Três em cada dez crianças brasileiras enfrentam múltiplas ameaças climáticas
Crianças e adolescentes brasileiros vivem expostos a pelo menos três ameaças climáticas simultâneas, revelando desigualdade na vulnerabilidade ambiental.
Análise · Dra. Camila Torres
Três em cada dez crianças e adolescentes brasileiros já vivem expostos a pelo menos três ameaças climáticas simultaneamente. O número é do Unicef — seu Relatório de Risco Climático das Crianças 2026 —, e a escolha da palavra "ameaça" não é retórica. Em epidemiologia, chamamos de exposição múltipla o estado em que um organismo enfrenta ao mesmo tempo mais de um agente de dano. O que o relatório descreve, portanto, não é poesia de ativismo. É uma condição de vulnerabilidade cumulativa com consequências mensuráveis sobre corpos em desenvolvimento.
A infância não é uma fase apenas psicológica ou social. É um período de janelas biológicas abertas: sistema nervoso central em maturação, eixo imunológico ainda calibrando respostas, pulmões cujo desenvolvimento alveolar se completa apenas após os oito anos. Calor extremo, enchentes, seca, ciclones — cada uma dessas oito ameaças mapeadas pelo Unicef afeta o corpo de uma criança de modo distinto e, em muitos casos, desproporcional ao que causa em adultos. A exposição ao calor intenso, por exemplo, compromete a termorregulação em lactentes com eficiência muito menor do que em adultos; a inalação de partículas finas durante queimadas incide sobre vias aéreas menores e mais reativas. Sobrepor três ou mais dessas condições sobre um único organismo em formação não é somar riscos: é multiplicá-los.
Há um segundo plano que o dado do Unicef ilumina sem que os títulos de manchete costumem notar. As ameaças climáticas não se distribuem ao acaso pelo território brasileiro — nem, dentro de cada território, ao acaso pelas famílias. Inundações chegam às várzeas ocupadas por quem não pôde escolher outro lugar. Secas prolongadas pesam mais sobre crianças cuja única fonte de água é um açude. O mapa climático e o mapa da desigualdade se sobrepõem com uma precisão que envergonha a ideia de que a crise do clima seja um problema universal e igualmente compartilhado.
A vulnerabilidade não é distribuída pela natureza. Ela é distribuída pela história.
Isso importa clinicamente porque modifica o prognóstico. Uma criança subnutrida exposta a uma onda de calor tem risco de desidratação grave substancialmente maior do que uma criança bem nutrida na mesma temperatura. Uma criança com anemia falciforme em região de queimadas enfrenta um risco de crise vaso-oclusiva que a estatística agregada não captura. A crise climática, vista pela medicina, é um amplificador de condições preexistentes — e no Brasil, as condições preexistentes se chama desigualdade.
O relatório do Unicef contabiliza mais de um bilhão de crianças no mundo nessa condição de exposição múltipla. A escala pode, paradoxalmente, anestesiar. Um bilhão é um número que o cérebro humano não consegue visualizar — e a incapacidade de visualizar é o primeiro passo para não agir. O que a epidemiologia pode oferecer aqui é o que sempre ofereceu: devolver o número à criança concreta. Três em cada dez crianças brasileiras. Em qualquer sala de aula com trinta alunos, são nove. São os que sentam nas carteiras do fundo, nos cantos, na janela. Estão lá toda manhã. E o clima já chegou antes deles.
Camila Torres é médica e epidemiologista, chefe de Saúde da Xaplin.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Unicef diz que 3 a cada 10 crianças brasileiras enfrentam múltiplas
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil
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