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Arthur Dias ganha chance na seleção e surpreende Ancelotti

Convocação de Arthur Dias por Ancelotti marca novo ciclo na seleção. Entenda a surpresa e o futuro do zagueiro.

Arthur Dias ganha chance na seleção e surpreende Ancelotti
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

A lista de Ancelotti, a primeira de um novo tempo que ninguém sabe qual será, revelou um nome em letra miúda: Arthur Dias, zagueiro. Dezenove anos. Do Athletico Paranaense. Para quem apenas lê a escalação, um nome. Para quem vive de bola, a história de um corpo que aprendeu a desaprender.

Nascido em Campo Grande, Dias não foi talhado para ser o homem que destrói jogadas. Foi o contrário. No futsal e nos primeiros campos de Mato Grosso do Sul, era atacante. Dono do porte físico que hoje impõe respeito na área, ele usava a altura e a habilidade para um ofício mais nobre, dizem os puristas: o gol. Era o garoto que se esperava ver na frente, decidindo. O futebol, porém, tem seus próprios roteiros, muitas vezes escritos nas entrelinhas de um treino qualquer, na necessidade de um técnico, no acaso.

A transição do ataque para a zaga é uma das mais cruéis e reveladoras do jogo. É pedir a um artista que se torne segurança de museu. O pé que buscava o ângulo agora precisa encontrar o tempo do desarme. A mente que calculava a glória do último toque precisa antecipar a tragédia. Murilo Moreira, o observador que o levou ao Athletico em 2021, não viu nele apenas um jovem alto; viu um projeto de jogador que entendia os dois lados da moeda.

Sua convocação agora, para amistosos contra Austrália e Índia, pode ser apenas um teste, um aceno do treinador italiano a um futuro que ainda nem começou a ser desenhado. Pode não dar em nada. Muitos já vestiram a camisa amarela em jogos assim e depois voltaram ao anonimato das planilhas de desempenho. Mas a trajetória de Arthur Dias tem um drama que falta a outros nomes mais óbvios. Aos dez anos, já jogava com os mais velhos. Na base, aprendeu a saudade da família antes de aprender a marcar um centroavante. O choro ao ouvir o próprio nome na lista de Ancelotti não é a surpresa de quem chegou; é o alívio de quem caminhou muito.

O futebol brasileiro vive de improvisos geniais. Garrincha torto, Leônidas de bicicleta. O zagueiro-artilheiro é uma de nossas lendas. Mas e o atacante-zagueiro? Aquele que sabe, por instinto, o que o outro vai fazer porque um dia ele já esteve lá? É cedo para dizer se Arthur Dias se firmará como este homem. O que se sabe é que o Brasil convocou um defensor que passou a juventude inteira aprendendo a enganá-los.

Agora, ele terá que provar que é melhor em desarmar o truque do que em executá-lo. Qual das duas naturezas vencerá?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Zagueiro Arthur Dias é convocado para amistosos da Seleção

Fonte: ge