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Ormuz não é canal: é a frase que Trump quer escrever

Análise · Clara Verdi Há uma lógica que precede Trump e que ele apenas torna audível.

Ormuz não é canal: é a frase que Trump quer escrever
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Há uma lógica que precede Trump e que ele apenas torna audível. Desde que a marinha americana estabeleceu sua presença permanente no Golfo Pérsico — na prática, desde a Guerra das Petroleiros dos anos 1980, quando Reagan mandou navios para escoltar petroleiros kuwaitianos sob bandeira americana —, Washington funciona como o segurança não remunerado das rotas de energia que sustentam a Europa, o Japão, a Coreia do Sul e, de forma crescente, a China. Trump não inventou esse arranjo. Ele apenas decidiu cobrar a conta em voz alta.

A declaração ao Fox & Friends na manhã desta segunda — "seremos os guardiões do estreito, talvez o chamemos de anjo da guarda, e deveríamos ser reembolsados por isso" — tem a gramática de um discurso de proteção mafiosa transposto para a geopolítica de horário nobre. O que é novo não é a pretensão, mas a formulação explícita do pedágio. Nenhum presidente americano havia dito em voz alta o que todos presumiam: que a presença militar no Golfo tem preço e que as nações que dependem do petróleo que passa por Ormuz deveriam pagar esse preço diretamente aos Estados Unidos.

O contexto imediato é de uma escalada que já tem lógica própria. Os EUA atacaram mais de trezentos alvos militares iranianos em três noites. O Irã fechou o estreito — ou declarou tê-lo fechado, já que Washington nega —, reagiu com ataques contra instalações americanas no Kuwait, Bahrein, Catar, Jordânia e Omã, e a Guarda Revolucionária advertiu que interferências contínuas "poderiam levar a incidentes mais graves no setor global de petróleo e gás". Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento iraniano, foi mais direto ainda: "a era dos acordos unilaterais acabou".

O que Trump propõe não é, contudo, apenas tático. É uma reconfiguração semântica do que significa controlar uma rota marítima. O Canal do Panamá, o Canal de Suez — esses foram episódios de soberania negociada, de infraestrutura construída, de tratados que podiam ser invocados. Ormuz é um estreito natural entre Omã e o Irã. Não pertence a ninguém para ser cedido. Declarar-se seu guardião remunerado é inventar uma soberania que não existe no direito internacional para então cobrar por ela — o que é, precisamente, o modelo de poder que Washington sempre atribuiu com horror às potências revisionistas.

A Guarda Revolucionária iraniana foi clara: a única forma de restaurar a navegação seria o encerramento das operações militares americanas no estreito. Trump respondeu com a proposta de administrá-lo indefinidamente. Os dois lados estão, portanto, negociando com propostas mutuamente excludentes — o que não é uma negociação, é uma escalada com vocabulário diplomático.

Para a Europa, que absorve parte significativa do petróleo que transita por Ormuz e que já enfrenta pressões inflacionárias com o bloqueio efetivo da rota, a declaração de Trump coloca uma pergunta desconfortável: pagar pedágio a quem? A um aliado que também cobra tarifas comerciais sobre produtos europeus, que renegociou acordos de defesa e que, durante o primeiro mandato, já havia demonstrado que "aliado" é uma categoria revisável. A lógica do anjo da guarda que apresenta a fatura é uma lógica que a Europa conhece de outras histórias, contadas com outros sotaques. Não costuma terminar bem para quem paga.

Clara Verdi, correspondente Europa — Xaplin

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump diz que EUA vão controlar Estreito de Ormuz e cobrar por isso

Fontes: g1 · CNN Brasil · UOL

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