Há cinco anos venho recebendo cartas.
Começou por acidente, como tudo o que importa começa. Em 2021, durante uma conversa em pé num lançamento de poesia em Botafogo, uma mulher que eu mal conhecia me confiou — entre o segundo e o terceiro vinho — algo que ela já não suportava ter guardado sozinha. Não era um segredo grave. Era uma vida paralela pequena, com hora marcada e local fixo. Ela falou em voz baixa porque foi a única forma que encontrou de dizer aquilo em voz alta sem se sentir traidora. Disse, terminou, suspirou, e mudou de assunto. Não voltou a tocar no assunto comigo, em nenhum encontro depois.
Mas duas semanas depois, ela me mandou uma carta. Duas folhas datilografadas, sem assinatura, com um envelope pardo entregue pelo correio comum. Ela tinha escrito tudo aquilo de novo, com calma, para que eu lesse, dobrasse, e guardasse.
Eu guardei.
A segunda carta, sem assinatura, chegou em 2022 — de uma pessoa que não era essa. A terceira, em 2023. Em algum momento, sem que eu tivesse pedido, virou um costume entre certas pessoas que sabiam que eu não escrevia sobre o que recebia, que eu não comentava, que eu não cobrava entrega. Vieram cartas de mulheres e homens, de pessoas trans, de gente casada de longa data e gente sozinha, de jovens e velhos, de profissionais do sexo, de médicos, de bancários, de uma freira aposentada, de um advogado, de uma viúva de São Paulo que escrevia à mão num papel azul-claro.
Há cinco anos eu venho recebendo cartas.
Não publiquei nenhuma — até hoje.
Em maio de 2026, com permissão explícita de uma parte dos remetentes e com edição cuidadosa do material restante para garantir anonimato técnico e literário, começamos a publicar. Esta primeira edição abre o cofre.
Quem mandava sabia que ficaria entre nós. Fica entre nós — só agora numa página, em vez de numa pasta.
Pra quem está chegando: a À Meia-Luz é uma revista quinzenal de literatura erótica, ilustração, ensaio sobre desejo, e — agora oficialmente — depositária pública do que confiar-nos a partir de hoje. Quem quiser entrar tem três canais abertos a partir desta edição: Segredos do Ofício (profissionais do sexo que queiram contar), Queime Depois de Ler (traições anônimas), e Falei, Estou Leve (fantasias e fetiches). O contrato de anonimato está publicado neste número, na página Fica Entre Nós. Não pedimos seu nome. Não pedimos seu email. Não guardamos seu endereço de IP. Não temos como te identificar mesmo se quiséssemos.
A revista também continua tendo o que sempre teve: o ensaio fotográfico da Bia Pádua, a HQ em linha contínua da Lis Brandão, o conto literário de Lavínia Duarte, as pranchas da Aurora Falcão, os cartuns do Risco, a consulta pública com a Dra. Renata Campos e o Beto Calazans, o ensaio sobre masculinidade do Pedro Augusto, e — estreia desta edição — a seção Acervo Antigo, onde mensalmente traremos um fragmento clássico da literatura erótica em tradução livre.
Sensualidade aqui é cerimônia. Subtexto vale mais que explicação. A revista é 18+ porque trata desejo adulto com seriedade adulta. Nada vulgar. Nada pornográfico. Nada moralizante.
Bem-vinda. Bem-vindo. Quem chegou já fez parte.
Risco
RiscoOito fotografias em preto-e-branco, página inteira cada. Geometria da pele em luz dura. Sem retoque. Sem softbox. Sem destino predeterminado.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.
B. P.[ Fotografias serão produzidas em sessão de estúdio agendada · prévia em Polaroid SX-70 disponível no caderno de bastidor (Premium). ]
Não toca em mim.
Não ainda.
Tem uma palavra
no meio da minha pele
que ainda não saiu.
Deixa ela sair primeiro.
E aí
me toca. Mas devagar.
Como quem
não confirma
o que já sabe.
Você se aproxima
em ângulo.
Não em linha reta.
Sabe por quê?
Porque eu não sou alvo.
Eu sou
desvio.
Sou o lado de dentro
da curva.
Sou o lugar
onde a régua
se rende.
HQ silenciosa em linha contínua. Sem balões. Apenas legenda curta em sans-serif fina, alinhada à esquerda, no canto inferior de cada página. Cada quadro é desenhado sem que a caneta saia do papel — a linha é, ela mesma, a personagem.



Lis B.B.
Lis B.B.
Lis B.B.
Lis B.B.
Lis B.B.
Lis B.B.
Lis B.B.Bia me chamou pra um café às quatro da tarde de quarta. Era a primeira vez. A gente tinha se conhecido num lançamento de livro três meses antes — eu fui apresentada por uma amiga em comum, lembrava do nome dela, lembrava do colar pequeno de osso na clavícula, lembrava de ela ter rido quatro vezes em vinte minutos. Pedi café. Ela pediu água com gás. Achei estranho. Quem pede água com gás às quatro da tarde quando se está saindo pela primeira vez com alguém?
— É porque eu não quero pressa — ela disse. Foi a primeira frase dela depois de pedir.
Demorei dois meses pra entender o que ela tinha dito.
Eu tinha trinta e oito anos na época. Já tinha sido casada. Já tinha tido três namorados, dois namorados longos, um curto. Já tinha tido duas mulheres como amantes, em segredo, antes do meu casamento abrir. Já tinha sido tocada por gente que tinha pressa de saber se a coisa ia dar certo. A pressa virou meu costume. Eu fui uma mulher rápida.
Bia foi a primeira mulher que eu beijei devagar.
Devagar não é o oposto de rápido. Devagar é uma palavra completamente diferente. Devagar é uma qualidade de atenção. É um jeito de chegar perto sem chegar logo. É um respeito muito específico pelo tempo da outra pessoa — pelo tempo que cada pele leva pra responder, pelo tempo que cada nervo leva pra acordar, pelo tempo que cada palavra leva pra se reorganizar dentro da boca da outra antes de virar gesto.
Aprendi sobre prazer não com os melhores amantes. Aprendi com os mais pacientes.
Os melhores eram homens que faziam o trajeto inteiro do mapa numa noite. Os mais pacientes eram mulheres que perguntavam se a próxima rua já podia ser entrada. E olha — não é mérito do gênero. Conheci mulher apressada, conheci homem paciente. Mas estatisticamente, com essa amostra patética que é a minha biografia, a paciência veio embrulhada em mulher.
Talvez porque a mulher aprenda muito cedo que o próprio corpo dela demora.
Bia me ensinou que a antecipação é parte do prazer. Não é prefácio do prazer. É prazer. É o momento em que a sua pele já está acordada mas ninguém ainda tocou em você — esse momento é o melhor capítulo da história. Quem pula esse capítulo está lendo um livro pior.
Outra coisa que ela me ensinou: ouvir. Não "ouvir o que a outra quer" — isso é técnico, é manual de boa amante. Ouvir o silêncio. Ouvir a respiração que muda. Ouvir o segundo de pausa antes da próxima frase. Erotismo é leitura. Quem não sabe ler, pede pressa.
Helô — que veio depois, dois anos atrás — me ensinou outra coisa: a importância de ser tocada onde não se espera ser tocada. Não onde a pessoa supõe que você quer. Mas onde você não tinha pensado. O nó do tornozelo. O atrás da orelha. A linha da coluna de cima pra baixo, contra o pelo. Helô passou o primeiro mês me tocando em lugares que nenhum homem tinha tocado em mim antes. E eu nem tinha sentido falta — eu nem tinha sabido que eu queria.
Esse é o ponto: a gente nem sempre sabe o que quer. E o melhor amante é quem te apresenta a você mesma. Quem inventa uma versão sua que você não conhecia.
Eu não tô falando de saber técnica. Tô falando de saber prestar atenção. Que é uma coisa que homem aprende — quando quer aprender. Mas que mulher costuma aprender mais cedo porque a vida ensinou.
O Tomás — o meu — aprendeu a prestar atenção. Não porque é homem-bom — embora seja. Mas porque ele entendeu, em algum momento dos quinze anos que a gente está junto, que eu não era um exame que ele ia tirar nota A. Eu era uma língua que ele ia aprender. E língua a gente aprende devagar.
Bia, dois meses depois daquele café, me tocou pela primeira vez. Foi numa quinta-feira. Foi devagar.
Ela tinha razão sobre a água com gás.
Querida, nada de errado com você. Primeiro a fisiologia, depois o resto.
Cerca de 70% das mulheres não chegam ao orgasmo só com penetração — esse é o número da pesquisa, não a sua biografia. A penetração estimula a vagina; o orgasmo costuma chegar pelo clitóris. São dois mapas diferentes. Quem disse que penetração ia te dar orgasmo te disse uma mentira que a gente herdou de revista masculina dos anos 80.
Agora o resto. Você está fingindo. Isso é o sintoma — não a doença. A doença é que você se sente responsável pelo prazer do seu marido a ponto de mentir pra ele. Esse "pra ele não ficar triste" é o pedaço que merece atenção. Você não é uma máquina que está estragando o jantar. Você é uma pessoa que está descobrindo o próprio corpo aos 34 anos. Conta pra ele. Não no momento do sexo — no almoço de sábado. Diga: "eu nunca cheguei lá com penetração. Eu finjo. Quero aprender com você outro mapa". Esse é o convite. Quem ama vai aceitar.
Eu te beijo.
Eu te escuto antes de te responder. Renata já disse o essencial. Quero dizer só uma coisa: a mentira que você conta no quarto é menor do que a mentira que outras pessoas contam sobre o orgasmo feminino há cinquenta anos. Você não inventou nada. Você herdou.
A pergunta que eu faria pro seu marido se ele entrasse no meu consultório (e às vezes eles entram): o que você sentiu quando descobriu? Porque o homem que se sente fracassado vai te culpar — disfarçadamente, em pequenos gestos. O homem que se sente convidado vai aprender. A diferença entre os dois é a conversa que vocês ainda não tiveram.
Não tem pressa pra ter essa conversa. Mas ela existe — e a pessoa que costuma marcar essa conversa é a mulher. Lamento que essa também seja a sua função. Mas é.
Eu te escuto. E sinto o peso da sua pergunta. Antes de responder direito, quero te dizer uma coisa: você está fazendo a pergunta certa. Quem não está pronto pra esse momento, foge dele. Você está ficando.
Sobre a traição: você não está traindo ninguém. Sua mulher morreu — isso é a verdade fisiológica, jurídica, espiritual. O contrato terminou. O que ainda está em vigor é o seu vínculo emocional com ela — e esse não acaba, nem vai acabar. Nenhuma mulher viva vai ocupar o lugar dela. Mas pode existir um outro lugar, ao lado, que outra mulher viva ocupe. É lugar diferente, com cadeira diferente. Casa cabe duas memórias se elas não dividirem a mesma cadeira.
O nervoso que você sente é luto. Luto não vira do dia pra noite em "pronto, agora pode". Luto vira aos poucos em "agora pode com cuidado". O que vai te ajudar é dizer pra essa mulher, abertamente: "eu fiquei viúvo há dois anos, eu te quero, eu estou com medo". Mulher que aceita conviver com isso é mulher pra você nesse momento. Mulher que não aceita, é melhor que você descubra agora.
Sobre prazer especificamente: o seu corpo pode responder antes da sua cabeça acreditar. Pode acontecer. Pode acontecer também o contrário. Os dois são normais. Não há prova de fogo. Vocês podem demorar três meses até a primeira noite. Vocês podem dormir juntos amanhã. O cronograma é de vocês.
E olha. Sua mulher, lá onde ela está, não está olhando a sua cama. Ela está vendo a sua paz. Essa é a única coisa que ela quer.
Eu acrescento só do lado do corpo. Aos 49, a primeira vez depois de luto longo pode ter atritos físicos — ereção que vai e volta, a lubrificação dela pode demorar, vocês podem rir, vocês podem chorar, vocês podem parar no meio. Tudo isso é absolutamente comum. Não é fracasso. É corpo dizendo: "oi, faz tempo".
O que ajuda é o que o Beto já disse: conversa antes. Conversa demais é melhor que silêncio constrangido. Vocês podem combinar de começar sem expectativa de chegar em lugar nenhum específico. Sexo bom é o sexo que aceita ficar a metade do caminho.
Estou torcendo.
Queride, primeiro: bem-vinde. Estou feliz que você esteja escrevendo pra cá. Vou ser prática.
Não tem jeito de simplificar do lado de fora — você vai ter que explicar pra cada pessoa nova porque cada pessoa nova é uma pessoa nova. O que tem jeito é simplificar do lado de dentro: ter uma lista mental, talvez até escrita, com (a) palavras que você usa, (b) palavras que você odeia, (c) gestos que você precisa, (d) gestos que ferem. Você diz isso de uma vez no começo. Algumas pessoas vão entender, outras não. As que não entenderem em duas conversas — não vão entender em vinte.
Aprenda a soltar mão de quem não consegue te chamar pelo nome.
A simplificação real é essa: identificar logo quem é parceira/parceiro/parceire em potencial, e quem só dá trabalho.
Eu te escuto. Vou só somar uma coisa pro lado emocional. O cansaço que você descreve — de explicar — é real. Não é frescura. Você está fazendo trabalho emocional que pessoas cis-hetero não fazem em primeiro encontro. Esse trabalho é seu mas não devia ser só seu.
A pergunta que eu te devolveria: quem está te ajudando nesse trabalho? Você tem amigues que conversam isso com você fora do romance? Tem rede afetiva pra além das parceiras? Porque se o seu trabalho de existir não-binárie é todo dentro do encontro romântico, ele vai te queimar.
Cuide de você. Te beijo.
Risco
Risco
M. GalvãoA casa fica numa estrada de chão a quinze minutos do centro de Sobral, depois da venda do Seu Olímpio, onde a estrada vira pra esquerda no umbuzeiro grande. Quem nunca foi não acha. Os taxistas do aeroporto chegam até a curva e perguntam de novo: "É aqui mesmo?". É aqui. A placa caiu há doze anos.
A casa foi do avô da Daniela. Avô português, mãe cearense, agora os dois mortos. A casa fica de pé porque o cunhado da Daniela, o Eduardo, paga uma senhora — dona Rita — pra varrer e abrir as janelas duas vezes por semana. "Pra a casa não morrer", ele diz. Dona Rita não mora ali. Mora na vila, vai a pé. Tem 73 anos. Anda devagar.
A Daniela e a Bárbara chegaram no sábado à noite, depois de pegar o voo de Fortaleza pra Sobral às seis da tarde, depois de pegar carro alugado, depois de comprar farinha e cachaça e quatro maços de coentro na feira do Centro às oito. Domingo de manhã, abriram a janela do quarto pras seis e meia, pelos galos. Daniela disse: "vai dormir mais". Bárbara disse: "não dá". Ficaram acordadas.
Agora são onze da manhã. Está quase 36 graus. A Bárbara está numa rede no alpendre, lendo. A Daniela está na cozinha cortando manga. O rádio toca uma novela de antigamente, repetição da Rádio Sobral. Tem um cachorro deitado no chão de cimento da varanda — não é o cachorro delas, é o cachorro da casa, herdou junto com a casa, chama Bruno. Bruno está mexendo a cauda pra moscas.
A Bárbara fecha o livro. Olha pra cozinha por cima do ombro. A Daniela está de costas. Camiseta branca regata. Suor desenhando o sutiã embaixo da camiseta. A Daniela corta manga com o canivete do avô — canivete suíço vermelho de cabo de madeira, dado pela mãe da Daniela no aniversário dela de quinze anos. A Bárbara aprendeu a usar esse canivete junto com a Daniela. É o segundo verão delas em Sobral.
— Vem — a Daniela diz, sem virar. — Come.
A Bárbara levanta. A rede balança vazia. Vai pela cozinha pelo lado da janela aberta. O sol entra forte. A Bárbara entra na cozinha por trás da Daniela. Encosta a testa nas costas dela, entre as omoplatas. Sente o sutiã molhado contra a pele dela própria. Não diz nada. A Daniela continua cortando manga. Continua. Continua mais um minuto. Depois pousa o canivete no balcão e gira no eixo. Pega o queixo da Bárbara com a mão livre da manga e levanta. Olha pra ela. Não beija. Olha. Olha mais um minuto. A casa fica em silêncio total. O rádio terminou a novela. Bruno suspirou no chão da varanda.
— Manga — diz a Daniela.
— Manga — diz a Bárbara.
E come a fatia que a Daniela botou entre os dedos.
M. GalvãoAlmoçaram às duas. Arroz com feijão verde, frango de quintal que o vizinho — Seu Cariri — matou ontem e mandou pela dona Rita, farofa de cebola, dois pratos de manga de sobremesa. Comeram no alpendre. A Bárbara serviu cachaça pras duas, gelada, com um pingo de limão. Brindaram em silêncio. A Bárbara olhou pra cara da Daniela. A Daniela tem 38 anos, tem três sardas debaixo do olho esquerdo, tem dois fios brancos no cabelo direito que ela arranca toda vez que descobre. Hoje ela não arrancou ainda — a Bárbara conta. Vai contar pra ela depois. Vai dizer: "hoje você está bonita não-arrancada". Não vai dizer agora.
Depois do almoço, foram pra rede. As duas na rede. Cabeças em pontas opostas, pés entrelaçados no meio. A Bárbara segura o pé direito da Daniela na mão direita. Aperta com o polegar a planta. A Daniela suspira. Ferra o sono.
A Bárbara não dorme. Fica olhando pro telhado. Pensa em coisas grandes — em pôr fim ao apartamento de Fortaleza e voltar pra Sobral, em querer um filho, em querer não querer um filho, em querer só passar todos os domingos da vida assim, em uma rede, com essa mulher dormindo no outro lado. Pensa coisas grandes e pequenas. Como pequenas: que a Daniela ronca baixinho quando está cansada. Que ela própria, Bárbara, gostaria de ser tão silenciosa quanto. Que talvez seja só questão de tempo. Que talvez seja questão de aprender a respirar diferente.
M. GalvãoAcordou às quatro e meia da tarde com o sol já oblíquo, dourando o pé esquerdo da Daniela. A Daniela ainda dormia. A Bárbara saiu da rede com cuidado, se pôs em pé. Pés no cimento. Foi pra cisterna.
A cisterna fica nos fundos. Água da chuva, juntada o ano inteiro. Tem uma corda velha e um balde de plástico azul. A Bárbara tirou a camiseta e o sutiã. Ficou de short e descalça. Puxou um balde de água. A água sai gelada — quanto mais funda na cisterna, mais fria. Despejou o balde sobre os ombros. Gritou baixinho. Voltou a puxar outro balde, esse pra cabeça. Outro pros braços. Outro só pra ficar em pé embaixo da quina da casa olhando o limoeiro do quintal.
A Daniela apareceu na esquina da casa pela varanda lateral, descalça, ainda sonolenta, camiseta levantada e amarrada num nó embaixo do peito. Ficou olhando a Bárbara. A Bárbara ficou olhando a Daniela. Nenhuma das duas falou nada. A Daniela veio até a cisterna. Puxou um balde. Despejou em si mesma, em cima da camiseta, sem desamarrar o nó. Puxou outro pra Bárbara. Não jogou — entregou. A Bárbara segurou o balde meio cheio. Pôs no chão. Beijou a Daniela no canto da boca direita, devagar, e a Daniela inclinou a cabeça quatro graus pra esquerda pra encontrar o beijo de lado, como sempre, e foi isso.
M. GalvãoVoltaram pra dentro da casa, descalças, pingando água nos tijolos do piso, dia já amarelo, sem dizer uma palavra, e fecharam a porta do quarto onde tem uma cama velha do avô português com colchão duro, e foi um domingo, e foi pra elas, e a casa estava em silêncio, e fora da casa tinha o canto da carcará, e o vento que mexia o pé de manga, e o Bruno que dormia na varanda, e o resto não cabe aqui — é dela e dela.
Aos sete da noite voltaram a sair do quarto, com cabelo molhado de novo (segundo banho de cisterna, esse curto), descalças, em camisetas largas, e a Daniela foi acender o forno pra esquentar o resto de frango do almoço, e a Bárbara foi pôr a mesa, e o rádio agora tocava forró antigo, e elas dançaram um pouco enquanto a comida esquentava, e a Daniela disse: "eu queria morar aqui", e a Bárbara disse: "vamos morar aqui", e a Daniela riu, e a Bárbara riu, e o domingo terminou bem, e nenhuma das duas falou em segunda-feira, e era exatamente o que ambas queriam.
Risco
RiscoVou contar uma história rápida.
Quinze anos atrás eu estava na cama com uma mulher pela primeira vez. Eu tinha 29. Ela tinha 31. Era a quarta noite que a gente saía. A gente já tinha decidido — sem decidir explicitamente — que essa noite ia ser a noite.
A gente começou. Tudo certo. Beijo, mão, roupa caindo na cadeira, o costume técnico do procedimento que homem da minha geração aprendeu vendo filme. E aí, em algum momento perto da metade do caminho, ela parou. Tirou a mão de mim. Sentou na cama. Disse:
— Pode esperar?
Eu fiquei sem reação. Tinha algo errado? Eu tinha feito algo errado? Ela percebeu que eu estava entrando em pânico interno. Pegou a minha mão. Disse:
— Tudo certo. Eu só quero parar dois minutos.
Eu disse "tá". Mas dentro de mim — preciso confessar — eu pensei: "ela não tá a fim". E pensei: "vamos parar". E pensei: "como é que eu vou disfarçar a humilhação". E pensei: "eu sabia que isso ia dar errado".
Tudo isso em quinze segundos.
Ela ficou sentada na borda da cama, ao meu lado. Pôs a mão direita nas costas da minha mão esquerda. Não fez mais nada. Não falou mais nada. Ficou olhando o lado da janela. Ficou ali dois minutos. Foram dois minutos longos.
Aí ela virou pra mim e disse:
— Pode continuar.
Eu continuei. Mas eu estava diferente. Tinha entendido alguma coisa que ninguém tinha me ensinado.
A coisa era essa: ela não tinha parado porque queria ir embora. Tinha parado porque queria ficar. Parar foi a forma dela de chegar mais perto. Parar foi um gesto — um gesto erótico, exatamente como qualquer outro gesto erótico que existe no manual masculino. Não estava no manual masculino. Aquela mulher inventou um capítulo novo no meu mapa naquele dia.
Hoje eu tenho 44 anos. Aprendi nesses quinze anos uma coisa simples e difícil: parar é também tocar.
Aprendi que o homem que aprende a parar — sem ansiedade, sem temor, sem agenda — é um homem que dá um presente difícil de receber, porque a maioria das mulheres já recebeu antes só pressa.
Aprendi também outra coisa: parar é estranho pro próprio homem. Parar significa ficar sem o roteiro. Significa ficar sem saber o que fazer. Significa ficar a sós com o próprio corpo dentro de uma cena que ele não está controlando. Pra muito homem isso é insuportável. Pra muito homem parar é fracasso. Parar é "eu não vou conseguir". Parar é "ela não tá a fim".
E olha — não é. Parar pode ser muita coisa. Parar pode ser "eu quero te olhar mais um pouco". Parar pode ser "essa parte aqui é tão boa que eu preciso descansar dela". Parar pode ser "eu não decidi ainda como eu quero continuar". Parar pode ser "eu queria que isso durasse mais". Todos os significados são bons. Nenhum é fracasso.
Homem aprende a parar quando entende uma coisa: o seu prazer e o prazer da outra pessoa não estão num cronômetro. Não tem hora marcada pra chegar. Não tem nota A pra tirar. Você tá numa língua que vocês dois estão inventando junto. Língua a gente inventa devagar.
E aqui vai uma coisa que eu não tinha coragem de escrever quando tinha 30 anos: parar também serve pra você. Pro homem. Pra dar tempo de o seu desejo se mexer, mudar, virar de lado, ficar mais inteiro. O homem que para de duas em duas — não por dificuldade, por escolha — descobre que o próprio prazer dele tem mais andares do que ele sabia.
Você não precisa parar todas as vezes. Mas precisa saber parar. É um músculo. Treina.
Quinze anos depois, eu ainda lembro do nome daquela mulher. Eu não vou escrever aqui. Ela mora hoje em Buenos Aires, casada, com dois filhos. A gente não se fala mais.
Mas se ela tiver lendo: obrigado. Você me ensinou uma coisa que mudou a minha vida.
Aurora F.
Aurora F.
Aurora F.
Aurora F.— Você tem pressa?
— Tenho.
— De ir embora?
— De ficar.
— De ficar onde?
— Aqui.
— Quanto tempo?
— Mais um pouco.
— Tá.
— Tá.
Mande sua confissão em xaplin.com.br/a-meia-luz/confissoes · anonimato garantido · redação edita por extensão
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Você manda.
A gente edita pra publicar.
A gente não pede seu nome.
A gente não pede seu email.
A gente não guarda seu IP.
A gente não tem como te identificar
mesmo se quisesse.
Se a gente publicar
e você reconhecer seu próprio relato,
sabe que entre você e a gente,
ficou entre nós.
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A mesa editorial recebe, lê, e decide se entra na próxima edição. Se decidir que entra, edita o texto para: (1) polir frase e ritmo preservando voz; (2) remover qualquer detalhe traçável — nome, cidade específica, profissão específica que possa identificar, idade exata; (3) manter o coração do relato. Sempre.
Se você quiser que a gente NÃO publique, basta indicar no começo do seu texto: "NÃO PUBLICAR · apenas arquivo". A gente lê, guarda no arquivo morto, e nunca publica.
Segredos do Ofício — para profissionais do sexo que queiram contar. Texto livre entre 800 e 6.000 palavras. Canal: xaplin.com.br/a-meia-luz/oficio/
Queime Depois de Ler — para confissões de infidelidade. 300 a 600 palavras. Canal: xaplin.com.br/a-meia-luz/queime/
Falei, Estou Leve — para fantasias e fetiches. 80 a 300 palavras. Canal: xaplin.com.br/a-meia-luz/inventario/
O que a gente NÃO faz: não publicamos com pessoa real identificável (mesmo que você queira). Não publicamos descrição de menor de idade em situação sexual, sob nenhum pretexto. Não publicamos relato de violência sem consentimento como pornografia. Não vendemos seu texto.
Quem decide: Décio Veloso (direção) lê tudo. Renata Campos e Beto Calazans (psicanálise) revisam o que toca em saúde mental. Sebastião Leal (Ombudsman da Xaplin) pode ser acionado por leitor que sentir que a edição prejudicou a essência do relato — ombudsman@xaplin.com.br.
Fica entre nós.
Eu não conto pra ninguém o que faço. Meu pai morreu achando que eu sou tradutora. A minha mãe sabe — fez questão de saber, num domingo, do nada — mas a gente não conversa sobre isso fora daquela tarde. Minha vizinha do andar de cima acha que eu trabalho com importação de cosméticos, porque uma vez ela me viu carregando uma caixa grande para o táxi e perguntou. Eu sorri, falei "amostras", e nunca mais ela perguntou.
Esse texto, então, é a primeira vez que eu conto.
Não é confissão. Não tem peso pra eu carregar. É só que doze anos é tempo demais pra ninguém ter ouvido em voz alta.
Eu entrei pelo dinheiro. Quem entra de outro jeito está mentindo pra si mesmo nos primeiros dois anos e depois para de mentir. Em 2014 minha mãe ficou três meses internada num hospital privado em Botafogo e eu já tinha sido demitida do escritório de arquitetura onde trabalhava — não porque eu era ruim, mas porque o escritório fechou e o sócio mais velho me ofereceu uma vaga na empresa nova dele que vinha com um corte de quarenta por cento no salário. Eu falei que ia pensar. Não voltei.
Foi nesse intervalo que uma colega de faculdade — que não vou nomear porque ela continua casada com um homem importante e a gente ainda se vê — me sentou numa mesa de um restaurante italiano em Ipanema e me explicou. Sem rodeios. Disse o valor da hora, da diária, do fim de semana, da viagem. Disse o que ela não fazia. Disse o que ela cobrava a mais por aquilo que ela fazia.
Eu chorei no banheiro do restaurante. Não de pena de mim. De alívio.
Comecei naquela semana.
A primeira coisa que ninguém te conta é que noventa por cento do tempo não acontece nada. Você está num apartamento bonito ouvindo um homem reclamar do escritório, da esposa, do filho que entrou em medicina mas queria fazer cinema, da mãe que liga toda noite. Você senta na ponta do sofá com o copo na mão e ele fala. Você está cobrando pra ouvir. Quem nunca foi escutado paga muito caro pra ser.
Eu aprendi, no primeiro ano, que perguntar de menos é melhor que perguntar de mais. Eles te contam. Sempre te contam. O cliente que não conta nada é o cliente que volta uma vez só, e geralmente é o cliente que se envergonha de ter vindo.
A segunda coisa que ninguém te conta é o cheiro. Cada quarto tem um cheiro, e você aprende a ler. Sândalo geralmente é alguém que viajou pra Índia e quer reviver alguma coisa. Lavanda é casamento velho — a esposa lava o lençol, mesmo no apartamento que não é da esposa. Naftalina escondida é mãe que ainda mora junto, mesmo o homem tendo cinquenta anos. Madeira queimada é homem solteiro divorciado recente que tenta dar conta da casa sozinho pela primeira vez.
Você não diz nada disso, claro. Você não fala do cheiro. Mas você lê.
Os recorrentes são uma categoria à parte.
Recorrente é quem volta, quem marca de novo, quem te chama pelo nome que você inventou — porque você inventou um nome e nunca esquece qual escolheu pra cada um. (Tive uma fase, no segundo ano, em que usei o mesmo nome com todo mundo. Não funciona. Você esquece quem sabe o quê. Hoje eu tenho três nomes — Mônica pra esse texto não é nenhum deles.)
O meu recorrente mais antigo se chama M. Ele tem sessenta e quatro anos, foi diretor de uma empresa que vocês conheceriam o nome. Aposentou-se em 2019. A esposa morreu em 2021. Filhos casados, dois netos que ele vê aos domingos. Mora num apartamento na Lagoa com uma faxineira diarista que vai segunda, quarta e sexta. Toda terça à tarde, das 14h às 16h, ele me chama.
Não fazemos sexo desde 2022.
Ele me chama porque, segundo as próprias palavras dele, "minha tarde de terça precisa ter alguém". Eu chego, ele já fez o café — italiano, na máquina pequena, sempre com a xícara branca. A gente senta na varanda. Ele me conta o que aconteceu na semana, as notícias do mundo que ele leu no jornal de papel, os e-mails que recebeu dos filhos. Eu conto sobre coisas que viraram inventadas — porque uma vez eu falei demais sobre minha vida real e percebi que ele guardou. Hoje eu invento uma vida paralela pra ele, e ele sabe que é inventada, e ele gosta assim. Ele me chama de "minha ficção das terças".
Em duas horas, ele me paga o equivalente a um jantar caro. Ele não diminuiu nem aumentou o valor desde 2022, mesmo quando eu sugeri uma vez baixar — afinal não tem mais sexo. Ele falou: "minha cara, você acha que eu pago pelo sexo?" Eu não falei nada. Ele tomou um gole. "Eu pago porque eu sei que você vai chegar."
Esse é o tipo de coisa que ninguém te diz sobre o ofício.
Tem o casado de quinta-feira. Médico cardiologista, quarenta e nove, casamento de vinte e dois anos. Três filhos. A esposa é radiologista. Eles se conheceram na residência. Ele me explicou, na primeira vez, que não tem nada errado com a esposa — pelo contrário, ele a respeita demais, eles trabalham bem juntos, criam bem os filhos. Mas, ele disse, "eu preciso de uma hora por semana onde eu não sou ninguém daquela vida".
Ele me chama de "minha quinta". Eu sei o nome da esposa porque ele uma vez falou sem perceber. Nunca repeti.
Tem o jovem — único cliente jovem que eu aceito, regra do ofício é não pegar cliente com menos de trinta porque dá problema. Ele tem trinta e dois. Trabalha em fintech, ganha muito, separou-se recentemente. Veio uma vez por causa de uma aposta com amigos, ficou envergonhado, e voltou três meses depois pedindo desculpa. Hoje vem uma vez por mês. A gente conversa sobre livros. Ele lê muito. Me empresta livros. Eu li um Roth, um Coetzee, e dois da Han Kang por causa dele. Ele paga, eu leio, conversamos.
A terceira ou quarta vez ele me perguntou se a gente podia "só conversar dessa vez". Eu disse que sim. Ele pagou normal. Nas vezes seguintes, às vezes a gente trepa, às vezes só lê e conversa. Ele paga normal. Cliente que paga normal pelas duas opções é cliente que entende o ofício.
Tem a casada de Niterói. Sim. Mulher, casada com homem que ela não ama há doze anos, dois filhos pré-adolescentes. Ela me procurou via uma terceira pessoa, com referência. Não se atreveria sozinha. Ela vem uma vez a cada três meses, geralmente numa quarta-feira de manhã, quando consegue um buraco entre as agendas. Não pede sexo. Pede companhia, alguém pra deitar do lado, uma hora de toque sem que precise dar explicação. Eu cobro o mesmo valor. Ela paga sem questionar.
Tem o estrangeiro de junho. Argentino, vem ao Rio duas vezes por ano a negócios. Cinco anos consecutivos. Aprendeu português pra conversar comigo melhor. A esposa dele sabe — me contou na terceira vez — e a esposa dele só pediu uma coisa: que eu, no Brasil, nunca diga o nome dele em voz alta dentro do quarto, mesmo se ele pedir. Eu nunca digo. Ele entende. Ele me liga do aeroporto, ainda dentro do avião, quando aterrissa.
Você quer saber o que eu faço com o dinheiro. Todo mundo quer.
Eu pago aluguel. Eu sustento minha mãe — ela mora no interior, tem 71 anos, e não trabalha mais. Eu paguei minha pós em design gráfico que comecei em 2019 e nunca terminei, com mais um ano pendente. Eu tenho um cachorro. Eu viajo duas vezes por ano sozinha pra lugares onde ninguém me conhece. Eu uso a maior parte do que sobra pra construir uma reserva que vai me permitir, em três anos, parar e abrir um estúdio de design. Eu sei o número exato que eu preciso ter. Falta menos do que falava em 2022.
Eu não tomo. Eu não fumo. Eu não uso nada além de café e chá. Algumas das outras tomam — não julgo, mas eu não posso. Eu preciso da cabeça limpa pra ouvir.
A pergunta que sempre fazem é se eu gosto. Não dá pra responder com sim ou não.
Há clientes que eu espero pela tarde inteira de terça antes da hora marcada. Há clientes que eu encerro em duas horas e dirijo direto pra praia pra esquecer. Há clientes que eu gosto e cobro caro porque o gosto não é negócio. Há clientes que eu nem reparei o rosto direito mas a gente trepou bem.
A pergunta certa não é se eu gosto. É: eu escolheria fazer outra coisa hoje? Em 2026, com 38 anos, três anos antes da minha reserva ficar pronta? Não. Eu escolheria continuar. Não porque seja a melhor vida — é uma vida. Mas eu sei como ela funciona, eu sei o preço dela, eu sei o que ela me dá, eu sei o que ela me tira.
Eu não tenho ilusão sobre quando vou parar. Eu vou parar. Tem data, tem número, tem plano. Mas até lá eu trabalho.
Uma coisa final — e isso é o que ninguém te diz no começo.
Esse trabalho ensina, com uma clareza que nenhum outro trabalho ensina, que quase ninguém é tocado o suficiente. Ninguém te conta, mas é isso. Homens e mulheres, casados e solteiros, ricos e médios — quase todo mundo está há tempo demais sem mãos boas em cima. Eles pagam não pra trepar. Eles pagam pra serem tocados sem que alguém depois cobre alguma coisa em troca.
Quando você entende isso, o ofício deixa de ser sobre sexo. Ele vira sobre presença. Sexo é uma das formas. Conversa é outra. Silêncio em cima do peito é outra. Tudo cobra a mesma hora, todo mundo entende, todo mundo paga, todo mundo sai um pouco mais leve.
Eu também saio.
Por isso eu volto na semana seguinte.
Personagem composta a partir de relatos coletados sob anonimato em entrevista editorial. Nome, profissões dos clientes e detalhes geográficos alterados. Voz e estrutura preservadas. Próximas edições do Segredos do Ofício virão de profissionais que toparem aparecer com identidade reservada — coletadas pelo canal xaplin.com.br/a-meia-luz/oficio/
Faz três anos que a gente se vê na quinta-feira às duas da tarde. É sempre num apartamento que ele aluga por mês — não meu, não dele, neutro. Ele leva o café. Eu levo o pão. A primeira vez foi por engano, no plantão de Natal de 2022, depois de um expediente de quarenta e duas horas e três cafés. Ele me ofereceu carona até o estacionamento. A gente conversou no carro. Eu chorei. Não sei por quê. Ele não tentou nada. Mas ele entendeu, e eu também entendi.
A primeira vez de verdade foi três semanas depois. Eu liguei dizendo que ia parar na padaria perto do hospital e perguntei se ele queria alguma coisa. Ele riu e falou: "café decente". Aí eu fui. A gente sentou no carro dele no estacionamento, bebeu o café e ficou em silêncio. Foi tudo o que aconteceu.
Mas naquela noite, em casa, eu deitei do lado do meu marido — médico também, anestesista, bom homem, casamos cedo demais — e percebi que eu tinha pensado no outro o dia inteiro. Não com vontade. Com calma. Como quem pensa em uma janela aberta numa sala que sempre foi fechada.
Hoje, três anos depois, eu sei a marca do café que ele compra. Sei que ele tem uma pequena cicatriz acima do mamilo esquerdo de uma cirurgia infantil que ele nunca explicou. Sei que ele se barbeia na quinta de manhã pensando que vai me ver. Sei que eu compro o pão na padaria certa porque ele uma vez disse que preferia. Sei que a gente vai parar um dia, e que vai doer, e que ainda não é agora.
Meu marido não sabe. Meu marido nunca vai saber. Eu não quero deixar meu marido. Eu não quero casar com o outro. Eu só quero a quinta às duas.
Eu posso querer isso?
Eu viajo muito a trabalho. Em São Paulo, sempre o mesmo hotel — porque a empresa tem convênio, porque é perto da reunião, porque eu já conheço o porteiro. O hotel não tem nome que importe. Tem um saguão com mármore manchado, um piano que ninguém toca, um bar com luz baixa demais para enxergar quem está bebendo.
Ela mora em Belo Horizonte. A gente se conheceu numa plataforma de modelos webcam, dois anos atrás. Eu paguei pra assistir, depois paguei pra conversar, depois paguei pra ela me ligar pelo telefone, depois ela falou que estaria em São Paulo num evento e que se eu quisesse a gente podia tomar um café. Eu disse sim antes dela terminar a frase.
Ela tem vinte e dois. Eu tenho quarenta e sete. Nós dois temos uma noção exata do que isso significa, e nenhum dos dois tem ilusão sobre o que é. Eu pago hospedagem dela quando ela vai a SP. Pago a janta. Não pago pelo resto, e isso é importante pra ela. Pra mim também.
Minha mulher acha que eu detesto vir a SP por causa do trânsito. Eu também acho que detesto, mas detesto menos quando ela vai estar.
O que aconteceu foi o seguinte: a minha mulher me ama, eu amo a minha mulher, a minha mulher conhece pessoas que eu nem lembro mais do nome, e eu conheço pessoas que ela nem sabe que existem. A minha vida em Belo Horizonte com a minha mulher é a minha vida. A minha vida no hotel sem nome em São Paulo com uma menina vinte e cinco anos mais nova não é uma outra vida. É a parte da mesma vida que precisa caber em outro endereço.
Quando ela tirar a cidadania portuguesa e for embora, em outubro, vai doer. Eu já fiz as contas. Vai doer no quarto sem nome, e eu vou voltar de avião pra BH, e a minha mulher vai me perguntar como foi a viagem, e eu vou dizer "longa", e ela vai me trazer chá.
Eu tenho medo desse outubro.
Eu também tenho medo dela ficar.
Mudei pra esse prédio na primeira semana de 2023. Meu marido tinha conseguido o emprego que a gente esperou três anos. Apartamento bonito, dois quartos, varanda pequena, vista pra um pedaço de mar se você inclinasse a cabeça pra direita. Eu tinha 36. Ele tinha 38. A gente queria filho mas tinha decidido esperar mais um ano por causa do recém-emprego.
Eu vi a vizinha de baixo no elevador no segundo dia. Ela estava com cabelo molhado, descalça, segurando uma sacola de feira. Disse "oi" daquele jeito que vizinha de prédio diz — sem olhar muito. Eu também disse "oi". Quando ela saltou no quinto andar, eu fiquei sozinha no elevador e percebi que estava com o coração acelerado.
Eu sou casada com homem há treze anos. Antes do meu marido tive dois namorados, ambos homens. Nunca antes daquele momento no elevador algum corpo de mulher tinha me parado a respiração.
Demorou dezoito meses. Os primeiros seis meses eu fingi pra mim mesma que não era nada — só uma estranheza, só uma alergia da mudança, vai passar. Os meses sete a doze, eu comecei a inventar motivos pra descer no quinto andar — encomenda errada, café emprestado, vão da escada, lavanderia. Ela percebeu, claro. Mulher percebe.
Foi ela quem chegou. Numa quarta de feriado, com o marido dela viajando e o meu também — coincidência improvável que eu não vou explicar como aconteceu. Ela bateu na minha porta dizendo que tinha esquecido o saca-rolhas. Eu entreguei. Ela ficou parada. Eu também.
Aconteceu três vezes desde então. Sempre quando os maridos não estão. Sempre dentro do prédio. Nenhuma das duas falou de deixar ninguém. Nenhuma das duas falou de continuar pra sempre. A gente acumula esses pequenos buracos no calendário onde a vida real para de funcionar.
Eu tenho 38 agora. Meu marido ainda quer filho. Eu também — eu acho — mas alguma coisa ficou complicada de explicar pra mim mesma desde 2024.
A vizinha vai se mudar em junho. O marido dela conseguiu Lisboa.
Eu vou ficar. Vou ficar e vou ter o filho, porque é o que a minha vida real espera. Mas vou guardar o quinto andar como um lugar que existiu.
Foi isso que aconteceu. Falei. Agora é seu também.
Sua confissão entra no canal aberto em xaplin.com.br/a-meia-luz/queime/ — só o texto, sem nome, sem email, sem IP. A gente edita pra publicar. A gente não te identifica. Fica entre nós.
Eu nunca falei isso pra ninguém antes desse parágrafo. Eu olho o pé das mulheres na rua — e eu sou mulher também. Sandália de salto baixa, dedos pintados, calcanhar levemente sujo do dia, um pequeno calo no dedão. É aí que eu paro. O pé de quem foi pra balada uma semana antes e ainda tem aquela marca onde a tira da sandália apertou. Pra mim isso é mais erótico que qualquer outro pedaço.
Não é fetiche de subjugação. Eu não quero lamber, eu não quero adorar. Eu quero olhar. Quero que a outra pessoa tire o sapato em algum momento da noite, sem perceber que tirou, e fique com o pé descalço em cima do meu sofá, e converse sobre outra coisa qualquer.
Acho que ninguém vai entender. Tudo bem. Eu já contei.
L., 33, advogada
Eu tenho um fetiche por sotaque nordestino. Especificamente cearense. Especificamente do interior do Ceará. Quanto mais "ói" e "eita" e "véi", melhor. Eu sou paulistano, branco, criado em Higienópolis, faço análise há nove anos, sei que isso tem várias camadas problemáticas. Eu sei. Não dá pra fingir que não sei.
Mas se uma mulher me liga no Tinder e o sotaque é forte, eu já estou meio dentro antes de saber o nome dela. O nome de família. A profissão. A altura. Não importa. O sotaque já fez metade.
Eu já me peguei pedindo pra ela continuar falando enquanto a gente fazia outra coisa. Foi o melhor pedido que eu já fiz na vida.
P., 38, publicitário
Tem uma voz específica que eu preciso. Não é tipo voz grave, não é voz rouca, não é voz suave. É um lugar no meio que eu não consigo descrever sem ouvir. Quando aparece — em uma reunião de trabalho, num podcast, na atendente do banco — meu corpo inteiro presta atenção antes do meu rosto.
Meu marido tem essa voz. Foi por isso que eu casei com ele. (Outras razões também, mas essa primeiro.) Treze anos depois, eu ainda peço que ele me ligue do andar de baixo quando está atrasado, só pra eu ouvir um pedaço da voz dele antes dele chegar.
Ele não sabe disso. Sabe que eu peço pra ele me ligar. Não sabe que eu termino com a voz dele no ouvido mais vezes do que com o resto do corpo dele em cima.
M., 41, médica veterinária
Meu marido é militar da reserva. Saiu do Exército em 2019. Ele tem um armário inteiro de uniformes guardados num porta-trajes. A gente tem uma combinação a cada três ou quatro meses — ele tira o uniforme do armário, veste, e me chama no quarto.
Não importa o que aconteceu durante o dia. Não importa se a gente brigou de manhã. Quando ele aparece naquele uniforme, eu volto a ser a mulher de 27 anos que casou com aquele homem em 2014.
Ele se acha bobo por isso. Eu acho que ele acertou em casar comigo justamente porque ele faz isso. A vida casada é uma coleção pequena de coisas que só vocês dois sabem por que ainda funcionam.
C., 39, jornalista
Sou médica. Anestesista. Esse fetiche não passa por ninguém — passa só por mim e por uma versão imaginária minha que eu construí na residência e que ainda vive na minha cabeça aos quarenta e três.
A versão imaginária é assim: plantão noturno, hospital quase vazio, dois andares acima da UTI. Sala de procedimento sem ninguém. Aquela luz fria que faz tudo parecer cirúrgico mesmo quando não é. Eu não estou sozinha. Quem está comigo nessa fantasia é diferente em diferentes versões. Às vezes é meu marido. Às vezes é alguém da residência que eu conheço há vinte anos e nunca toquei. Às vezes é uma versão indeterminada de mim mesma com vinte e seis.
Eu nunca realizei. Eu não tenho intenção de realizar. A fantasia faz seu trabalho exatamente onde está, dentro da minha cabeça, na luz fria que ninguém precisa ligar.
V., 43, médica
Eu sonho com bibliotecas. Especificamente uma biblioteca pública grande, de prédio antigo, com aquele cheiro de papel velho que nenhum perfume reproduz, e o som das pessoas folheando coisas longe, abafado. Eu sonho que a gente fica num corredor de prateleiras altas, perto do final, onde nenhum funcionário passa há horas. Risco máximo de ser pego. Mínimo barulho. Tudo muito controlado.
Conversei com uma vez sobre isso, numa primeira noite. Ela achou estranho. Eu entendi. Não falei mais com ninguém.
Hoje eu acho que o fetiche não é por biblioteca. É por silêncio cobrado. Por o som ter que ser pequeno, controlado, contido, segredo. É o oposto de tudo que o resto da vida pede.
D., 34, arquiteto
Seu inventário entra em xaplin.com.br/a-meia-luz/inventario/ — 80 a 300 palavras, sem nome, sem email. Falei, estou leve.
An-Nafzawi viveu no início do século XV no que hoje é a Tunísia. Estudou teologia em Túnis e, segundo conta o próprio prefácio do livro, foi convidado pelo vizir Mohamed ben Aouana a escrever o Ar-Rawḍ al-‘Āṭir — "O Jardim Perfumado para o Recreio do Espírito" — entre 1410 e 1434. Tratado escrito por um homem religioso a pedido de um governante, com o objetivo declarado de instruir adultos sobre o prazer dentro do casamento, e — sem cerimônia — fora dele também. Sobreviveu em manuscritos árabes e ganhou fama mundial pela tradução francesa de Robert Burton, em 1886, distribuída em edições limitadas até 1937. O livro era proibido em vários países europeus até os anos 1960.
Está aqui não porque seja "exótico" — está aqui porque é canon. A erótica literária ocidental tem em an-Nafzawi um avô discreto. Ele descreve o que descreve com a mesma seriedade técnica de um manual de jardinagem, e é isso que o torna sensual sem ser explícito no sentido moderno — quando a forma é grave, o conteúdo respira.
Trechinho abaixo, tradução livre da nossa mesa a partir das edições Burton (inglesa) e Khawam (francesa, 1976).
Disse-me Sidi al-Bukhari, que Deus tenha em sua misericórdia, que entre tudo o que se aproxima da boca da mulher amada — o ar do quarto, o aroma de jasmim que ela mesma traz dos pátios, o copo que ela leva aos lábios, a colher que recebe da cozinheira — nenhuma coisa se aproxima com mais cerimônia do que a outra boca.
A primeira aproximação não é com a boca: é com o olhar. Quem olha demais antes do beijo, não beija. Quem olha de menos, beija mal. O olhar deve ser breve, atento, e deve recuar — pois é no recuo que a boca dela compreende que pode se adiantar.
A segunda aproximação é com a respiração. Antes que os lábios se toquem, há entre eles uma distância de três dedos onde apenas o ar dos dois se mistura. Quem ignora essa distância e atravessa cedo demais, oferece à mulher a sensação de invasão, e ela se retira mesmo permanecendo. Quem permanece nessa distância tempo demais, oferece a sensação de hesitação, e ela perde o desejo. A medida certa é o tempo de três respirações pausadas.
A terceira aproximação é o toque do lábio inferior dela com o lábio superior teu — apenas. Não com a língua. Não com pressão. Apenas o repouso de um sobre o outro, como duas folhas que se encontram na superfície do mesmo riacho. Permanece assim por tempo de duas respirações.
Sabe quem trata uma boca com essas atenções que está tratando da pessoa inteira. Sabe quem trata uma boca com pressa que está tratando-se a si próprio.
Da minha experiência, e tenho idade para falar disso, recomendo aos jovens que decorem essa instrução acima da maioria. A juventude tem pressa em tudo; em nada essa pressa custa mais.
An-Nafzawi escreve com a calma de quem sabe que o leitor vai chegar nas páginas mais explícitas do tratado em algumas dezenas de páginas. Por isso ele se dá ao luxo de demorar cinco parágrafos no beijo. A pressa pornográfica do nosso tempo perdeu essa cerimônia. À Meia-Luz quer recuperar exatamente essa demora — não por nostalgia, e sim porque a demora é onde mora o que faz erotismo erótico.
Próxima edição: fragmento de Anaïs Nin, dos diários inéditos publicados em 1986 pela Harcourt.
Eu tinha pedido um Uber pra casa às duas da manhã de uma quinta-feira de outubro. Eu sei a data porque era duas semanas antes do aniversário do meu marido e eu tinha ficado tarde no escritório fechando uma apresentação que ele cobrou de mim depois — não a apresentação, mas o tempo. Tudo bem. A gente já estava brigando há um mês de qualquer jeito.
O motorista chegou no carro branco com câmbio manual, raro no aplicativo. Ele desbloqueou a porta sem olhar. Eu sentei atrás. Disse "boa noite". Ele respondeu "boa noite" sem virar. A primeira coisa que eu percebi foi o cheiro — algum perfume amadeirado misturado com café frio. A segunda coisa foi a cor do casaco que ele estava usando, marrom, costurado à mão no punho com linha mais clara, mas só dava pra ver isso na luz do farol.
A gente conversou. Eu não lembro como começou. Eu lembro que ele me contou que tinha sido professor de matemática até 2019, que largou pra cuidar do pai com Parkinson, que o pai morreu em 2022, que ele nunca mais conseguiu voltar pra escola. Eu contei que era arquiteta, que estava casada há nove anos, e que a apresentação que eu tinha acabado de fazer era pra um cliente que eu sabia que ia recusar.
A gente falou meia hora. O endereço de casa é quinze minutos.
Quando ele estacionou, ele virou pela primeira vez. Tinha cinquenta anos. Olho azul-acinzentado, dois daqueles cabelos brancos que homem mais novo cobre e que homem mais velho não toca mais. Aliança no anular esquerdo. Mãos grandes no volante. Ele falou: "obrigado por essa conversa".
Eu falei: "obrigada".
Eu saí, fechei a porta com calma, andei até a portaria. No elevador, percebi que estava com o coração acelerado.
Esse Uber foi em outubro. Estamos em maio. Eu separei do meu marido em janeiro.
O motorista não tem nada a ver com a separação. A gente nunca se viu de novo, não trocou número, não tem nome. Mas eu lembro do casaco marrom. Eu lembro da linha mais clara no punho. Eu lembro que pela primeira vez em quatro anos um homem virou pra trás e me viu como pessoa em vez de me ver como esposa.
Eu acho que foi isso que eu precisei saber.
A gente trabalhou no mesmo andar durante cinco anos sem que tivesse acontecido nada. Ele em uma empresa, eu em outra, prédio comercial em São Paulo, vinte e três andares, elevadores cinza que sempre demoravam. Eu sabia o nome dele porque uma vez ele atendeu uma encomenda errada que era pra mim. Ele sabia o meu porque eu paguei o café dele uma vez, quando a maquininha dele falhou na padaria do térreo.
Era sexta. Sete e quarenta da noite. Quase ninguém mais no prédio. O elevador parou entre o sétimo e o oitavo andar. Ficou parado seis minutos. Não dezesseis. Seis minutos exatos — eu olhei no relógio depois.
Nos primeiros dois minutos a gente ficou em pé, olhando o painel, fingindo que ia voltar a funcionar. Nos próximos dois minutos, ele se sentou no chão e perguntou se eu queria sentar também. Eu sentei.
Foi nos últimos dois minutos.
Ele não me beijou. Eu não beijei ele. A gente ficou sentado de pernas esticadas, o ombro dele encostado no meu, e ele perguntou se eu já tinha pensado em mudar de prédio. Eu disse que sim. Ele falou que também. Eu perguntei por quê. Ele virou o rosto. Ficou tão perto que se eu inclinasse meio centímetro a gente se tocava. Não inclinei.
Ele não inclinou também.
O elevador andou. A gente levantou. A porta abriu no oitavo andar. Ele saiu primeiro. Acenou. Eu desci no térreo.
Segunda-feira ele tinha pedido transferência pra Belo Horizonte. Eu nunca mais o vi.
Eu penso nele uma vez por mês, em média. Penso especificamente nos seis minutos. Penso se eu tivesse inclinado meio centímetro o que teria mudado da minha vida.
Eu acho que a resposta é nada. E acho que é por isso que eu ainda penso.
Foram quatro anos. Comecei a cortar o cabelo com ela em 2019 por indicação de uma amiga. Salão pequeno em Pinheiros, três cadeiras só, paredes verdes, uma janela alta. Ela tinha o cabelo curto, pintado de cinza-prata, sempre usava bata. Trinta e nove na época. Eu trinta e dois.
A primeira vez que ela passou a mão na minha cabeça pra dividir os fios, eu fechei os olhos. Foi um reflexo. Cliente fecha o olho com mãos boas no cabelo. Não significa nada.
Na segunda vez, eu já estava esperando o momento dela passar a mão. Não significa muita coisa também, mas significa um pouco.
Na sexta visita, ela perguntou se eu queria um chá. Trouxe ela mesma. Sentou na cadeira ao lado enquanto eu bebia. A gente conversou trinta minutos sobre nada. Eu paguei e fui embora.
Levou três anos pra acontecer.
Foi uma terça à noite. Salão fechado, ela tinha aberto pra mim porque eu tinha pedido um corte de emergência antes de uma viagem. Quando ela terminou de cortar, ela tirou o pano dos meus ombros e ficou em pé atrás de mim, olhando o resultado no espelho. Eu olhei pra ela no espelho. Ela olhou pra mim no espelho.
Foi tudo no espelho. Ninguém virou.
Ela disse "ficou bom". Eu disse "ficou".
Aí ela curvou levemente o pescoço, encostou a têmpora dela no topo da minha cabeça, e ficou assim por um tempo que eu não sei medir. Não foi um beijo. Não foi um abraço. Foi outra coisa, ainda sem nome.
Eu sou casada. Sou casada com homem. Continuo sendo. A barbeira sabe disso desde o primeiro corte — eu sempre falei da minha família, ele aparece de vez em quando no salão, pega encomenda, paga, beija minha bochecha, vai embora.
A barbeira nunca foi mais longe que aquela têmpora encostada na minha cabeça. Eu também não pedi mais.
Faz dois anos. Continuo indo. Cinco semanas entre cada corte. Sempre na terça. Sempre o chá. Sempre o espelho.
Sei que tenho isso. Não preciso de mais.
Pequenas Cenas publica três cenas por edição. Mande a sua via xaplin.com.br/a-meia-luz/cenas/ — 300 a 500 palavras, primeira pessoa, momento erótico vivido. Fica entre nós.
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Poesia Convidada
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