Teto do Aeroporto Simón Bolívar desaba na Venezuela
Análise: O colapso da infraestrutura expõe a crise institucional do país sob o regime de Maduro.
Análise · Clara Verdi
Há uma lógica cruel na imagem: o teto do Aeroporto Internacional Simón Bolívar desabando sobre o saguão enquanto as pessoas correm. Dois terremotos — magnitudes 7,5 e 7,2 — sacudiram a Venezuela, e a estrutura que deveria ser a primeira impressão do país para quem chega, e a última para quem parte, simplesmente cedeu. O terremoto é o fato. O que o teto revela é outra história.
Um aeroporto internacional não é só logística. É uma declaração. Nenhum Estado que funciona deixa seu principal ponto de entrada em condições que um terremoto de magnitude razoável transforma em ruína. A Venezuela de Maduro não chegou aqui de repente: chegou por acumulação, por colapso progressivo de investimento público, por sangria de quadros técnicos que emigraram, por uma economia que encolheu mais da metade em uma década — tudo isso antes de qualquer sismo geológico.
Simón Bolívar, em Maiquetia, já era símbolo de um país suspenso entre o que foi e o que poderia ter sido. O aeroporto carrega o nome do libertador com a ironia que só a história sabe produzir: o homem que sonhou uma América unida batiza o portal de saída de milhões que fugiram precisamente da sua herdeira política.
Um terremoto não cria fragilidade estrutural. Ele encontra a que já existe.
É esse o dado que as imagens do vídeo carregam sem precisar dizer. A câmera não filma uma tragédia natural. Filma a materialização de uma negligência que tem data, nome e endereço. Filma o ponto em que a física encontra a política e a política perde.
Não se trata de instrumentalizar o desastre. Terremotos de 7,5 causam dano em estruturas bem mantidas também. Mas a diferença entre dano e colapso, entre rachaduras e teto no chão, raramente é questão de geologia. É questão de manutenção, de inspeção, de dinheiro público aplicado onde deveria ser aplicado. É questão de Estado.
O que acontece agora importa tanto quanto o que aconteceu. A Venezuela tem capacidade institucional de resposta a uma emergência dessa escala? Tem equipamento, tem pessoal técnico, tem cadeia de comando que funcione além do aparato de controle político? As respostas a essas perguntas, nas próximas horas e dias, dirão mais sobre o país do que qualquer discurso oficial transmitido pela televisão estatal.
A Europa olha para isso de longe, quando olha. A América Latina olha com o reconhecimento desconfortável de quem conhece a gramática: o Estado que abandona a manutenção do ordinário não está preparado para o extraordinário. O teto que caiu no Simón Bolívar não caiu hoje. Caiu ao longo de anos, em câmera lenta, esperando apenas o tremor que tornasse o processo visível.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Teto desaba no principal aeroporto da Venezuela após terremotos
Fontes: g1 · CNN Brasil