Uruguai estreia segunda, mas burocracia atrasa preparação
O Uruguai enfrenta obstáculos administrativos na preparação para seu jogo de estreia. A ironia: país que inventou a Copa do Mundo em 1930 agora briga contra a própria burocracia.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma ironia particular em ver o Uruguai — país que deu à humanidade a primeira Copa do Mundo, em 1930, e que a ganhou naquele mesmo torneio improvisado em Montevidéu — preso em papel. Documentação. Exigência da Fifa. O voo para Miami atrasado, a coletiva de Marcelo Bielsa ameaçada de cancelamento, e a estreia contra a Arábia Saudita na segunda-feira já respirando na nuca.
O episódio, em si, pode parecer pequeno. Não é. Não porque seja catástrofe, mas porque revela o peso específico que este torneio carrega para a seleção celeste — e o que significa chegar a ele com qualquer sobressalto, qualquer ruído, qualquer graminho de desvantagem logística antes de a bola rolar.
O Uruguai de Bielsa não é uma seleção de estrelas individuais que absorvem turbulência como quem troca de fone de ouvido. É um coletivo construído sobre rotina, sobre repetição, sobre o método obsessivo de um treinador para quem cada hora de treino é litúrgica. Qualquer coisa que quebre esse rito — um voo atrasado, uma coletiva cancelada, uma noite a menos de aclimatação em Miami — tem peso diferente aqui do que teria em outras delegações.
Bielsa não é treinador de improviso. É treinador de plano. E plano pressupõe tempo.
Há também o contexto maior. O Uruguai chega a esta Copa carregando a memória dolorosa do Catar, onde foi eliminado na fase de grupos pelo fio de um critério de desempate, com quatro pontos e um gol a menos que a Coreia do Sul. A seleção que marcou mais gols naquele grupo e ainda assim foi embora. Bielsa assumiu justamente para reconstruir algo que estava intacto em qualidade, mas fraturado em confiança. A estreia contra a Arábia Saudita é, portanto, mais do que três pontos — é o primeiro teste público de que a reconstrução tem pé.
E aí aparece a burocracia. Não como vilã — erros de documentação acontecem, a Fifa tem processos kafkianos que qualquer delegação pode tropeçar — mas como símbolo incômodo. O torneio ainda não começou para o Uruguai, e já há um obstáculo a contornar. Pequeno, provavelmente superável, mas real.
A seleção vai chegar a Miami. Vai treinar. Vai jogar. Provavelmente vai vencer. Mas a imagem que fica desta quarta-feira é a de um grupo esperando num aeroporto por causa de papel — e de Bielsa, em algum lugar desse aeroporto, olhando o relógio com a expressão de quem sabe exatamente quantas horas perdeu e o que cada uma delas custou.
Na Copa do Mundo, o tempo não espera. Nem pelo Uruguai. Nem pela Fifa resolver o que a Fifa criou.
*Marcos Tibúrcio, Esporte — Xaplin*Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fontes: CNN Brasil · ge