Rayan, 19 anos, e o peso de carregar o futuro
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma crueldade específica em ser jovem demais para ter culpa e velho o suficiente para carregar a derrota.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma crueldade específica em ser jovem demais para ter culpa e velho o suficiente para carregar a derrota. Rayan tem 19 anos, virou titular de Carlo Ancelotti durante a Copa, e agora escreve nas redes sociais que sai "mais forte, mais experiente" de um torneio que terminou para o Brasil na 11ª posição — a segunda pior campanha da história, perdendo apenas para o vexame de 1934, quando a seleção foi eliminada na fase de grupos e voltou para casa no décimo quarto lugar.
O comunicado do atacante tem a forma de um jovem que aprendeu a falar antes de aprender a processar. "Isso não é o fim, é só mais um capítulo da caminhada." É uma frase bonita. É também uma frase de quem ainda tem tempo sobrando — e sabe disso. Em 2030, Rayan terá 23 anos. A janela está aberta. O problema é que a janela de uma geração inteira foi fechada no domingo passado, numa derrota de 2 a 1 para a Noruega nas oitavas de final, e nem todos que estavam nesse grupo estarão de volta para tentar de novo.
Mas o que interessa aqui não é o texto do menino — é o que ele revela sobre o estado da seleção. Que um jogador de 19 anos tenha se tornado titular durante o torneio é, dependendo do ângulo, sinal de renovação ou sinal de desespero. Provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo, como costuma acontecer quando uma equipe não encontra soluções nos homens que deveria ter prontos.
"Saio dessa Copa com a cabeça erguida, mais forte, mais experiente e com ainda mais vontade de voltar. Isso não é o fim, é só mais um capítulo da caminhada."
Tem algo de verdadeiro aí, e algo de ensaiado. O esporte forma essa estranha retórica nos atletas — a da derrota como investimento, do fracasso como pedagogo. Às vezes é real. Às vezes é a única coisa que se pode dizer quando a dor ainda está quente demais para ser honesta. Rayan não é obrigado a ter mais do que isso por enquanto. Ele tem dezenove anos.
O que a seleção é obrigada a ter — e não demonstrou ter em 2026 — é uma estrutura que não dependa de que um menino cresça rápido o suficiente para salvar adultos. A segunda pior campanha da história não nasce de uma partida, nem de um jogador, nem de um técnico. Nasce de um acúmulo. De decisões, omissões, ciclos interrompidos, projetos sem continuidade.
Rayan falou em voltar para o ciclo de 2030. É justo que ele queira. É justo que ele sonhe. O que não é justo — e aí a responsabilidade não é dele — é que a única narrativa de esperança que o Brasil tem para oferecer depois de mais uma eliminação precoce seja a de um garoto de 19 anos prometendo que vai crescer. O país do futebol merecia mais do que apostar no amadurecimento de quem ainda está começando. Mas é o que tem. E, por ora, é o que ele carrega.
Marcos Tibúrcio, Xaplin Esporte
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge