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Atletas anônimos impulsionam sucesso do esporte brasileiro

Muitos atletas anônimos são essenciais para o esporte brasileiro, trabalhando longe dos holofotes e garantindo o alto desempenho nacional.

Atletas anônimos impulsionam sucesso do esporte brasileiro
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Há um mapa-múndi particular que o esporte brasileiro desenha, longe dos holofotes do Azteca ou das planilhas de desempenho que técnicos engravatados exibem em coletivas. É um mapa traçado a braçadas, pedaladas e raquetadas solitárias. Neste sábado, duas novas capitais foram fincadas neste território: Alhandra, em Portugal, e alguma quadra na imensidão da China.

Em Portugal, uma mulher chamada Erica Rodrigues correu, nadou e pedalou. Correu por cinco quilômetros, nadou por 750 metros e pedalou por outros vinte. Sozinha. Ao cruzar a linha de chegada, o cronômetro marcava 1h07min31s. A espanhola que veio atrás, Maria Fuentes Artigot, só apareceu no horizonte três minutos depois. Três minutos. Na vida comum, é o tempo de um café. No esporte de alto rendimento, é uma eternidade, uma distância que humilha qualquer adversário. Erica não precisou de arquibancada. Ela foi a sua própria multidão.

Do outro lado do globo, um homem de baixa estatura, Vitor Tavares, entrou num ginásio chinês para enfrentar um atleta da casa, Lin Naili. O ambiente, pode-se supor, não era exatamente um Maracanã em dia de Fla-Flu torcendo pelo brasileiro. Vitor perdeu o primeiro set. A derrota parcial, longe de casa, costuma ser o roteiro da desistência. Mas há atletas que carregam a própria pátria dentro do peito. Vitor virou. Venceu os dois sets seguintes e subiu no lugar mais alto de um pódio erguido em território estrangeiro, com o ouro que já anunciara em Paris, com o bronze de 2024.

A vitória como hábito

O ouro de Erica e Vitor não é acaso, assim como não foram as pratas e os bronzes de Ruiter Silva, Lucas Rodrigues ou Kauana Beckenkamp. Há uma ética silenciosa nesses resultados, um trabalho que não vira notícia na véspera, apenas no dia da consagração. Não há drama pré-fabricado, não há entrevista sobre a pressão. Há o fato nu e cru: o corpo levado ao limite, a disciplina que transforma deficiência em potência, o treinamento que floresce em medalha.

Esta leitura, claro, corre o risco de romantizar o que é, antes de tudo, método e repetição. Outro analista, mais frio, talvez apontasse para o nível técnico das competições ou para a entressafra de adversários. Pode ser. O esporte permite múltiplas verdades. Mas os números não mentem sobre a distância de Erica para a segunda colocada, nem sobre a virada de Vitor na casa do oponente.

O Brasil que verá a Copa do Mundo em casa parece, por vezes, esquecer-se desses outros atletas que vestem a mesma camisa. Eles não disputam os mesmos milhões, nem a mesma atenção. Disputam algo mais antigo, talvez mais puro. E vencem.

Enquanto o país se prepara para o espetáculo de 2026, Erica e Vitor, em silêncio, já nos deram o ouro. Que tipo de torcida seremos nós se só soubermos aplaudir quando as luzes estiverem acesas?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil ganha ouro no paratriatlo em Portugal e parabadminton na China

Fonte: Agência Brasil