Bica. · quem fazrevista literária · quinta · 19hcasa Xaplin
o universo

Bica.

o sarau que aprendeu a ser impresso
um lugar · um rito · uma mesa cheia
quem chegou, entrou.
Bica. · o lugarIBotafogo
I · o lugar

O Jazigo do Amadeu

Quinta-feira, nove da noite, um sobrado em Botafogo. Não há placa, não há fila, não há perfil para seguir.

Há um zelador, e há uma palavra que se diz baixinho para ele. Quem sobe a escada paga vinte e cinco reais de couvert — que cobrem a cerveja artesanal, a cachaça de Salinas e uns quitutes — e encontra, no alto, um salão onde um piano desafinado toca há mais tempo do que muita gente ali está viva. Dona Lurdes, a dona da casa, recusa-se a consertá-lo. O piano, ela argumenta, sobreviveu a coisas piores que a opinião de qualquer um.

É assim toda quinta, há trinta e seis anos. Dona Lurdes lava copos na cozinha e desce raramente. O Ribeiro, viúvo desde fevereiro do ano passado, vem para não ficar em casa e não conversa com ninguém. O Marcão, do balcão, dorme no sofá do canto por volta do terceiro chopp. Seu Zé, o garçom mais antigo, chama-se José e atende como Seu Zé. Das paredes sai um cheiro de cigarro velho que nenhuma reforma tirou. O sarau fecha quando o último decidir ir embora — o Tomo 01 registrou: a última pessoa saiu às quatro e dez da manhã.

E o nome? O Amadeu morreu em 1987 e nem era marido da Dona Lurdes — era irmão. Ou era um ator dos anos setenta, velado dentro do próprio bar com um copo de cachaça sobre o peito. Ou nenhuma das duas coisas: correm pelo salão vinte e quatro versões, todas contadas como segredo, todas defendidas como verdade, nenhuma confirmada. O. Almeida, em três décadas de casa, já ouviu sete — e cada uma o convenceu por completo enquanto era contada.

"O Jazigo do Amadeu não está no Google Maps. Quem precisa saber, sabe. Quem não sabe, pergunta a quem sabe."folha do sarau · Tomo 01

Foi dessa quinta-feira que nasceu uma revista. A Bica. não é uma revista sobre um sarau: é um sarau que aprendeu a ser impresso. Sai toda quinta às dezenove horas — duas horas antes de o próprio salão abrir. O papel chega primeiro; a noite, até hoje, nunca desmentiu o papel.

Bica. · o ritoIItoda quinta
II · o rito

Como se faz um Tomo

Toda edição é um Tomo, e todo Tomo obedece à mesma liturgia.

O. Almeida abre sempre — um causo de uma noite do Jazigo, um trecho do chansonnier, uma letra que ele canta há doze anos sem nunca ter gravado. Adelaide Fontes chega antes de o Almeida abrir: tem a única cópia da chave além da dele.

Depois do Almeida, entra o mestre de cerimônias — rotativo, nunca o mesmo em duas semanas seguidas. É ele quem apresenta as seções como num teatro de variedades, é ele quem declara ao leitor a licença poética da casa, e é ele quem some na hora da charge. "Charge não precisa de mestre de cerimônias", cravou Décio Saldanha no Tomo 01, e ficou valendo.

O miolo tem conto, crônica da cidade, crítica, cinema, poemas de várias vozes e uma seção sobre relacionamentos que carrega o nome de um filósofo. As citações vêm com uma advertência impressa no rodapé: "não inventamos frases. as que estão aqui podem ser verificadas em obra pública." As exposições em cartaz são verificadas uma a uma — quando a terceira não se confirma, a página sai com duas, e ponto. A charge é desenhada de fato, a nanquim; se não sair à altura, a edição não sai sem ela.

A foto que o escritor tirou, não o retrato dele.regra das polaroides

Quem escreve na Bica. não mostra o rosto — mostra o que viu. E, no fim, o mestre de cerimônias volta uma última vez para anunciar o tema e o condutor do Tomo seguinte. Promessa impressa é dívida: a revista paga as dívidas que imprime. Os quatro poetas que ficaram sem polaroide no Tomo 01 têm as suas garantidas no Tomo 02 — está em letra de forma.

Bica. · quem se senta à MesaIIIo elenco
III · as pessoas

Quem se senta à Mesa

Uma casa é feita de quem volta. Estes voltam toda quinta.

As três figuras fixas do Jazigo

anfitrião · piano · trova
O. AlmeidaO anfitrião. Assina só com a inicial; o resto, ele conta no salão. Três décadas de mesa, um gato gordo chamado Lupicínio e a convicção de que crônica de costumes se faz com pouca teoria, muito olho, muito ouvido e muito tempo de cadeira.
Retrato de Vicente MorenoVicente MorenoO piano. Sete mil e quatrocentos vinis num apartamento alugado para os discos, e um gato chamado Coltrane que nunca derrubou nenhum. O bar sem ele é um bar.
Jurandir CiprianoO trovador satírico. Banquinho ao lado do piano, violão Di Giorgio, só toca em dó maior e sai sempre às onze da noite: depois disso, o público fica menos amigo. A canção da semana é publicada só como letra — a música existe ao vivo no Jazigo, e em lugar nenhum mais.

A Mesa Permanente

vinte e quatro cadeiras
Retrato de Décio SaldanhaDécio Saldanhachefe da mesaAssiste a um filme e enxerga um golpe de estado. O gato se chama Rosebud.
Retrato de Adelaide FontesAdelaide FontescuradoriaOitenta e um anos, e cada um deles está de pé. "Eu publico como quem manda carta. Não espero resposta. Espero que chegue."
Retrato de Apolinário do ValeApolinário do ValemúsicaNão lê o mundo: ouve. A feira-livre é uma orquestra que ninguém anotou; ele anota.
Caetano VazensaioAprendeu violão com um tio cego e sustenta que a síncope é um adiamento, e o adiamento, uma forma de afeto.
Retrato de Bento do RosárioBento do RosáriointeriorEntra num lugar e a sala fica menor, porque ele encurta a distância entre as pessoas.
Caio BaetaprosaTradutor de poesia francesa da Lapa; sabe a hora exata em que a Lapa cheira a flor murcha e querosene.
Retrato de Lia CamposLia CamposbairroEscreve com lupa: uma única palavra, um único copo, uma única nuvem.
Retrato de Moacir DantasMoacir DantasesporteEscreve corpos em glória, que fazem o que a física proíbe — e, depois, corpos que pagam o preço.
Ingrid TulipaimagemPensa a edição como instalação e esconde uma tulipa recortada, minúscula, em cada obra: a assinatura no lugar do rosto que não dá.
Alano IturracartumNanquim sobre papel xerox, nunca digital; desenha durante o sarau, no canto da janela.
Plinio CastelãodramaturgiaRubrica sem adjetivo: "ela entra. ela espera. ela sai." Quando não tem ator, lê tudo sozinho, fazendo todas as vozes.
Diana Cardimteatro"Crítica de teatro é amor sem indulgência." Trinta e três anos seguidos de Avignon; correspondência por carta, nunca por e-mail.
Lúcio WallensteinliteraturaTrilíngue, vermute às onze da manhã; fecha o texto com um epigrama que tem ar de provérbio, mas é dele.
Davi MascarenhascinemaAbandonou o próprio curta na montagem; foi esse fracasso que o fez crítico decente. Leva um DVD na pasta para mostrar cinco minutos a alguém depois do sarau.
Bernardo CarmoegatraduçãoTraduz devorando. Casado com Hadidja, poetisa moçambicana, que lê em voz alta no português dela enquanto ele ajusta.
Caio AlbuquerqueresenhaResenha boa não conta o livro: conta como o livro entra na vida de quem lê. Ou sai, se for o caso.
Glauco MaranhãopoesiaTrês gerações de tipógrafos atrás dele; a métrica do samba é a métrica dele.
Marina AntoniazziarticulistaPsicanalista; quando o texto resiste, senta em silêncio numa arquibancada de teatro vazia e espera.
Lara Macedovoz novaVinte e quatro anos, Madureira, gíria sem aspas, ônibus pelo número da linha. Se a mãe não rir nem ficar séria, refaz.
Otávio SenacopydeskNão escreve para a revista, por cláusula declarada. Devolve a prova com pergunta na margem, nunca afirmação; a quinta leitura é em voz alta, descalço, sob o olhar do gato Crase.
Eduardo ResendeviagemCobre o mundo só onde já não tem correspondente brasileiro. Fotografa para lembrar a luz, não para publicar.
Renan BelchiorpoesiaCaderno vermelho, sempre. Poesia que não fede a corpo, para ele, é decoração. Na página dupla, Glauco assina à esquerda; ele, à direita.
Hortência TristãocostumesAceitou o cargo sob uma condição, e a condição é dela. "A margem é o centro fora do lugar. Sentar nela é a forma mais antiga de literatura."
O. AlmeidacomportamentoAcumula: a cadeira de comportamento na Mesa é a mesma que abre a revista.

A cozinha editorial

quem segura a edição
Roberta Aldemarchefia editorialQuando o texto não chegou ao ponto, a casa segura: a Bica. é semanal, mas a obra não tem prazo — tem ponto.
Maíra CalazansadjuntaProsa lírica. Mestre de cerimônias prometida do Tomo 02, em letra impressa.
Agenor Vilela Baptistaconfraria"Toda edição tem que ter uma frase de abertura e uma de fechamento, e as duas têm que se responder."
Flávia Ouriques LeprevisitantesA que faz caber quem não é da casa.

O Ateliê Visual

capa · gravura · tipo · página
Pablo ZerbacapistaAquarela e nanquim; um respingo de azul-real em toda capa, mesmo quando a paleta não pede.
Otoniel BarrettoxilogravuraDe Juazeiro do Norte; uma estrela de cinco pontas miúda em cada gravura, herança do tio dos folhetos. A cadela Goiva dorme nas aparas de cedro.
Mirtes CanhototipografiaDe Curitiba; aprendeu a ler em placa de loja. Em toda capa há um R ligeiramente diferente dos outros erres.
Clarissa UenodiagramaçãoDe Londrina; a última página de cada edição tem a margem inferior dois milímetros maior. Ela diz que a página se despede.
Ingrid TulipacoordenaçãoCoordena o Ateliê da mesma cadeira em que edita a imagem da Mesa.
Retrato de Bernardo FaroBernardo FarocartumBelém; aprendeu desenho copiando as capas de revista que o pai guardava numa caixa debaixo da cama.
Celeste IglesiasilustraçãoSalvador; ilustra de uma janela alta, aberta para o Atlântico.
Domingos AbdularetratoSão Luís; cresceu diante do retrato a óleo do avô, de terno, mão na lapela — e retrata o mundo a partir dali.
Dora BenchimolcartumBelém, casa judaico-marroquina da rua Manoel Barata, um pé de cupuaçu no quintal.
Fátima SaldívarcartumCampo Grande; falava guarani com a avó e português na escola. Desenha nas duas línguas.
Igor DemanborofotografiaLondrina; herdou do avô um quartinho com papel fotográfico vencido e cheiro de fixador.
Juraci BorgescartumTeresina; passou um verão inteiro copiando revistas à mão na biblioteca municipal.
Quim DelgadocartumVitória; filho do filósofo da Praia do Suá, o pescador que sentava no muro para pensar.
Roberval SalgueirocartumMaringá; pai libanês do tecido, mãe professora de matemática. O traço saiu da régua e do corte.
Valesca LudgeropinturaGoiânia; fazenda sem eletricidade até os onze anos: lamparina, vela e o céu inteiro.
o RiscochargeNão tem rosto, não dá entrevista. O Tomo 01 saiu, de propósito, com "chargista · nome em definição"; a estreia assinada é assunto do Tomo 02.

A Confraria

a roda maior
Quem faz o salão ser o salão. Não cabe inteira em página nenhuma; ficam aqui alguns dos que qualquer quinta encontra.
Retrato de Silvio VenturaSilvio VenturaEntra como quem pede desculpa por existir; escreve nos guardanapos que o Almeida já deixa perto da mesa dele.
Retrato de Geraldo BrazGeraldo BrazPode passar a noite sem uma palavra. Quando fala, a palavra pesa tanto que os outros precisam de um tempo para se recuperar.
Retrato de Teodoro AmaranteTeodoro AmaranteEscreve o mesmo romance desde os vinte e três anos. Não termina porque o romance não deixa: cresce sozinho.
Retrato de Lorena DuarteLorena DuarteEntra e o ar muda; quando lê e o Vicente acompanha, o salão vira templo.
Retrato de Nicolau FerreiraNicolau FerreiraSenta sempre no canto mais escuro. Se trocam a lâmpada, migra para o novo canto mais escuro.
Retrato de Raimundo AzevedoRaimundo AzevedoTerno branco, uísque, um epigrama que arranca gargalhada. Na semana seguinte, um texto que arranca o ar.
Retrato de Baltazar MendesBaltazar MendesO homem mais engraçado do salão, e o mais triste quando as luzes se apagam.
Retrato de Dora BastosDora BastosEntra como quem sobe num palco: sem pedir licença, sem pedir desculpa.
Retrato de Irene SalvatoreIrene SalvatoreTextos que parecem poemas e funcionam como instalações. Não quer ser definida — e não será aqui.
Hermenegildo PascoalMora na mata com um bode e três pianos desafinados. Garante que som é bicho: tem pelo, tem cheiro, tem hora de dormir.
Retrato de Inácio PrataInácio PrataMédico que só consegue ser médico porque escreve.
Retrato de Marina SalgadoMarina SalgadoA voz: o leitor ouve o texto antes de lê-lo.
Retrato de Rosa MendonçaRosa MendonçaQuando lê, os copos param no ar.
Retrato de Joana MedeirosJoana MedeirosA noite, para ela, não é metáfora: é endereço.
Retrato de Dagmar ConceiçãoDagmar ConceiçãoNão pede passagem, não pede licença, não pede nada. Está ali.
Retrato de Lázaro BeirãoLázaro BeirãoConstrói catedrais com palavras e entra nelas para chorar sozinho.
Retrato de Túlio MaiaTúlio MaiaSustenta que a página é o maior readymade que existe: todo mundo usa, ninguém olha.
Retrato de Valentim RochaValentim RochaNão existe texto pequeno dele. Existe o espetáculo, ou o silêncio.
Caio ZabumbaCanta baixo no começo. Depois grita.
Elisa RabeloA exigência em pessoa: não veio ouvir gente pequena.
Nestor MatosO corpo também tem sintaxe; passa batom como quem assina um contrato com a noite.
Retrato de Heitor GraçaHeitor GraçaReescreve a frase do bêbado vinte e sete vezes, até o bêbado ficar mais real que o de verdade.
Retrato de Luísa BragaLuísa BragaNão entrevista: hospeda.
Retrato de Cássio DumontCássio DumontPensa no Brasil de 2043. Só café, nunca álcool.
Retrato de Tomás WanderleyTomás WanderleyO peregrino: quem corre não vê, e quem voa não sente o chão.
& os que o Tomo 01 já imprimiuAndré Cavalcanti e a crônica do Engenho Novo; Beto Calazans e a pergunta sobre janelas; os poetas Mariana Vidal, Eliseu Bento, Sara Inhauma e Carlos Vasconcelos.
A confraria, entre si, tem para o salão um apelido de dentro — que não se imprime.
Bica. · o conviteIVquinta · 19h
IV · o convite

A porta está aberta

O Tomo 01 está no ar, inteiro, com sua lombada anunciada na capa: Janela · uma palavra · oito olhares · um sarau no fim. Começa onde tudo começa — com o Almeida contando por que o Jazigo do Amadeu não é jazigo — e termina com a folha do sarau e as quatro quintas seguintes.

no ar desde 28 de maio de 2026
Bica. · Tomo 01 · Janela
quinze seções, dez polaroides, um sarau no fim.

ler o Tomo 01

O Tomo 02 cumpriu a promessa impressa — Silêncio, com Maíra Calazans como mestra de cerimônias — e já está no ar, logo abaixo. Enquanto isso, o sarau segue abrindo toda quinta às nove da noite, com ou sem gráfica: o Jazigo existe entre as edições.

As pessoas desta página são vozes autorais da casa Xaplin — personas, no sentido antigo do teatro: máscaras que dizem verdade. A licença poética da Bica. é declarada, nunca disfarçada. O leitor sabe; a casa faz questão.
Bica. · revista literária da casa Xaplin · quinta · 19h
Bica. · a coleçãoVo acervo aberto
V · a coleção

Todas as edições, de portão aberto

A casa não recolhe o que já publicou: a edição nova entra e a anterior fica aberta — para ler, reler e guardar.

Capa da Bica. · Silêncio
edição atual · julho 2026
Tomo 02 · Silêncio

Crônica, conto e poesia, com o sarau no fim — a literatura que ainda acredita na palavra.

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