Vitrine mostra tudo, para todos, para ninguém. Um bilhete faz o contrário: escolhe uma pessoa, atravessa a mesa por baixo, chega dobrado e ainda quente da mão de quem escreveu. A À Meia-Luz é uma revista que não se pendura em vitrine — se passa adiante. O que ela mostra é a parte; o todo, quem imagina é o leitor. E é aí que a coisa acontece.
O desejo, nestas páginas, mora no que não se diz. A pausa vale mais que a frase; a soleira, mais que o quarto; a pergunta, mais que a resposta. Sexo, aqui, é tempo: o explícito, quando vem, vem depois da história — porque antes da história ele não significa nada. Lê-se devagar, como quem não quer acordar quem dorme.
E o corpo, nestas páginas, também ri. O desejo é tratado como coisa séria — e coisa séria sabe sorrir no escuro. Prazer é cultura, sexualidade é saúde, e o silêncio nunca curou ninguém: a revista existe para que as coisas ditas em voz baixa tenham, enfim, onde morar.
Sai ao anoitecer de quinta-feira, de quinze em quinze dias, às dezoito horas — para ser lida à meia-luz literal. Quem chegou já fez parte.
Cada edição tem uma titular: a artista que assina a capa, o sumário, a contracapa e a série longa de dez páginas — e que tem direito de veto sobre qualquer página do número que assina. A mão que comanda muda a cada edição, e a revista muda de temperatura com ela: a geometria seca de uma, a ternura da outra, a escultura noturna da terceira, o calor de terra da quarta. A contracapa responde à capa; nada abre sem fechar.
O miolo obedece a uma liturgia: um ensaio fotográfico de oito páginas; dois poemas escritos em resposta a ele; a série da titular; um conto com quatro ilustrações; uma crônica do prazer; um consultório de papel com três perguntas que nunca vêm do mesmo lugar — em cada edição, gêneros e situações diferentes, regra operada, não anunciada. E os canais por onde o leitor entra: Segredos do Ofício, Queime Depois de Ler, Falei, Estou Leve, Pequenas Cenas. Tudo chega sem nome — e assim fica.
Toda modelo fotografada é maior de idade com verificação documental, consente por escrito e tem direito de retirada por sete dias após a publicação — impresso no expediente, não guardado em gaveta. A fotógrafa entrevista cada uma antes do ensaio. Modelo, em página publicada, nunca olha para a câmera.
Toda ilustração sai da mão de quem assina; as headlines manuscritas são manuscritas de fato, e as legendas, escritas à caneta. Cada seção abre com um ornamento a nanquim — uma chave, uma cortina, uma fechadura, uma mão — e nenhum texto termina cru: no fim de cada um, uma marca tipográfica fecha a porta devagar. Toda autoria é creditada: modelo, ilustradora, fotógrafa, poeta, todas no expediente. E a revista sai quando chega ao ponto — nunca antes.
Aurora Falcãopranchas · a esperaCaneta bic e nanquim sobre papel envelhecido a chá; desenha a espera. Em toda prancha, um terceiro elemento assiste à cena — uma janela, um gato, um copo, um espelho. Sua condição ao entrar: ninguém edita o traço. "Erotismo é o desenho de uma cena onde duas pessoas estão prestes a aprender uma coisa que ninguém ensina."
Marta Galvãocor · a terraGuache e bastão de óleo sobre papelão kraft lixado à mão, seis cromos de terra, página sempre cheia. Testa cada cor contra o sol do Mucuripe: a cor que não aguenta o sol de lá não aguenta a vida. Em toda composição, um azulejo português quebrado, escondido.
Bia Páduafotografia · a luzLuz dura única, filme preto e branco, nenhum retoque. Cinco fotografias de teste antes de cada ensaio — sempre cinco — e, em cada ensaio publicado, exatamente uma foto com a sombra da própria câmera. "A pele é o último lugar onde a pessoa tenta esconder. Eu fotografo essa última tentativa."
Beto Calazanspergunta & resposta"Não respondo pergunta como se eu fosse oráculo. Respondo como se eu fosse vizinho que entende um pouco mais." Escreve cada resposta duas vezes e dorme entre elas: a primeira é a que o analista quer dar; a segunda, a que o leitor precisa receber.
Mariana Salescrônica do prazerAbre com ação concreta, fecha abrindo. Sua condição: a vida dela pode estar nas crônicas, mas quem decide o que sai é ela. "Aprendi sobre prazer não com os melhores amantes. Aprendi com os mais pacientes."
Décio Velosodireção editorialGuardou cinco anos de cartas anônimas antes de publicar a primeira — a edição de estreia abriu o cofre. Lê tudo o que chega; decide devagar.
Cida Werneckpoeta convidada · ed. 001O posto muda a cada número: uma poeta, dois poemas, escritos em resposta ao ensaio fotográfico. "Sou o lugar onde a régua se rende."A Edição 001 está no ar, inteira: Geometria do Encontro, com Lis Brandão como titular. Um ensaio fotográfico, dois poemas em resposta, uma série de dez páginas feita de uma única linha, um conto de domingo, três perguntas respondidas sem oráculo — e as primeiras confissões que saíram do cofre.
Promessa impressa é dívida, e a revista paga as que imprime: a linha da Lis pausou na contracapa — "a linha não termina, só pausa" — voltou na Edição 002, A Espera, já no ar; o Acervo Antigo seguiu com o próximo fragmento. As duas edições estão logo abaixo. A lâmpada, essa, não se apaga.
A casa não recolhe o que já publicou: a edição nova entra e a anterior fica aberta — para ler, reler e guardar.
Desejo e intimidade tratados com seriedade adulta — a revista que acende a meia-luz. 18+.
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