele.
Geraldo BrazPode passar a noite sem uma palavra. Quando fala, a palavra pesa tanto que os outros precisam de um tempo para se recuperar.
Teodoro AmaranteEscreve o mesmo romance desde os vinte e três anos. Não termina porque o romance não deixa: cresce sozinho.
Lorena DuarteEntra e o ar muda; quando lê e o Vicente acompanha, o salão vira templo.
Nicolau FerreiraSenta sempre no canto mais escuro. Se trocam a lâmpada, migra para o novo canto mais escuro.
Raimundo AzevedoTerno branco, uísque, um epigrama que arranca gargalhada. Na semana seguinte, um texto que arranca o ar.
Baltazar MendesO homem mais engraçado do salão, e o mais triste quando as luzes se apagam.
Dora BastosEntra como quem sobe num palco: sem pedir licença, sem pedir desculpa.
Irene SalvatoreTextos que parecem poemas e funcionam como instalações. Não quer ser definida — e não será aqui.
Hermenegildo PascoalMora na mata com um bode e três pianos desafinados. Garante que som é bicho: tem pelo, tem cheiro, tem hora de dormir.
Inácio PrataMédico que só consegue ser médico porque escreve.
Marina SalgadoA voz: o leitor ouve o texto antes de lê-lo.
Rosa MendonçaQuando lê, os copos param no ar.
Joana MedeirosA noite, para ela, não é metáfora: é endereço.
Dagmar ConceiçãoNão pede passagem, não pede licença, não pede nada. Está ali.
Lázaro BeirãoConstrói catedrais com palavras e entra nelas para chorar sozinho.
Túlio MaiaSustenta que a página é o maior readymade que existe: todo mundo usa, ninguém olha.
Valentim RochaNão existe texto pequeno dele. Existe o espetáculo, ou o silêncio.
Caio ZabumbaCanta baixo no começo. Depois grita.
Elisa RabeloA exigência em pessoa: não veio ouvir gente pequena.
Nestor MatosO corpo também tem sintaxe; passa batom como quem assina um contrato com a noite.
Heitor GraçaReescreve a frase do bêbado vinte e sete vezes, até o bêbado ficar mais real que o de verdade.
Luísa BragaNão entrevista: hospeda.
Cássio DumontPensa no Brasil de 2043. Só café, nunca álcool.
Tomás WanderleyO peregrino: quem corre não vê, e quem voa não sente o chão.
& os que o Tomo 01 já imprimiuAndré Cavalcanti e a crônica do Engenho Novo; Beto Calazans e a pergunta sobre janelas; os poetas Mariana Vidal, Eliseu Bento, Sara Inhauma e Carlos Vasconcelos.
A confraria, entre si, tem para o salão um apelido de dentro — que não se imprime.