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O telefonema de uma hora na noite de domingo

Análise · Luciano Aragão Um telefonema entre chefes de Estado numa noite de domingo não costuma durar mais de uma hora.

O telefonema de uma hora na noite de domingo
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Análise · Luciano Aragão

Um telefonema entre chefes de Estado numa noite de domingo não costuma durar mais de uma hora. A conversa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu homólogo chinês, Xi Jinping, durou. O comunicado do Palácio do Planalto, distribuído já na madrugada de segunda-feira, listou os temas: inteligência artificial, satélites, terras-raras. O item central, porém, estava no meio da lista. Ambos coincidiram sobre a importância de “acelerar as tratativas para um acordo Mercosul-China”.

Acelerar, em diplomacia, é um verbo de múltiplas interpretações. Pode ser um gesto, um aceno. Ou pode ser um recado com endereço claro do outro lado do Equador. A conversa de Lula e Xi ocorreu quatro dias após as novas tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros entrarem em vigor. O comunicado brasileiro não menciona a medida da Casa Branca. Não precisava.

Um novo eixo no comércio global

A diplomacia presidencial, desde o primeiro mandato de Lula, opera na lógica de construir alternativas. Ao propor a aceleração de um acordo com Pequim, o governo brasileiro movimenta a peça mais relevante do seu tabuleiro. Um tratado de livre comércio entre o bloco sul-americano e a segunda maior economia do mundo reconfigura fluxos de investimento e poder, e não apenas na região. A nota da agência estatal chinesa Xinhua é mais direta que a do Itamaraty. Nela, Xi Jinping diz que a China apoia o Brasil na “rejeição da interferência externa”.

Para Brasília, o gesto oferece uma alavanca. Com o acordo Mercosul-União Europeia paralisado há anos em Bruxelas e as portas comerciais se fechando em Washington, olhar para o Oriente não é mais uma opção, mas uma necessidade estrutural. O governo se compromete com a “diversificação de mercados”, mas a conversa de domingo indica que o principal parceiro já está escolhido. Não se discutem fertilizantes e beneficiamento de minerais críticos com um sócio eventual.

A hora gasta ao telefone sugere uma convergência que vai além do pragmatismo comercial. Trata da implementação de “sinergias entre os projetos nacionais de desenvolvimento”. Para quem acompanha os corredores do poder em Brasília, a mensagem é clara: enquanto o Ocidente debate tarifas, o Brasil e a China discutem o futuro. E fazem isso sem pressa, em uma longa conversa de domingo à noite.

Luciano Aragão

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Lula e Xi Jinping conversam sobre acordo Mercosul-China

Fontes: CNN Brasil · UOL