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Ouro Preto Reabre seus Tesouros Verdes

O G1 confirmou em 25 de abril de 2026 a reabertura plena dos parques estaduais de Ouro Preto para visitação pública, marcando um momento…

Bica. — Cultura & Arte

O Fato

O G1 confirmou em 25 de abril de 2026 a reabertura plena dos parques estaduais de Ouro Preto para visitação pública, marcando um momento significativo para o turismo cultural e ambiental de Minas Gerais. Entre os principais atrativos liberados está o Parque Estadual do Itacolomi, uma unidade de conservação que ocupa 5.971 hectares e funciona como pulmão verde da região histórica mineira.

O Parque Estadual do Itacolomi localiza-se em uma zona de transição entre dois biomas importantes: a Mata Atlântica e o Cerrado. Esta característica geográfica singular torna a reserva um laboratório vivo de biodiversidade, preservando centenas de espécies da fauna e da flora que dificilmente encontram-se juntas em outras regiões do Brasil. A equipe de reportagem da TV Globo, conforme documentado pela fotografia de Thâmer Pimentel, esteve presente nas trilhas pedregosas que marcam o acesso ao topo da serra.

O grande destaque da visitação é o Pico do Itacolomi, localizado no ponto mais elevado da reserva. O percurso até o cume totaliza seis quilômetros de caminhada, oferecendo ao visitante uma experiência imersiva em paisagens descritas como "surreais" pela equipe de jornalismo que percorreu o trajeto. Este dado não é trivial: representa uma jornada de aproximadamente duas horas de caminhada moderada, adequada tanto para turistas experientes quanto para amadores com preparo físico básico.

A reabertura insere-se num contexto mais amplo de retomada do turismo em patrimônios naturais brasileiros pós-pandemia. Ouro Preto, conhecida mundialmente por seu acervo histórico — com igrejas barrocas tombadas pela UNESCO e ruas de pedra que remontam ao século XVII — agora expande sua oferta turística para incluir experiências de ecoturismo estruturado. Esta complementaridade entre patrimônio cultural e natural posiciona a cidade como destino completo para viajantes que buscam enriquecer a experiência além dos museus e monumentos arquitetônicos.

A preservação de 5.971 hectares em um estado de Minas Gerais que enfrenta pressões contínuas de desenvolvimento urbano e agrícola representa também uma vitória institucional. A manutenção da reserva durante os anos de restrições pandêmicas, com adequação de infraestrutura para receber visitantes em segurança, demonstra compromisso com a conservação ambiental.

A Análise de André Cavalcanti

Gostaria de ser franco: a reabertura dos parques de Ouro Preto é muito mais que uma notícia de turismo. É um sintoma de que o Brasil está finalmente compreendendo que sua riqueza natural não é luxo cultural para elite urbana — é patrimônio de sobrevivência coletiva.

Passo a passo, desde antes da pandemia, assistimos ao colapso do entendimento público sobre por que florestas importam. Recebemos mensagens contraditórias: ore nos altares de pedra históricos (o que é justo), mas ignore o altar vivo que sustenta cada respiração naquelas cidades coloniais. O Itacolomi, com seus 5.971 hectares de transição entre dois biomas, não é apenas bonito. É funcional. Regula clima local, protege nascentes de água, abrigo para espécies ameaçadas.

O que impressiona — e preocupa — é que precisamos de "atrativos turísticos" para justificar a preservação ambiental. Se o pico não fosse cenográfico, se as trilhas não oferecessem selfies dignificadoras para redes sociais, quantos visitantes viriam proteger suas florestas? A resposta honesta nos constrange.

A natureza não deveria precisar de um belo cartão-postal para merecer existência. Mas em um país onde lucro fala mais alto que consciência, talvez seja a trilha de seis quilômetros o primeiro passo para uma caminhada muito mais longa.

Reconheço aqui o valor estratégico: a reabertura gera emprego — guias turísticos, hospedarias, restaurantes — e canaliza receita para manutenção da unidade de conservação. Não é cinismo administrativo; é pragmatismo necessário. Mas precisamos evoluir desta lógica. O ideal seria um Brasil onde preservar o Itacolomi não dependa de quantos turistas pagam entrada.

A equipe do G1 que caminhou aqueles seis quilômetros pedregosos capturou algo essencial: a possibilidade. A possibilidade de milhares de brasileiros conhecerem (e portanto, defenderem) seus próprios tesouros verdes. Este é o real atrativo. Não o pico. A descoberta.

A verdadeira trilha começa quando voltamos para casa transformados, perguntando: que outras florestas estou ignorando enquanto lutem para existir sem meu consentimento?

André Cavalcanti — Cultura & Arte. Bica., Xaplin.