




















RiscoPrometi uma data e não cumpri.
Está impresso na contracapa da primeira edição, com todas as letras: próxima edição, 04 de junho; titular, Bia Pádua; tema, Anatomia. Não foi o que aconteceu. A revista que você tem na mão sai depois de junho, é dirigida por Aurora Falcão, e se chama A Espera. Eu podia ter apagado a promessa antiga do meu lado e fingido que ela nunca existiu — ninguém confere contracapa de revista velha. Escolhi não apagar. Uma casa que publica confissão anônima não pode ser a única a não confessar nada.
Então confesso: atrasei. E confesso o motivo, que é menos nobre e mais humano do que um editorial costuma admitir. A Anatomia da Bia não estava pronta para ser a segunda coisa que esta revista diria ao mundo. É um trabalho de fotografia que exige a casa já de pé, e a casa tinha um mês de vida. Adiar a Bia para a terceira edição não foi recuar: foi dar a ela o chão que o trabalho pede. Ela assina a 003, com Anatomia, e desta vez a data eu não imprimo — porque aprendi, à minha custa, que data em revista de erotismo é como hora marcada em encontro às cegas: melhor combinar por baixo da mesa e chegar quando chegar.
No lugar da anatomia, a espera. E não foi consolo de última hora. Foi a Aurora que puxou o fio, no dia em que me disse, ao telefone, uma frase que eu anotei porque soube na hora que ela abria uma edição: “o desejo é analfabeto no começo — tem pressa, soletra, pula linha; a espera é a alfabetização do desejo.” Uma edição que se atrasa dirigida por quem pensa a demora como aprendizado. Há coincidências que a gente não merece.
Cinco anos recebendo cartas me ensinaram uma coisa sobre a véspera que eu não sabia quando comecei. A carta mais frequente que chega a esta casa não é sobre o que aconteceu. É sobre o que quase. A quase-traição, o quase-pedido, a mão que quase, a noite que ficou marcada e não veio. As pessoas guardam com mais cuidado o que não fizeram do que o que fizeram. O feito a gente conta em jantar; o quase, só numa carta sem nome, cinco anos depois, para um editor que promete não guardar o IP.
Esta edição decora esse cômodo. A Bia fotografou a espera no corpo antes que o corpo faça qualquer coisa. A Lavínia escreveu um conto que termina no minuto anterior ao encontro e recusa, com uma teimosia que eu aplaudi, contar o encontro. A Mariana defende, com a cara mais lavada do mundo, que a véspera é melhor que a festa. O Pedro escreve sobre o homem que não sabe esperar. A Renata e o Beto respondem a três pessoas que estão, cada uma do seu jeito, paradas na soleira. E a Aurora desenha uma promessa inteira usando só os objetos que a viram acontecer.
Uma palavra sobre a troca de comando. A Lis dirigiu a primeira edição e deixou, na contracapa, uma linha que não terminava — só pausa, volta na Edição 002. A linha voltou: está nos cartões-postais, entra por baixo da página e entrega o traço à pena da Aurora. Não é passagem de bastão de posse. É de fio. Uma desenha em linha contínua o que não se mostra; a outra desenha, em bico de pena, o que ainda não aconteceu.
O contrato com você segue igual, na página 46, sem uma vírgula mudada. Você manda, a gente edita para publicar, a gente não pede seu nome, não pede seu email, não guarda seu IP. Se publicarmos e você se reconhecer, ficou entre nós. É o único compromisso desta casa que eu não atraso nunca.
Boa véspera. E, desta vez, sem prazo.
Antes de toda prancha, eu escrevo a lápis, no canto de baixo do papel, uma palavra. Não é o título. Não é a assinatura. É a palavra que está prometida àquela página. Desenho em cima dela a manhã inteira — trabalho das seis às onze, na varanda, porque a luz de Olinda nesse horário ainda não decidiu ser sol — e, quando o desenho termina, eu apago. Ninguém nunca leu nenhuma. Já me pediram para deixar uma, só uma, de lembrança. Não deixo. Se eu contasse a palavra, o desenho ficava menor.
Conto isso agora porque me deram uma revista inteira para prometer.
A Lis me entregou a linha no fim da edição passada — quem leu, lembra: a linha não termina, só pausa. Pausou na minha mesa. A mesa é de luz, foi da minha mãe, que era costureira e lia as revistinhas do Zéfiro escondida na cozinha, certa de que ninguém sabia. Eu sabia. Foi o primeiro segredo que guardei na vida. E guardar segredo, descobri muito depois, é o primeiro ofício de quem desenha desejo: a gente aprende que o que não se mostra é o que sustenta o que se mostra.
Esta edição é sobre a espera. Eu queria escrever “sobre a arte da espera”, mas seria mentira de moldura: espera não é arte, é matéria-prima. Todo papel que eu uso dorme sete dias num banho de chá preto antes de receber a primeira linha. Sete. Não existe atalho: papel apressado ondula, mancha, mente. A primeira espera de qualquer desenho meu acontece antes do desenho — e é por isso que eu acredito nela como quem acredita em fermento, em maré, em fruta no pé.
Fui casada vinte e um anos com um professor de Filosofia. Ele morreu numa terça-feira, no escritório, segurando um livro que eu nunca li. Faz onze anos. Não vou fazer desta página um necrológio — ele detestaria, e esta revista não é lugar de luto: é lugar de véspera. Digo só o que interessa a você, que está com a revista na mão: eu sei o que é esperar por alguém que chega, e sei o que é esperar por alguém que não chega mais. As duas esperas moram na mesma mão. É com essa mão que eu desenho.
Trabalhei doze anos ilustrando cartilha escolar. Aprendi a desenhar para quem ainda não sabe ler — o melhor estágio que uma erotista pode ter, porque o desejo também é analfabeto no começo: tem pressa, soletra, pula linha. A espera é a alfabetização do desejo. Ninguém nasce sabendo demorar; demorar se aprende como se aprende a letra cursiva — copiando devagar uma curva que a princípio não faz sentido nenhum. Erotismo, para mim, é o desenho de uma cena onde duas pessoas estão prestes a aprender uma coisa que ninguém ensina. Repare no prestes. É ali que eu moro.
Por isso tudo aqui dentro chega um minuto antes. O ensaio da Bia se chama Véspera e fotografa a espera no corpo. O conto da Lavínia termina no minuto exato em que ia começar. As minhas dez pranchas contam uma promessa usando apenas os objetos que a testemunharam. Porque em toda cena que desenho existe uma terceira presença — uma janela, um gato, um copo. Alguém precisa ver a espera para que ela valha. Nesta edição, a testemunha é você.
No canto desta página também escrevi uma palavra a lápis. Apaguei antes de entregar, como sempre.
Mas vou te dizer uma coisa que nunca disse a ninguém: desta vez, quase deixei.
Oito fotografias em preto-e-branco, página inteira cada. A espera antes de qualquer coisa acontecer — o corpo à véspera de si mesmo. Uma fonte de luz, dura, direcional. Sem softbox, sem retoque, sem rosto. O que a pele faz quando ainda não fez nada.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.A casa toda sabe antes de mim.
A colher esfria dentro do café,
a cortina prende meu pulso como quem
segura uma palavra que ainda não é.
Não é que eu espere. É que o corpo
adiantou o relógio e não me disse.
Fico aqui, à véspera de mim,
véspera que é o mais longe que se vive
sem sair do lugar.
Você demora, e eu descubro
que a demora tem um cheiro:
é o do lençol passado ontem
que amanhã já não terá.
Não apresse. Do jeito que está
— você quase, eu quase, a porta
encostada, o café pela metade —
já é tudo o que eu queria
antes de querer o resto.
Dez pranchas. Uma promessa entre duas pessoas contada só pelos objetos que a viram — a carta na gaveta, o portão, o telefone que não toca. Ninguém aparece. Em cada prancha, um terceiro elemento testemunha. A testemunha é você.
A. F.
A. F.
A. F.
A. F.
A. F.
A. F.
A. F.
A. F.
A. F.
A. F.A Helô me chamou para um café às quatro da tarde de uma quarta, e passou das seis sem que a gente tomasse o café. Ficamos na porta da padaria São José, cada uma com a mão no batente, sem entrar. Eu conheço a Helô há dois anos e sei exatamente como é o resto da tarde quando ela me chama às quatro. O que eu não sabia, até aquela quarta, é que a melhor parte já estava acontecendo ali, com a gente de pé, a padaria cheirando a pão na chapa às nossas costas, e nenhuma das duas com pressa de que a tarde fizesse o que a tarde ia fazer.
Demorei quarenta e um anos para entender uma coisa que agora me parece óbvia demais para ter custado tanto: eu gosto mais da véspera do que da festa. Não é medo, não é frieza. É que a véspera é o único cômodo da casa onde tudo ainda cabe. Depois que a porta do quarto se fecha, a tarde já escolheu o que vai ser. Antes, na soleira, com a mão no batente, ela ainda pode ser qualquer coisa — e ser qualquer coisa é, para mim, mais quente do que ser uma coisa só, por melhor que essa coisa seja.
Aprendi isso com os amantes pacientes, não com os bons. Os bons chegam e resolvem. Fazem tudo direito, no lugar certo, na hora certa, e a gente sai de lá satisfeita como se sai de um bom restaurante: alimentada, e já esquecendo. Os pacientes são outra espécie. O paciente é aquele que, quando você diz “vem”, responde “já vou” e não vai. Não por jogo — por saber. Ele sabe que o “já vou” dele, dito daquele jeito, com a voz um tom abaixo, vale a noite inteira.
Meu pai, que era jornalista, tinha uma teoria sobre café. Dizia que o melhor do café não é o café: é o momento em que a xícara está cheia na sua frente e você ainda não bebeu. A xícara cheia é uma promessa que se cumpre pela metade, disse ele uma vez, porque metade da promessa era só estar ali fumegando. Eu tinha quinze anos e achei bobagem de homem que fala demais. Hoje escrevo uma coluna inteira sobre café que ninguém bebe, e devo a ele a metade das minhas melhores tardes.
Há uma injustiça na forma como a gente conta a vida amorosa. Conta-se o que aconteceu. Os verbos são todos de acontecimento. Mas se eu somar as horas, a maior parte da minha vida erótica foi passada esperando. Se essas horas não contam como vida erótica, então eu vivi muito menos do que penso. E eu me recuso a ter vivido menos. Reivindico a véspera. Reivindico as duas horas na porta da padaria como parte legítima daquela quarta-feira — talvez a melhor parte, e não o prefácio dela.
A Helô, àquela altura, tinha soltado o batente e segurado a minha mão. A gente ainda estava na porta. Um senhor saiu da padaria com um pão embaixo do braço e pediu licença, e a gente riu, e continuou sem entrar. Foi quando eu pensei: é agora. Não daqui a pouco, na casa dela, com a cortina fechada. É agora, com a luz de fim de tarde batendo torto na vitrine, o pão cheirando, a mão dela na minha e a tarde ainda inteira à nossa frente, sem ter escolhido nada.
A gente acabou não tomando o café. Também acabou não fazendo o que a tarde prometia — ela recebeu uma ligação, teve que ir, a quarta virou outra coisa. Anos atrás eu teria ficado frustrada. Naquela quarta, eu voltei para casa leve. Porque a melhor parte tinha acontecido. A gente já tinha estado no melhor cômodo da casa, o tempo todo, sem nunca sair da porta.
M. G.Amiga, antes de qualquer coisa: a espera que deixa pequena não é a sua culpa, e também não é, ainda, um diagnóstico do casamento. Você descreveu uma coisa muito precisa — não é briga, não é outra pessoa, é uma parada. Parada tem muitos nomes no corpo de um homem de sessenta e um anos, e quase nenhum deles é “ele não te quer mais”: circulação, remédio de pressão, sono ruim, uma tristeza que ele não nomeia. Nos últimos meses, vocês dois pararam de se tocar sem que o toque tivesse que virar sexo? Porque às vezes o que seca não é o desejo. É a estrada até ele.
Eu te escuto antes de te responder, e o que eu escuto é a palavra “esperando”. Você espera todas as noites que hoje seja diferente — e a espera, do jeito que você descreve, virou um posto de vigia. Tem uma diferença enorme entre esperar por alguém e vigiar alguém. Meu palpite de vizinho que entende um pouco mais é que seu marido sente essa vigília todas as noites, mesmo sem uma palavra, e que ela o assusta mais do que qualquer cobrança. O homem que sente que está sendo esperado como uma prova a cada noite, congela — não porque não te quer, porque tem medo de decepcionar a espera. Será que dava, uma noite dessas, para você não esperar? Não como desistência: como alívio. Fica?
A sua carta tem uma frase que eu queria que você lesse de novo com carinho: “não sei se espero ou se sigo em frente”. Você montou isso como se fossem duas estradas opostas. Não são. Tem uma forma de esperar que é seguir em frente — continuar a sua vida, o seu corpo, o seu prazer, ao lado dele, sem congelar tudo à espera do dia em que ele voltar a te querer do jeito antigo. O que adoece quem espera assim não é a espera. É a suspensão. Oito meses de você em pausa é muito tempo de um homem de quarenta e um anos deixando de viver o próprio corpo. Você pode amar e não suspender. Dá.
E eu acrescento uma coisa técnica, amigo, porque ela alivia: depois de um susto de saúde, o corpo de um homem muitas vezes reaprende o desejo por um caminho diferente do que usava antes. O que funcionava — a pressa, a iniciativa, um roteiro conhecido — pode ter deixado de funcionar não por falta de amor, mas porque o corpo ficou com medo do próprio susto. Reaprender é possível, e quase sempre passa por um começo mais devagar, mais tátil. Vocês dois topariam recomeçar do começo, como se fosse a primeira vez, sem a obrigação de chegar a lugar nenhum?
Amiga, sua pergunta é uma das mais bonitas que já chegou a esta mesa. Você tem, hoje, alguém que te deseja exatamente como você está. Isso não é o prêmio de consolação da espera. É o acontecimento. O corpo futuro que você espera é uma ideia; a mão que te toca hoje é um fato. O desejo do outro não está esperando você virar quem você é — ele já reconheceu quem você é, agora. Habitar o corpo de agora talvez comece por deixar que o prazer que essa pessoa te dá seja recebido pela mulher que você já é, e não guardado numa poupança para a mulher que você acha que vai ser. Prazer não rende juros.
Eu escuto, na sua carta, uma espera que não é a mesma das outras duas desta página. As leitoras acima esperam o desejo de outra pessoa. Você espera a si mesma. E aí mora uma armadilha gentil: a gente pode passar a vida inteira esperando alcançar quem a gente é, como se fosse um ponto de chegada com endereço fixo. Não é. A pessoa que te deseja hoje não está namorando uma promessa. Está namorando você. Te deixo com uma pergunta, não com um conselho: e se quem você espera ser já estivesse aqui, esperando você parar de esperar para poder viver?
Duas pessoas se escrevem há um ano e marcam, enfim, o primeiro encontro. Num cais, numa quarta-feira, de manhã. O conto acaba um minuto antes.
A. F.Ela chegou ao cais com quarenta minutos de antecedência, o que era, ela sabia, uma forma de mentir para si mesma. Dissera à irmã que ia “resolver umas coisas no centro e talvez passar no cais”, como se o cais fosse um talvez, como se ela não tivesse escolhido o vestido na noite anterior e desistido dele e escolhido outro e voltado ao primeiro. O primeiro era de linho cru, cor de areia molhada, e amarrotava. Ela gostava que amarrotasse. Um vestido que amarrota é um vestido que confessa que o corpo esteve sentado, esperando.
O nome dele, nas cartas, era Tomás. Um ano de cartas. Começara por engano — uma carta dela, endereçada a um antigo professor, fora parar na caixa dele por um erro de numeração do prédio, e ele, em vez de devolver, respondera. E ela, em vez de se ofender, respondera de volta. Havia nisso, ela pensava agora, olhando a baía, uma honestidade que nenhum aplicativo teria permitido: eles tinham começado por um endereço errado, e passado um ano acertando.
O mar estava parado da cor do estanho. Um barco de travessia, ainda longe, cruzava a baía devagar, e as gaivotas faziam o barulho de sempre, o barulho que, de longe, num cais de manhã, parece a trilha de uma coisa que vai acontecer. Ela sentou-se num banco de pedra, tirou do bolso a última carta dele e leu de novo, embora soubesse de cor. Quarta, no cais velho, às nove. Vou levar as suas cartas. Todas. Não para te devolver. Para que a gente decida, juntos e na mesma manhã, o que faz com elas. Faltavam trinta e cinco minutos.
O que ela não diria a ninguém era o medo específico que a mantivera acordada. Não era o medo de que ele não viesse, ou fosse feio, ou a voz não combinasse com a letra. O medo que restava era outro, mais fino: o medo de que o encontro fosse bom. Porque um ano de cartas construíra entre eles uma casa de palavras onde ela morava confortável, e essa casa não tinha corpo, não tinha hálito de manhã. Enquanto foram só cartas, ele fora perfeito porque fora incompleto. Agora ele ia chegar inteiro, e o inteiro sempre decepciona um pouco a parte.
Faltavam vinte minutos. Um casal de idosos passou de mãos dadas, sem pressa, e ela os observou com uma inveja que a surpreendeu. Eles já tinham feito a travessia toda. Já sabiam como o outro mastiga. Ela pensou que talvez a única coragem que importasse fosse a de trocar a véspera perfeita por uma manhã imperfeita, e continuar. Continuar era a palavra que faltava nas cartas. Cartas não continuam; elas se respondem. Um corpo continua.
Ela abriu a bolsa e conferiu, pela terceira vez, o maço de cartas dele, atado com barbante. Passou o polegar na beira do maço, sentindo o corte do papel, e teve uma ideia que não estava no plano — e se a decisão sobre as cartas fosse a única coisa que importava daquela manhã? Sentia só que qualquer plano fixo era uma forma de não estar ali, e ela queria estar ali. Guardou as cartas.
Nove menos dez. O barco da travessia aproximava-se do cais agora, grande, e encheu o cais de gente, de repente, e o cais que estava vazio ficou cheio de pessoas que se abraçavam, gritavam nomes, e ela, no meio daquilo, sentiu-se muito exposta no seu vestido amarrotado, esperando um homem que ela nunca vira. Quis fugir. Quase fugiu. Levantou-se do banco.
Foi quando ela o viu.
Ou melhor: viu um homem parado na entrada do cais, à distância, com um maço de papéis atado com barbante na mão, olhando para o cais cheio com a mesma cara de quem quer fugir e não foge. Ele não a vira ainda. Havia no corpo dele — na maneira como segurava o maço contra o peito, como quem carrega uma coisa que pode se quebrar — algo que ela reconheceu antes de reconhecer o rosto, porque era a mesma coisa que ela sentia no próprio corpo. Ele era o medo que ela tinha, de pé, do outro lado do cais, com a mesma coragem exata e não maior do que a dela.
O barco apitou. A gente começou a se dispersar. Entre ela e ele, o cais aos poucos se esvaziava, e a distância ficou, de repente, possível — trinta passos, talvez menos. Ele ainda não a vira. Ela podia, ainda, sentar-se de novo e deixar que ele a procurasse; ou virar-se e ir embora com as cartas dele para sempre; ou dar o primeiro passo. Os três futuros existiam ao mesmo tempo, inteiros, cabendo naquela manhã, e ela soube — com uma clareza que só a véspera concede, e que o encontro destrói — que aquele era o minuto mais cheio da história inteira dos dois. O minuto antes.
Ela deu o primeiro passo.
A. F.
A. F.
A. F.Vou escrever sobre um homem que conheço bem, porque fui ele por tempo demais: o homem que não sabe esperar. E vou escrever a partir da minha própria sombra, não da de ninguém, porque cobrar espera do outro seria, ele mesmo, um ato de pressa.
A tese é simples e desconfortável: para uma certa formação de homem — a minha, recifense, dos anos oitenta, filho de pai que não falava do que sentia — esperar é humilhante. Não difícil, não chato: humilhante. Esperar significa que a coisa não depende só de você, e a gente foi criado para que tudo dependesse de nós. O menino que espera é o menino que perdeu o controle da situação, e perder controle, para esse homem, é o começo da vergonha. Então ele aprende cedo a não esperar.
No desejo, isso vira uma avaria específica. O homem que não sabe esperar é o homem que trata o desejo do outro como um problema a ser resolvido, e não como um tempo a ser habitado. Ele quer chegar. Chegar é o verbo dele. E ao querer chegar, atropela justamente o cômodo onde o desejo da outra pessoa mora — a véspera, a demora, o quase. Já ouvi de mais de uma mulher, em mais de um círculo, a mesma frase dita de modos diferentes: “ele é bom, mas tem pressa”. E eu sei, por dentro, o que essa pressa é. Não é falta de técnica. É medo.
Porque é isso o que ninguém nos contou: esperar expõe. Quem espera se mostra. O corpo que espera é um corpo que admite que quer, e que não pode garantir que vai ter, e essa dupla admissão — quero, e não controlo — é exatamente a nudez que esse homem foi treinado para nunca deixar ver. Ele tira a roupa com a maior facilidade e não consegue, por nada, ficar parado querendo. A nudez que o apavora não é a da pele. É a da espera.
Passei dos quarenta e comecei, tarde, a desaprender isso. Não por virtude — por cansaço. Cansei de chegar. Descobri, num tempo da vida em que o corpo já não obedece com a mesma pressa antiga (e isso, que eu temia como perda, foi um professor), que a espera não é a antessala do prazer: é parte dele, talvez a melhor parte, a parte em que duas pessoas ainda são duas e ainda não se sabe no que vão dar.
Termino sem conselho, porque conselho seria pressa. Digo só o que aprendi na própria pele, tarde: há tantas pessoas que esperaram a vida inteira que um homem parasse de chegar e aprendesse a demorar com elas. Se você é esse homem, e reconheceu alguma coisa aqui, saiba que a espera que você teme é o presente que estão esperando de você. E que dar esse presente não te faz menor. Te faz, pela primeira vez, inteiro na frente de alguém.
Na edição passada, esta série parou numa soleira: pés descalços de quem saía, uma chave caída em movimento, a noite na rua. As quatro pranchas desta edição contam o resto — quem saiu, quem ficou, e a licença de voltar.
A. F.
A. F.
A. F.
A. F.— Você vem amanhã?
— Vou hoje à noite, se você apagar a luz.
— A luz já está apagada.
— Então eu já estou indo.
— Demora.
— Demoro.
Escrevi uma carta para ele em 1998 e nunca mandei. Está numa gaveta até hoje. Casei com outro, tive filhos, fui razoavelmente feliz. Mas duas ou três vezes por ano eu abro a gaveta, olho o envelope fechado, e não abro nem rasgo. Percebi ano passado que não é o homem que eu guardo. É a espera. Enquanto a carta não for mandada, alguma coisa ainda pode acontecer, num universo qualquer. Tenho sessenta e dois anos. A carta é a coisa mais jovem que eu tenho.
A gente se vê às terças, há nove anos, sempre no mesmo horário, sempre no mesmo lugar. Não é sobre as terças: as terças são boas, mas passam rápido. É sobre a segunda-feira. A segunda-feira inteira eu vivo em função de amanhã. Arrumo a casa cantando, escolho a roupa, durmo cedo. Meu marido acha que eu adoro segunda-feira. Adoro mesmo. Ele só não sabe por quê.
Meu pai esperava minha mãe na estação todo dia às seis, mesmo depois de aposentado, mesmo quando ela já não trabalhava e voltava com ele. Ele ia à estação, comprava um jornal, e esperava o trem das seis chegar, e ela descia, e eles voltavam a pé de mãos dadas, como se ela tivesse vindo de longe. Fizeram isso por doze anos depois que ela parou de pegar trem. Eu só entendi quando cresci: ele não esperava o trem. Ele esperava o momento de ver ela chegar. Todo dia. De propósito.
Você manda.
A gente edita pra publicar.
A gente não pede seu nome.
A gente não pede seu email.
A gente não guarda seu IP.
A gente não tem como te identificar
mesmo se quisesse.
Se a gente publicar
e você reconhecer seu próprio relato,
sabe que entre você e a gente,
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Se você quiser que a gente NÃO publique, basta indicar no começo do seu texto: “NÃO PUBLICAR · apenas arquivo”. A gente lê, guarda no arquivo morto, e nunca publica.
Trabalho na recepção de um hotel pequeno, à noite, há onze anos. Aprendi mais sobre a espera nesse balcão do que em qualquer outro lugar da minha vida. Porque quem chega antes espera quem chega depois — e a maneira como uma pessoa espera no lobby diz tudo o que vai acontecer no quarto, e às vezes o que não vai.
Tem os que esperam de pé, perto da porta, e olham para cada carro que encosta. Esses ainda estão no começo de alguma coisa; a espera deles é toda por fora. Tem os que sentam no sofá do canto, pedem um café, abrem um livro que não leem, e fingem — para mim e para si mesmos — que não estão esperando ninguém. Esses eu respeito mais. Aprenderam que a espera vivida por dentro passa melhor. E tem, raríssimos, os que esperam bem: relaxam de verdade, e quando a outra pessoa chega, não pulam. Levantam devagar. Esses são os que voltam mais vezes, ao longo dos anos, sempre com a mesma companhia. A espera tranquila é a assinatura do amor que dura.
Não vou contar histórias específicas — o contrato desta casa é o meu também. Digo só uma coisa que ninguém que trabalha de dia sabe: a madrugada é feita de gente esperando, e a espera, à noite, num lobby de hotel, tem uma dignidade que o dia não conhece. De dia a gente espera o ônibus, o médico, o boleto. De noite a gente espera pessoas. E esperar pessoa é a única espera que engrandece quem espera.
Eu ensaio o que vou dizer quando você chegar. Ensaio há três dias. Sei que vou esquecer tudo no minuto em que a porta abrir, e é por isso que eu ensaio: pelo prazer de ter, por três dias, uma fala pronta para você. Você nunca vai ouvir nenhuma delas. São todas suas.
Guardo sua camisa há sete meses. Não lavo. Já não tem seu cheiro, tem o meu por cima do lugar onde o seu esteve. Espero você vir buscar. Você não vem. Comecei a suspeitar de que eu não quero que venha — quero é ter, para sempre, um motivo para você ter que voltar.
A gente combinou “quando der”. Faz um ano que “quando der” é a minha religião. Toda vez que o telefone vibra, por um segundo, dá. Vivo desse segundo. Se um dia der de verdade, eu perco o segundo. Às vezes torço para nunca dar.
“Eu queria a demora. Não o que viesse depois, mas a demora antes: a antecipação, que é a única eternidade que o corpo conhece.” — paráfrase-homenagem da mesa, na chave do diário.
Anaïs Nin (1903–1977), escritora franco-americana. Henry and June: From the Unexpurgated Diary of Anaïs Nin — o primeiro dos diários não-expurgados, cobrindo 1931–1932 e o envolvimento com Henry e June Miller — foi publicado pela primeira vez em 1986 pela Harcourt Brace Jovanovich, nove anos após a morte da autora. É a fonte do filme homônimo de Philip Kaufman (1990). Nin é, com Marguerite Duras e Georges Bataille, uma das mães do erotismo literário sério — aquele em que o desejo é matéria de pensamento, não de pornografia.
Porque ninguém, antes da internet, esperou por escrito com a intensidade de Nin. Os diários dela são um monumento à véspera. Ler Nin é aprender que esperar já é viver. O trecho acima é homenagem da mesa; convidamos você a buscar o original.
No ponto de ônibus, uma mulher de uns setenta anos ajeitou o cabelo três vezes olhando no reflexo do vidro do abrigo. Depois alisou a saia. Depois esperou, ereta, sorrindo para nada. O ônibus chegou, desceu um velho com uma sacola de pão, e os dois se cumprimentaram com uma formalidade de primeiro encontro. Casados, dava para ver, há quarenta anos. Ela se arruma há quarenta anos para o marido descer do ônibus. Fiquei no ponto sem pegar o meu.
Vi um menino de uns dez anos esperando o pai na porta da escola, o último de todos. Ele não parecia ansioso. Tinha achado um jeito de fazer a espera render: contava os carros vermelhos. Quando o pai chegou, ele estava em dezessete, e a primeira coisa que disse não foi “demorou”. Foi “dezessete”. O pai não entendeu, e riu, e foram embora. O menino sabia uma coisa sobre esperar que a maioria dos adultos esqueceu.
Na fila da farmácia, uma moça mandava mensagem, apagava, reescrevia, apagava. Vi por cima do ombro sem querer: era sempre a mesma palavra, “oi”, que ela não conseguia mandar. Chegou a vez dela, guardou o telefone, comprou o que veio comprar. Na porta, parou, tirou o telefone de novo, e finalmente mandou. Vi o rosto dela mudar. Não sei quem era do outro lado. Sei que a coragem custou uma fila inteira, e que valeu.
Direção Editorial
Décio Veloso
Direção de Arte · Titular desta edição
Aurora Falcão
Conselho Editorial
Dra. Renata Campos · Beto Calazans · Lavínia Duarte · Mariana Sales · Pedro Augusto · Décio Veloso
Fotografia
Bia Pádua (ensaio “Véspera”)
Ilustração
Aurora Falcão (titular; série “A Promessa”, “Aprender a Esperar” 5-8, capa, contracapa, selos)
Lis Brandão (linha contínua, cartões-postais — a linha volta)
Marta Galvão (abertura do Q&R, em cor)
Risco (cartum do editorial)
Poesia Convidada
Cida Werneck
Modelos desta Edição
Dora F. · Antônio L. · Wanda K.
(consentimento documentado · direito de retirada 7 dias)
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Risco assina sem rosto, por decisão editorial.
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