O tigre que ruge em Cali
Análise · Clara Verdi Houve um tempo, não muito distante, em que a política se fazia com gestos medidos e uma liturgia previsível.
Análise · Clara Verdi
Houve um tempo, não muito distante, em que a política se fazia com gestos medidos e uma liturgia previsível. A posse de um presidente ocorria na capital, invariavelmente, porque a capital é a cifra do Estado, o lugar onde o poder se representa antes mesmo de se exercer. Abelardo de la Espriella, ao receber a faixa presidencial em Cali, a centenas de quilômetros do palácio de Bogotá, não apenas quebra uma tradição. Ele encena a sua própria ascensão.
O gesto é tudo. A escolha de Cali não é um detalhe logístico, mas o primeiro ato de um governo que prometeu ser uma ruptura. É uma mensagem enviada não aos diplomatas estrangeiros ou à burocracia da capital, mas às “regiões”, a essa Colômbia profunda que se sentiu esquecida pelo único governo de esquerda de sua história. De la Espriella, que nunca serviu nas Forças Armadas mas faz continência em comícios, entende o poder da imagem. A cerimônia fora do centro do poder é a imagem de um poder que se pretende deslocado, mais próximo da terra e da tropa do que do parlamento. Um poder que sugere uma base militar como palco e se contenta com a capital do Vale do Cauca.
Não há sutileza. O homem que se apelida “o Tigre” e cujo movimento se chama “Defensores da Pátria” governa por significantes. O endurecimento contra o crime, a admiração por Álvaro Uribe, a promessa de megaprisões e de uma relação mais estreita com os Estados Unidos — tudo isso compõe um léxico político conhecido na América Latina, onde a ordem prometida a ferro e fogo soa como música a ouvidos cansados da desordem. A vitória apertada, por uma margem de duzentos e cinquenta mil votos, não revela um mandato popular esmagador, mas a fotografia de um país cindido ao meio. Um país onde quase metade do eleitorado apostou na continuidade de um projeto de esquerda e a outra metade optou pelo seu oposto absoluto.
A oposição, que boicota a posse e convoca manifestações, responde à encenação com a sua própria. Mas o palco principal, por ora, pertence a De la Espriella. Ele não tem maioria no Congresso, um detalhe que a realidade política tratará de lhe impor. Mas a sua primeira vitória não foi sobre os parlamentares ou sobre a constituição. Foi sobre o simbólico.
A questão que fica, enquanto a nova presidência se instala longe do seu endereço formal, não é se o tigre irá cumprir o que prometeu. Mas a quem, exatamente, ele irá devorar primeiro.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Abelardo de la Espriella toma posse como presidente da Colômbia
Fontes: g1 · CNN Brasil