O viking sem tranças e a coroa vazia de Manchester
Análise · Marcos Tibúrcio O homem que mandou o Brasil para casa na Copa do Mundo acordou, olhou-se no espelho e decidiu que a coroa não lhe servia…
Análise · Marcos Tibúrcio
O homem que mandou o Brasil para casa na Copa do Mundo acordou, olhou-se no espelho e decidiu que a coroa não lhe servia mais. Pelo menos não a de cabelos longos, as tranças de bárbaro que arrastaram a zaga de Tite para o cadafalso. Erling Haaland, o norueguês de gols industriais, raspou a cabeça. E o fez horas antes de pisar em campo pelo Manchester City, na primeira manhã de uma temporada que já nasce órfã.
Um corte de cabelo é só um corte de cabelo até o dia em que deixa de ser. Para um guerreiro, raspar os fios é um rito. Pode ser luto, pode ser promessa, pode ser a preparação para uma nova batalha. Haaland, com a navalha, comunicou ao mundo o fim de uma era antes mesmo que o novo técnico, Enzo Maresca, o fizesse com a prancheta. O gesto simbólico veio primeiro. A primeira pessoa para quem o atacante exibiu a careca não foi o chefe atual, mas o antigo: uma chamada de vídeo para Pep Guardiola, o arquiteto que deixou o trono para que outros o esquentassem.
A cena tem a força de uma sucessão de reino. O herdeiro, de cabeça raspada como um monge guerreiro, pede a bênção ao rei que abdicou. É um recado para dentro e para fora do vestiário. Para os companheiros, sinaliza um recomeço de folha em branco, sem as glórias e os métodos de Guardiola para ampará-los. Para a arquibancada, que ainda se acostuma com um time sem o catalão no banco, é a imagem de que seu principal soldado está pronto, nu, despojado de vaidades para o que der e vier. Não há mais um gênio para fiar o jogo; há a força bruta de um centroavante.
A cicatriz da Copa
No Brasil, a imagem do novo Haaland reabre uma ferida recente. Foi aquele cabelo comprido, balançando no ar de Dallas, que a memória da arquibancada guarda dos dois gols que nos custaram o sonho. Aquele Haaland era um personagem de saga nórdica. O de hoje, de cabeça lisa e feições duras, parece algo mais frio, mais direto, quase mecânico. Uma máquina de gols que fez um upgrade, descartando o que não era essencial.
Claro, tudo isso pode ser apenas a decisão de um rapaz de 26 anos cansado do xampu. A leitura do drama talvez seja só a nossa, a dos que precisam ver significado em tudo. Mas o futebol vive desses gestos. Maresca assume um City que não é mais o de Guardiola, e seu artilheiro faz questão de parecer um homem diferente daquele que o velho chefe comandava. A bola rola contra o Bournemouth, um adversário de festa, não de guerra. Mas a temporada será longa.
E quando a coroa pesar, quando a ausência de Pep for um fantasma no Etihad, a quem a torcida irá se agarrar? A imagem que fica é a do viking sem tranças, pronto. Para o gol, para a briga, para carregar o peso de um império que mudou de mãos.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge