
Janela · uma palavra · oito olhares · um sarau no fim
O Jazigo do Amadeu não é jazigo. É um sobrado em Botafogo que pertence a uma viúva chamada Dona Lurdes que nunca foi do Amadeu. O Amadeu morreu em 1987 e nem era marido dela. Era irmão. O nome ficou porque os bêbados gostaram de chamar o lugar assim, e bêbado a gente não convence de mudar nome. Toda quinta há trinta e seis anos abre as portas do sobrado às nove da noite e fecha quando o último decidir ir embora.
Quarta passada foi um caso. Era terça, na verdade, mas a gente não conta dias quando a noite é boa. O piano do salão grande estava destemperado fazia tempo. Eu tinha avisado Dona Lurdes três vezes. Ela tinha dito três vezes: "Almeida, esse piano sobreviveu ao Amadeu, à eleição de 1989, à enchente de 96 e ao filho mais velho do Ribeiro. Vai sobreviver à sua opinião também." Não discuti.
Sentei pra tocar lá pelas onze e meia. Comecei "Águas de Março" porque é sempre seguro, mas o lá menor saiu meio sustenido. Eu ri. O Marcão, que estava no balcão tomando o terceiro chopp, gritou "Almeida, tá feio." Eu disse: "Tô tocando, mané, vai reclamar pra Dona Lurdes." Continuei. Na hora do "é o resto do toco, é um pouco sozinho", o ré bemol veio em si bemol e a sala inteira entendeu que o piano tinha decidido improvisar.
O Ribeiro, sentado na ponta, levantou a cabeça. Era a primeira vez em meses que o Ribeiro levantava a cabeça por causa de música. O Ribeiro perdeu a mulher em fevereiro do ano passado e desde então só vai ao Jazigo pra não ficar em casa, mas não conversa, não bebe quase, só fica. Naquela noite ele levantou a cabeça e olhou pro piano com uma cara de quem encontrou um cachorro perdido que ele conhecia. Não disse nada. Mas depois daquele lá menor sustenido ele encostou em mim no fim da noite e disse: "Almeida, isso foi a coisa mais bonita que eu ouvi em quatorze meses. Continua errando."
Por isso, depois da última pessoa ir embora às quatro e dez, eu fiquei mais quarenta minutos no piano. Não tinha plateia. Tinha o silêncio do sobrado, o cheiro de cigarro velho que sai das paredes, o ronco do Marcão dormindo no sofá do canto, e Dona Lurdes na cozinha lavando copos. Eu fiquei tocando uma coisa que eu canto há doze anos sem nunca ter gravado. Chama "Quem Mora Aí". É uma canção sobre janela, sobre quem vê o mundo de dentro, sobre não ser o protagonista do próprio dia.
Boa quinta a quem chegou até aqui. A noite vai longe.
Janela é palavra perigosa. Parece simples e não é. Carrega séculos de literatura, da pequena janela da casa de Drummond em Itabira ao "olha aquela menina" de Adélia Prado, do conto de Clarice Lispector em que a mulher olha pra fora e vê o mesmo de sempre sem ser o mesmo, da escada caracol do Casarão Branco de Carlos Drummond em "Quadrilha". A janela está em todo lugar onde literatura olhou pra dentro e pra fora ao mesmo tempo.
Por isso é boa palavra pra Tomo 01. A Bica. nasce hoje. Precisa de palavra que possa ser oito ângulos diferentes. Janela cabe. Cada cronista, cada poeta, cada crítica desta edição parte de uma janela: a do quarto, a do bonde, a da página, a do encontro, a do tempo que esqueceu de passar.
Meu papel hoje é apresentar. Eu não escrevo mais que esta página. Os outros é que dizem. Eu só puxo o cordão da cortina e digo "olha aqui". Vou aparecer em outras duas ou três entradas da revista — pequenas, discretas, só pra te lembrar que tem alguém te conduzindo. Quando chegarmos na seção da charge eu sumo. Charge não precisa de mestre de cerimônias.
Aviso de método: a Bica. opera com licença poética declarada. Isso significa que cronistas, contistas, poetas e ensaístas desta casa têm permissão para misturar verdade vivida e verdade inventada, contanto que avisem o leitor. Quando a peça é factual, está marcada como ensaio ou crítica. Quando é ficção, ficção. Quando é "talvez aconteceu mas talvez não", crônica. O Almeida, que abriu a edição, contou um causo que talvez tenha acontecido todinho ou talvez nem um pouco. A Bica. aceita esse "talvez". O leitor sabe.
O que vem a seguir, na ordem em que vem: um conto da Adelaide sobre uma janela que existia no Recife. Uma crônica do André sobre uma janela carioca. Uma análise da Maíra sobre Clarice e o ato de olhar. Uma reflexão sobre relacionamentos e amor líquido com licença do Zygmunt Bauman. Quatro poemas curtos da Mesa. Uma crítica de cinema sobre Hitchcock e Anna Muylaert. Indicação de três exposições em cartaz. Algumas citações verificáveis sobre janelas. Uma charge ilustrada. As polaroides de quem escreveu. E, ao fim, a programação do sarau no Jazigo do Amadeu, quinta às nove.
Boa leitura. Vou estar por aqui.
O quarto que ela alugou em Olinda dava pra um pátio interno onde havia um pé de jaqueira. A jaqueira era velha. Tão velha que a senhoria, Dona Iracema, dizia que a casa toda tinha sido construída em volta dela. "A jaqueira veio primeiro, minha filha. A casa é vassala." Ela achou bonito o "vassala". Anotou no caderno na primeira noite que dormiu lá.
A janela era pequena, com uma cortina de chita azul desbotada. Quando ela acordava, a primeira coisa que via era o galho mais grosso da jaqueira atravessando o céu. Em julho, quando ela chegou, o galho estava nu. Em agosto, brotavam pontinhos verdes. Em setembro, as primeiras frutas começavam a aparecer, escondidas, como se tivessem vergonha de existir. Em outubro, eram dezenas, penduradas como sinos.
Ela tinha vindo a Olinda pra esquecer um homem. Não é a melhor razão pra ir a Olinda, mas era a única que ela tinha. O homem tinha ficado em São Paulo, com uma mulher mais bonita, num apartamento mais alto, com uma vista melhor — Sumaré, oito andares, viagem do olho até a Mooca. A vista dela em Olinda era um galho de jaqueira. Ela achava melhor.
No segundo mês, ela começou a falar com a jaqueira. Não em voz alta — em pensamento. Bom dia, jaqueira. A senhora dormiu bem? Hoje eu vou trabalhar até as cinco e depois vou pra orla. Volto antes de escurecer. Não se preocupe. Coisas que a gente diz pra alguém que está sempre lá e não vai a lugar nenhum.
Em novembro, no fim da segunda quinzena, Dona Iracema veio bater na porta do quarto. Era de manhã cedo. Dona Iracema raramente subia as escadas àquela hora. "Minha filha, vai chover muito hoje. Fecha a janela direitinho." Ela agradeceu, fechou a janela, voltou pra cama. A chuva começou no fim da tarde. Não foi muito. Mas durou três dias.
No terceiro dia, quando ela abriu a janela depois da chuva ter parado, viu que o galho mais grosso da jaqueira tinha caído. Não inteiro. Uma parte. A parte que vinha em diagonal e atravessava o céu da janela do quarto dela.
Ela sentou na cama com a cortina de chita azul pendurada do lado, olhou pro espaço onde antes havia o galho, e descobriu uma coisa nova. Sem o galho, a janela passou a dar pra outra coisa: uma faixa de telhado da casa vizinha, com musgo amarelo no canto, e mais ao fundo, uma laranja de céu que ela nunca tinha visto antes.
Naquela tarde, depois de avisar Dona Iracema sobre o galho, ela sentou de novo no caderno e escreveu: "A jaqueira me ensinou alguma coisa hoje. Não me lembro se foi sobre perda ou sobre paciência. Provavelmente foi sobre as duas." Depois fechou o caderno, pegou o celular, e mandou uma mensagem pro homem em São Paulo que era pra ter sido esquecido em julho.
Ele não respondeu naquele dia. Respondeu três semanas depois, dizendo que tinha terminado com a mulher mais bonita. Ela leu a mensagem, fechou o celular, abriu a janela. O céu estava no horário certo. A jaqueira ainda estava ali, menor, mas dando fruta no galho que sobrou. Ela achou bonito o céu, demorou um tempo na janela, depois respondeu ao homem em São Paulo: "Que pena pra você. Aqui está bom."
Não voltou a falar com ele. A jaqueira continuou dando jaca. Em fevereiro, Dona Iracema veio bater de novo, agora pra dizer que tinha caroço suficiente pra fazer mungunzá pro mês inteiro. Mungunzá com jaca. Quem comeu, comeu.

A janela do meu primeiro quarto e sala dava pra uma rua sem nome em Engenho Novo. Tinha nome, na verdade, mas era nome de político municipal de 1962 que ninguém lembrava, então a rua era "a rua do Aderbal" — Aderbal era um senhor que morava na esquina e tinha uma garagem onde consertava bicicletas. A rua não tinha pavimentação direita. Tinha asfalto velho do tempo do bonde de Engenho de Dentro, todo costurado de tapa-buracos do tamanho de pizza.
Eu morei lá entre os vinte e cinco e os vinte e oito anos. Era um quarto e sala de quarenta metros quadrados num prédio de cinco andares construído provavelmente nos anos sessenta, com aquele azulejo de fachada cor mostarda que envelhece bem por dentro e mal por fora. Trezentos e cinquenta reais por mês incluindo condomínio. Aluguel desses não existe mais. Era 2013. Foi minha primeira casa de adulto.
A janela ficava na parede oposta à porta. Dava pra rua do Aderbal e, mais ao fundo, pro muro de uma escola estadual chamada Joaquim Manoel de Macedo. Quando o vento batia no horário certo, eu ouvia o sino do recreio. Quatro toques curtos. Sempre às dez da manhã e às três da tarde. Aprendi a saber a hora sem olhar o relógio durante três anos da minha vida só por causa daquele sino.
O Engenho Novo não é Copacabana. Não tem mar. Não tem morro com cobertura instagramável. Tem rua igual, tem escola igual, tem cachorro vira-lata igual ao de todo lugar de classe média baixa no Brasil inteiro. A janela daquela casa não me ofereceu pôr-do-sol uma única vez em três anos. Quando o sol se punha, era atrás do prédio do outro lado da rua e eu via só uma laranjada chegando no canto direito do quadro. Cinco segundos depois, escurecia.
Mas eu amava aquela janela. Não pela vista. Pela rotina dela. De manhã eu acordava com o cheiro de café que vinha da padaria do Seu Mauro, três casas pra baixo. Às dez, o sino. Às onze, a Dona Anézia descia pra varrer a calçada da casa dela na frente do meu prédio — uma mulher de uns setenta anos, magrinha, sempre com um avental azul. Ela varria cantando, baixinho, sempre a mesma música, que eu nunca consegui identificar mas tinha cara de ser dos anos cinquenta. Às três, o sino. Às seis, voltavam os meninos da escola fazendo barulho. Às oito, o barulho parava e a rua entrava no modo noite — silêncio interrompido só pelo cachorro do prédio da esquina que latia toda vez que alguém passava com som de chinelo.
Eu trabalhava com tradução naquela época. Tradutor de texto técnico — manual de equipamento médico, basicamente. Trabalho monótono, mal pago, mas honesto. Ficava na frente do computador o dia inteiro. Da minha mesa, eu olhava pela janela. A vista não inspirava. Mas a rotina sim. Os ritmos da rua do Aderbal eram um metrônomo. Eu traduzia melhor de manhã do que à tarde. Eu sabia que era hora do almoço quando o cachorro da esquina começava a chorar porque ainda não tinha sido alimentado. Eu sabia que era hora de fechar o computador quando o último menino voltando da escola passava na frente do meu prédio.
Saí do Engenho Novo em 2016 pra morar na Tijuca, num quarto e sala maior, com janela que dava pra um terraço de prédio comercial vazio. A vista era melhor — dava pra ver céu, ver helicóptero passando, em dia bom dava pra ver até um pedaço do Cristo. Mas a janela da Tijuca nunca me deu rotina. Era uma janela bonita e muda. Eu olhava pra ela e ela não me dizia nada.
Hoje moro em Botafogo. Janela boa. Vista pro morro. Pôr-do-sol todo dia. Mas às vezes, quando estou trabalhando, ouço um sino na rua e levanto a cabeça achando que vai ser dez da manhã ou três da tarde. Não é. É algum estabelecimento comercial que tem campainha eletrônica.
A janela mais bonita que eu já tive foi a do Engenho Novo. Não pela vista. Pela vida que tinha do lado de fora dela. Aprendo isso de novo todo ano: a paisagem importa menos do que o cotidiano que acontece na frente dela. Vista bonita sem cotidiano é cartão postal — bom pra olhar uma vez, e nunca mais.

Em "Amor", de Laços de Família (1960), Ana vê um cego mascando chicletes na esquina do trânsito. A cena dura segundos. Ana volta pra casa e a casa é outra. Em "A imitação da rosa", do mesmo livro, Laura olha as rosas em cima da mesa e a perfeição daquelas rosas a empurra de volta pra clínica. Em "A menor mulher do mundo", o explorador olha pra Likoualá e a Likoualá olha pra ele de volta, e a vergonha está toda no olhar dela e não no dele. Em A Hora da Estrela (1977), Macabéa olha pelo vidro da loja e o que vê é a sua própria distância do mundo.
Clarice escreveu janelas. Mas as janelas dela não são paisagem — são espelhos invertidos. Quando uma personagem dela olha pra fora, o que aparece é o que ela é por dentro, e isso geralmente é desconforto.
É um truque literário antigo, na verdade. Está em Proust — a famosa primeira parte de "À sombra das raparigas em flor" tem janela como portal de tempo. Está em Virginia Woolf — em Mrs Dalloway, Septimus na janela é o eixo dramático da segunda metade do romance. Está em Drummond — "a vida do meu vizinho era mais que a minha" é poema sobre olhar pela janela e ver a vida do outro melhor do que a sua. Clarice herda essa tradição e faz algo distinto: ela não usa a janela como portal pro outro. Usa como portal pro mesmo.
Em "Amor", quando Ana vê o cego mascando chicletes, ela não tem epifania sobre a condição do cego. Ela tem epifania sobre a própria normalidade — sobre o quanto a vida burguesa cotidiana dela é uma construção arbitrária que pode ruir a qualquer instante. O cego não é o que ela vê. É o que a fez ver. A janela do bonde é o dispositivo, não o objeto.
Há uma cena em A Paixão Segundo G.H. (1964) que talvez seja a mais radical sobre janela na literatura brasileira. G.H. entra no quarto vazio da empregada e descobre, na parede, um desenho de carvão — uma mulher, um homem e um cachorro. A descoberta desse desenho desencadeia todo o romance. Nesse caso, a "janela" é figurada: é o desenho que vira janela pra um outro mundo, o mundo da empregada, o mundo de quem servia aquela casa enquanto G.H. nem sabia que aquele quarto existia. Clarice está usando aqui janela como metáfora completa: tudo o que vemos é janela pra algo que não vimos antes.
O que Clarice faz com janelas vale ser estudado por quem escreve hoje. Estamos numa época em que a literatura corre risco de virar selfie literário — "eu sinto, eu vivo, eu olho pra mim". Clarice mostra o caminho oposto: olhar pra fora pra reencontrar o de dentro. Não é introspecção. É circuito. O olho sai e volta carregando algo que não era dele.
Voltando à Bica. Edição 01 — esta seção tem janela como palavra-âncora. Outros autores nesta edição usam a janela como real ou como metáfora. Mas é importante saber que existe uma genealogia. Clarice é uma das maiores construtoras dessa genealogia em língua portuguesa. Quem quiser escrever janela bem, leia Clarice. Quem quiser viver janela bem, olhe pela sua e tente ver o que está atrás de você, não o que está na frente.
Janela Indiscreta (Rear Window, 1954, dir. Alfred Hitchcock). É talvez o filme mais autoconsciente já feito sobre janelas. Jeff (James Stewart), fotógrafo, está com a perna engessada e passa o filme inteiro no apartamento dele em Manhattan. Por puro tédio, começa a observar os vizinhos pela janela. Vê uma jovem solitária jantando sozinha. Vê um músico compondo. Vê um casal que dorme na varanda por causa do calor. Vê um homem que pode ter matado a mulher.
Hitchcock construiu o filme inteiro sobre o ato de olhar. Jeff é o espectador no escuro. Os apartamentos do outro lado são telas. O filme é sobre cinema como atividade: o que significa olhar a vida dos outros sem participar dela. Quando Jeff começa a investigar o assassinato, ele não pode sair. Pode só olhar mais. Lisa, a namorada, vai investigar por ele. Ela atravessa pra dentro da tela. Jeff fica de fora, com o binóculo.
Aqui está a ironia central de Hitchcock: o filme acusa o próprio espectador. Você que está vendo Janela Indiscreta é Jeff. Você quer que ele continue olhando. Você quer saber se o cara matou a mulher. Você é cúmplice da intrusão. Hitchcock põe o dedo no espelho.
Que Horas Ela Volta? (2015, dir. Anna Muylaert, Brasil). Pulo de sessenta anos e de continente. Val (Regina Casé) é empregada doméstica numa casa de classe média alta paulistana, há treze anos. Sua filha Jéssica chega de Pernambuco pra fazer vestibular. O filme se desenvolve em torno de uma série de quebras de protocolo: Jéssica entra na piscina, dorme na suíte de hóspedes, fala de igual pra igual com os patrões. A casa inteira de Val (e do filme) é construída em volta de regras invisíveis sobre quem pode atravessar quais portas. As janelas são limites de classe.
Há uma cena curta em que Val olha da janela da cozinha — onde ela trabalha — pra piscina onde sua filha está. Não é cena dramática. É cena de janela. Val olha. Não diz nada. Não há trilha sonora. Anna Muylaert deixa a cena durar. O que está acontecendo nessa cena é o que Hitchcock fazia: a janela como dispositivo de revelação. Mas Anna Muylaert faz com brasilidade — não é detetive olhando assassinato, é mãe olhando filha numa piscina que ela mesma nunca pôde usar.
Quem quiser ver dois filmes em sequência: Janela Indiscreta no sábado à tarde, com cerveja, sozinho. Que Horas Ela Volta? no domingo à tarde, sozinho também ou com quem te conhece. Os dois filmes vão te dar a mesma coisa em chaves diferentes: a janela é compromisso. Quem olha decide o que faz com o que viu.
Em Amor Líquido (2003), Zygmunt Bauman escreveu uma frase que virou clichê e perdeu o sentido por excesso de citação: vivemos em "uma modernidade líquida". A frase é genérica demais pra significar muito. Mas o livro é específico. Bauman estava descrevendo um tipo concreto de problema: a dificuldade contemporânea de estabelecer vínculos que durem.
A tese central de Amor Líquido é que as relações humanas contemporâneas se organizam segundo o modelo do consumo de bens. Você seleciona, experimenta, descarta. As pessoas viraram catálogo. Apps de relacionamento, anos depois, comprovaram materialmente o que Bauman tinha intuído antes da existência deles. Mas o problema é anterior aos apps. Os apps só explicitaram.
O que isso tem a ver com janelas? Aqui entra a Bica. Edição 01 e o tema. Janela, na vida humana cotidiana, é um dispositivo. Você olha pra fora porque tem alguém olhando junto, ou porque você está esperando alguém aparecer, ou porque o ato de olhar pela janela é, em si mesmo, um modo de habitar a casa. A janela faz sentido em relação. Sozinho, você não olha pela janela — você olha pra parede.
O sintoma contemporâneo é o seguinte: pessoas em apartamentos modernistas vidrados, com vistas espetaculares pra cidade, sentindo solidão profunda. A vista é boa. A vida é vista. Mas não há ninguém pra dividir o que se vê. A janela contemporânea de classe média urbana brasileira é frequentemente uma janela que não dá pra ninguém. Você abre, olha, e nada do que você vê tem alguém esperando que você comente.
Bauman chamou isso de "individualização organizada". Não é solidão acidental. É solidão produzida. Estruturas econômicas (trabalho remoto, jornada elástica), estruturas tecnológicas (apps, redes sociais que substituem encontro), estruturas urbanísticas (condomínios fechados, prédios sem vizinhança) — tudo conspira pra individualizar o sujeito. O sujeito individualizado é mais consumidor. Mais flexível. Mais barato pro sistema. O custo é a desconexão.
O que fazer? Bauman não tinha resposta operacional. Era sociólogo, não terapeuta. Christian Dunker, psicanalista brasileiro, tem proposto algo nas últimas duas décadas que vale citar: a "reconstrução de comunidade afetiva" como tarefa do nosso tempo. Significa, em prática, recusar parcialmente a individualização. Significa cultivar vínculos que dão trabalho, que demoram, que não respondem ao critério da utilidade.
Em outras palavras: significa olhar pela janela com alguém ao lado. Significa convidar a vizinha pra café. Significa ir à casa do irmão sem precisar de agenda. Significa demorar nas conversas, não otimizar todas as relações. Significa aceitar que algumas pessoas vão estar na sua vida durante anos sem dar "retorno". Significa, em última análise, recusar o modelo de consumo aplicado às relações humanas.
É difícil. Tudo no sistema empurra na direção contrária. Mas, repetindo Bauman: o líquido não é destino. É escolha. Cada pessoa escolhe, todo dia, se vai olhar pela janela sozinha ou se vai chamar alguém pra olhar junto. Janela não muda. O que muda é se tem alguém ao lado.
De cada janela me espia uma fila silenciosa.
Pela janela vi as nuvens passarem, levando o tempo com elas.
Olhar a paisagem é uma forma de tomar partido.
O amor sólido era para a vida. O amor líquido é até o próximo amanhecer.
A janela é o ponto onde a literatura admite que tem que parar de descrever e começar a olhar.
Você só pode ver o que vê de onde você está.
não inventamos frases. as que estão aqui podem ser verificadas em obra pública.

A grande retrospectiva sobre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, em cartaz no MASP traz peças de Ouro Preto, Mariana e Congonhas que raramente saíram de Minas. O foco curatorial é a relação entre escultura sacra e biografia trágica do artista — ele teve hanseníase nos últimos anos. Comove sem ser piegas. O MASP, há décadas, sabe equilibrar o monumental e o íntimo. Esta exposição é exemplo disso.
Mira Schendel é, na opinião desta seção, a maior artista brasileira do século XX que ainda não recebeu o reconhecimento popular que merece. A exposição da Pinacoteca traz suas Monotipias — séries em papel arroz com escritura visual — em volume raro de vê-las juntas. Vai exigir tempo. Reserve uma manhã.
Para quem está na Europa: o Rijksmuseum reúne, num ciclo curatorial dedicado, as obras de Vermeer em que a janela é o eixo dramático silencioso. Mulher Lendo Carta à Janela, A Leiteira, A Carta de Amor. Vermeer compôs janelas como ninguém. O ciclo é curado pra ler exatamente essa especificidade. Atravessa nossa edição inteira sobre janelas.

"De que adianta abrir a janela se o tempo lá fora é o mesmo que aqui dentro?"
chargista da Bica. · nome em definição








Quatro poetas da Mesa Permanente — Mariana Vidal, Eliseu Bento, Sara Inhauma, Carlos Vasconcelos — assinaram a seção 08 sem polaroide nesta edição. Aparecerão nas próximas.
A Bica. Tomo 01 chegou ao fim. Foi uma edição de estreia, e estreias são particulares: ninguém ainda sabe o que esperar, então tudo é descoberta. A próxima vai ser diferente — porque a próxima vai ser comparada a esta, e a comparação muda o jogo. É assim que se constrói uma revista. Tomo a tomo, leitura a leitura, sarau a sarau.
Tema da próxima edição já fechado: "silêncio". Vai sair quinta-feira que vem, dia 4 de junho, às sete da noite. Apresentadora da próxima edição: Maíra Calazans. Roberta Aldemar passa a curadoria pra ela. Almeida segue abrindo, como sempre.
Quem quiser conversar sobre o que leu hoje, escreve em bica@xaplin.com.br. As cartas selecionadas entram numa seção fixa que estreia no Tomo 05: "Quem leu, leu". Lá publicamos as melhores cartas, sem editar — a não ser pra cortar caso seja muito longa.
E quem estiver no Rio na quinta à noite — vai ter sarau no Jazigo do Amadeu. Programa na próxima página. Boa noite.
Tema da noite: Janela · em diálogo com a Bica. Tomo 01
No piano: Almeida (chansonnier)
Convidada da noite: Adelaide Fontes leitura do conto desta edição
Microfone aberto: 22h30 às 00h00
Endereço: Sobrado da Dona Lurdes · rua não publicada · ouve quem precisa saber
Senha: a senha é "janela" · diga ao zelador na entrada
Couvert: 25 reais (cobre cerveja artesanal · cachaça de Salinas · uns quitutes)
O Jazigo do Amadeu não está no Google Maps. Quem precisa saber, sabe. Quem não sabe, pergunta a quem sabe. A regra da casa é não fechar nunca. Há mais de três décadas opera assim. Não há plano de virar comercial. Não há plano de aceitar patrocínio. Não há plano de gravar nada. O sarau é o sarau. Aconteceu, aconteceu.
Próximas quintas anunciadas:
· Quinta 4 jun · Silêncio · com Maíra Calazans
· Quinta 11 jun · O Recife dos anos 80 · com Adelaide Fontes e Adelaide Fontes-pai (visita)
· Quinta 18 jun · Carta para quem não responde · noite especial de cartas lidas
· Quinta 25 jun · Pessoa, Drummond, Cabral · três poetas e uma noite só
Até quinta. Boa Bica.