O telefone das Laranjeiras
Análise · Marcos Tibúrcio O apito final da Copa do Mundo, em algum estádio de vidro e aço na América do Norte, é também um sinal de partida…
Análise · Marcos Tibúrcio
O apito final da Copa do Mundo, em algum estádio de vidro e aço na América do Norte, é também um sinal de partida nas Laranjeiras. Acabou a trégua. O calendário agora é o do mercado, e a diretoria do Fluminense senta-se à mesa não para ver a bola rolar, mas para esperar o telefone tocar. A espera é um drama em si, um misto de necessidade e pavor que a arquibancada conhece bem.
O nome que assombra e alimenta a esperança, como só os predestinados conseguem, é o de John Kennedy. O rapaz que deu a América ao clube em 2023 é cobiçado pela Lazio, de Roma. A proposta ainda não existe, é uma sombra, um sussurro transatlântico que pode se materializar a qualquer momento e levar embora o imponderável. Para o tricolor que paga ingresso, vender John Kennedy não é uma transação financeira; é vender um pedaço da memória, um instante de glória que ainda nem amarelou.
A diretoria, por sua vez, lida com a urgência dos boletos. Vê um elenco recheado de nomes “vendáveis”, como se fossem prateleiras de um empório. Canobbio, por exemplo, voltou do Mundial com a camisa celeste do Uruguai, uma vitrine que encarece o passe e acelera o adeus. Mas o futebol não se resume à lógica do balanço. Desfazer um time no meio da temporada, com oitavas de final de Libertadores e Copa do Brasil batendo à porta — incluindo um clássico contra o Vasco —, é como trocar o pneu com o carro em movimento. Uma manobra de risco que pode custar o ano.
A saída do volante Bernal para o Real Betis, por uma cifra que enche os cofres, já foi o aperitivo. É o prenúncio do que pode vir. O clube se equilibra numa corda bamba: precisa do dinheiro para sobreviver, mas precisa dos jogadores para vencer. E a vitória é o que, no fim das contas, justifica a existência de um clube de futebol. Sem ela, o dinheiro da venda de hoje será insuficiente para pagar os prejuízos do fracasso de amanhã.
A bola, agora, está com os homens de gravata. A eles cabe a tarefa de atender às ligações e decidir o destino de heróis e coadjuvantes. Ao torcedor, resta o papel de sempre: torcer. Torcer para que as propostas não cheguem. Ou, se chegarem, que o preço pago pela ausência de um ídolo não seja a alma do time.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge