O tempo que resta sob os escombros
Análise · Clara Verdi A matemática da catástrofe é sempre a mesma, em qualquer lugar do mundo. Primeiro, a escala do tremor, 7.4.
Análise · Clara Verdi
A matemática da catástrofe é sempre a mesma, em qualquer lugar do mundo. Primeiro, a escala do tremor, 7.4. Depois, a contagem dos corpos, 273. E então, o número que suspende o tempo e a respiração: 377 desaparecidos. Os algarismos, frios e exatos, não dão conta do que se passa em Cali ou Pereira. Não medem a densidade do ar saturado de poeira e de espera. Não descrevem o som das sirenes cortando a noite nem o silêncio que se instala entre uma escavação e outra.
Passada a chamada “janela de ouro” — uma expressão terrível, quase um insulto técnico para as 72 horas em que a vida ainda é estatisticamente provável — a busca muda de natureza. Deixa de ser resgate para se tornar, lentamente, recuperação. Um eufemismo. As equipes que antes procuravam um sopro de vida sob o concreto agora procuram um corpo para devolver a uma família. É uma transição sombria, marcada não por um anúncio oficial, mas pela troca de ferramentas e pelo olhar dos socorristas.
Nesse ritual, a burocracia europeia chega com seu próprio tempo e linguagem. Ursula von der Leyen anuncia um pacote de dois milhões de euros. O gesto é necessário, claro, mas a cifra soa distante, abstrata, diante da imagem de Enrique Marin segurando a bicicleta de sua infância, único objeto que conseguiu reaver da casa onde sua mãe foi encontrada com as chaves ainda na mão. O dinheiro da UE comprará equipamentos, remédios, talvez abrigos temporários. Não compra o tempo que passou. Não devolve o último suspiro.
O poder dos Estados se manifesta nesses momentos com uma clareza brutal. O presidente Abelardo de la Espriella declara “situação de desastre nacional” e garante que a busca continua, um discurso para as câmeras enquanto a realidade no terreno já é outra. O Exército escava. A diplomacia se move. E a vida, para quem sobreviveu, fica paralisada.
A história da Colômbia é feita de abalos, sísmicos e políticos. Mas quando a terra treme, as fraturas são outras, mais íntimas e geológicas. As 150 réplicas registradas desde segunda-feira são o lembrete de que o chão sob os pés nunca é garantido. Cada tremor secundário abala não apenas as estruturas instáveis dos prédios, mas a confiança fundamental no mundo.
Em Pereira, um homem perde a mãe a caminho do hospital. Em Bruxelas, assina-se um cheque. Entre esses dois atos, o que resta do humano?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Terremoto na Colômbia deixa 273 mortos e 377 desaparecidos
Fontes: g1 · CNN Brasil
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