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O terror por drone e a aritmética dos mortos

Análise · Clara Verdi Kryvyi Rih, Krasnodar, Bryansk, Luhansk.

O terror por drone e a aritmética dos mortos
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Kryvyi Rih, Krasnodar, Bryansk, Luhansk. A geografia da guerra se escreve agora com nomes de cidades onde o alarme soa tarde demais e a morte chega pelo céu, anônima e precisa, em um zumbido eletrônico. Na sexta, foi um shopping no centro da Ucrânia, quinze corpos sob os escombros de um lugar feito para o consumo e o passeio. No sábado, a resposta: um depósito da varejista online Ozon na Rússia, refinarias, e a mesma contabilidade macabra de civis. Oito mortos, segundo as autoridades de Moscou, incluindo duas crianças na cidade portuária de Yeysk. Crianças aqui, crianças lá.

O comunicado do Ministério da Defesa russo, falando em 457 drones ucranianos abatidos em uma única noite, tem o tom burocrático de quem normalizou o extraordinário. Para a Ucrânia, que chama os ataques a centros logísticos como o da Wildberries ou da Ozon de campanha contra a infraestrutura econômica da guerra, a lógica é a de minar a capacidade russa de sustentar o front. É a guerra total, levada às últimas consequências, onde um armazém de bens de consumo se torna alvo militar legítimo porque dele depende a normalidade da retaguarda.

A simetria, no entanto, é uma ilusão perigosa. Que a guerra se arraste para seu quarto ano e meio não a torna um conflito de espelhos, onde cada ação de um lado apenas reflete a do outro. O ponto de partida foi a invasão russa. A brutalidade inicial, os ataques em larga escala a Kiev — quinze mortos e um hospital infantil atingido há dois dias — estabeleceram o léxico desta violência. O que se desenha, por ora, é uma escalada em que a tecnologia do drone barateou e democratizou o terror, permitindo que a Ucrânia devolva o golpe em uma escala antes impensável.

Zelensky chama os bombardeios russos de “absolutamente cínicos e desprezíveis”, e tem razão. Mas o cinismo tornou-se a atmosfera comum, o ar que se respira de ambos os lados da fronteira. A morte de civis em Belgorod não é menos trágica porque foi causada por um drone ucraniano; o luto de uma família em Yeysk não é um dado geopolítico, é apenas luto. O discurso sobre “atos de terrorismo” perde a força quando a própria resposta adota uma gramática semelhante.

A imagem do shopping destruído em Kryvyi Rih circulará pelo Ocidente como prova da barbárie russa. As fotos dos mortos em Krasnodar alimentarão a narrativa do Kremlin sobre um regime de Kiev sem escrúpulos. E no centro disso tudo, resta uma aritmética de corpos que já não choca ninguém. Quantas crianças mortas equivalem a um centro logístico destruído?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Rússia acusa Ucrânia de matar civis em ataques com drones

Fontes: g1 · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.