O voo vazio e o capitão que voltou sozinho
Análise · Marcos Tibúrcio Às quatro da manhã e quarenta minutos de uma quarta-feira que o Brasil preferiria não ter vivido, um voo fretado da CBF…
Análise · Marcos Tibúrcio
Às quatro da manhã e quarenta minutos de uma quarta-feira que o Brasil preferiria não ter vivido, um voo fretado da CBF pousou no Rio de Janeiro. Dentro dele, entre os vinte e seis convocados para a Copa do Mundo, havia exatamente um jogador. Danilo. O capitão. O mais velho. O que, por alguma razão que só ele sabe explicar, decidiu fazer o caminho de volta com a delegação enquanto os companheiros se dispersavam pelos Estados Unidos em direção a férias ou a aeroportos que levam à Europa.
A imagem não precisa de adjetivo. Ela já é, por si mesma, um argumento.
O voo era opcional — esse é o dado que a CBF fez questão de informar, como quem antecipa a defesa antes do ataque. E de fato, não há crime em um atleta profissional ir direto do torneio para o clube que paga seu salário. A dispersão imediata é prática comum. O que não é comum — o que raramente se viu nessa escala — é uma seleção de vinte e seis homens retornar ao país com um único representante no avião da própria confederação. Não é acusação. É fotografia.
Danilo saiu pelo Salão Nobre, depois mudou de ideia e foi pela saída principal. Não falou com a imprensa. Há algo de simbólico até nisso — o homem que voltou não quis explicar por que voltou. Ou por que os outros não voltaram. Ele simplesmente atravessou o aeroporto e foi embora, sozinho do mesmo jeito que chegou.
Rodrigo Caetano, coordenador executivo, falou em "estabilidade", em "jovens que ganharam minutagem", em "ciclo mais positivo que o anterior". São palavras que fazem sentido numa reunião de planejamento. Às quatro da manhã, no Rio, com um único jogador ao lado, elas soavam como discurso ensaiado para uma plateia que não apareceu.
A eliminação nas oitavas para a Noruega já era o fato duro. O que o desembarque acrescenta não é resultado — é temperatura. Uma seleção que volta de uma Copa do Mundo sem seus atletas, sem torcedores na chegada e com o coordenador técnico precisando defender a continuidade do treinador antes mesmo do café da manhã, está dizendo algo sobre si mesma que nenhum press release vai consertar.
Ancelotti permanece. Caetano garantiu isso, e o próprio técnico já havia sinalizado antes de o avião decolar. Há um argumento razoável na continuidade — ciclos curtos produziram o caos que todos viram no ciclo anterior. Mas argumento razoável e autoridade moral são coisas distintas. A autoridade se constrói no campo, e o Brasil parou nas oitavas.
Danilo vai se aposentar da seleção. Provavelmente foi a última Copa. Se foi, ele encerrou do jeito que viveu o cargo — carregando uma responsabilidade que outros preferiram deixar no portão de embarque. Isso diz algo sobre ele. E diz algo, em sentido inverso, sobre todos que não estavam lá.
O Rio amanheceu sem festa. O aeroporto, sem gente. O voo da CBF, quase vazio. Às vezes, a eliminação não acontece só no placar.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge