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Levantamento mostra dados ocultos sobre medo nas eleições

Pesquisa de Murilo Medeiros, cientista político da UnB, revela que 70% das eleições realizadas apresentam padrões relacionados ao medo eleitoral.

Levantamento mostra dados ocultos sobre medo nas eleições

Análise · Beatriz Fonseca

O levantamento de Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília, registra que 70% das eleições realizadas na América Latina desde 2023 foram vencidas por candidatos que colocaram segurança pública no centro da campanha. O número circula agora com a velocidade de uma afirmação que confirma o que todo mundo já suspeitava. E é exatamente aí que o cuidado começa.

Correlação eleitoral não é causalidade programática. Candidatos que vencem com o tema da segurança não vencem necessariamente porque têm propostas melhores de segurança — vencem porque conseguiram ocupar o campo semântico do medo antes que o adversário o fizesse. A diferença importa. Uma leva a políticas públicas; a outra, a mandatos.

A América Latina que o dado descreve é a de um ciclo específico: El Salvador de Nayib Bukele formalizando estado de exceção em 2022 e sendo reeleito em 2024, Argentina elegendo Javier Milei com violência urbana e insegurança como pano de fundo implícito, Equador conduzindo eleições antecipadas após o assassinato de Fernando Villavicencio em 2023. São contextos tão distintos entre si que agrupá-los sob um único percentual exige cautela metodológica. O dado de Medeiros merece leitura — mas também merece a pergunta sobre quais eleições foram incluídas, como se definiu "usar segurança como tema" e o que se considerou vitória eleitoral em sistemas com segundo turno.

Dito isso, há algo estrutural que o número capta, mesmo que de modo aproximado. A urbanização acelerada, a fragilidade dos sistemas de justiça criminal e a expansão das organizações criminosas transnacionais criaram, nas últimas duas décadas, uma demanda eleitoral por ordem que os partidos tradicionais — tanto de esquerda quanto de direita — em geral não souberam endereçar com suficiente clareza programática. O vácuo foi preenchido por lideranças que ofereceram diagnóstico simples e linguagem de confronto. Bukele é o caso mais estudado, mas não é o único.

Para o Brasil, o dado chega em momento de organização de calendário. Em 2026, o governo Lula enfrentará a disputa com uma agenda econômica que ainda não produziu narrativa eleitoral consolidada, e uma oposição que, desde 2022, testou e continua testando variações do repertório punitivista. A pergunta que o levantamento de Medeiros coloca, sem respondê-la, é se um governo capaz de apresentar resultados em segurança pública — e não apenas em discurso — consegue neutralizar esse campo ou se a gramática da ordem já migrou estruturalmente para o lado do adversário.

Nomear o medo é uma operação política. Governar o medo é outra. A eleição costuma premiar quem faz a primeira; o mandato cobra quem não soube fazer a segunda.

O que o número de Medeiros abre, no fundo, não é uma certeza sobre como se ganha eleição na América Latina. É uma pergunta sobre que tipo de mandato se produz quando a vitória foi construída sobre a gestão simbólica da violência — e o que acontece quando a realidade apresenta a conta.

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Segurança pública define 70% das eleições na América Latina

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL