O silêncio nos corredores de Moscou
Análise · Clara Verdi Os corredores estão silenciosos.
Análise · Clara Verdi
Os corredores estão silenciosos. A frase de Dmitry Muratov, prêmio Nobel da Paz, sobre a redação do Novaya Gazeta não é uma metáfora, é uma constatação física do fim de uma era. “Não existe mais jornal”, ele diz. Na Moscou de Vladimir Putin, o silêncio não é apenas a ausência de som; é uma política de Estado, construída sobre decretos que estatizam máquinas de impressão e cassam registros, mas sobretudo sobre o medo que preenche o espaço deixado pelas vozes dissidentes.
A história da Rússia pós-soviética pode ser contada pela trajetória do Novaya Gazeta. Fundado há mais de trinta anos, no terreno incerto que se abriu com a queda da União Soviética, o jornal se tornou o que o poder mais detesta: uma memória incômoda. Suas páginas registraram a corrupção de altos escalões e as violações de direitos humanos, um trabalho que custou a vida de seis de seus jornalistas, entre eles Anna Politkovskaya, assassinada por suas reportagens sobre a guerra na Chechênia.
O número agora apresentado por Muratov — 1,5 mil presos por se manifestarem contra as políticas do governo desde o início da “operação militar especial” — precisa de contexto histórico para revelar sua dimensão. Em 1975, o dissidente Andrei Sakharov, ao receber seu Nobel, conhecia de nome pouco mais de 120 presos políticos. Nos anos mais duros da KGB, o número triplicaria, mas ainda assim não alcançaria a cifra atual. A repressão de hoje não é um eco do passado soviético. É uma amplificação. As ferramentas são outras: não apenas a prisão, mas a asfixia legal, a classificação de qualquer um com influência pública como “agente estrangeiro”, “extremista” ou “terrorista”. Rótulos que isolam antes de encarcerar.
A medalha do Nobel de Muratov foi leiloada para apoiar refugiados ucranianos, um gesto que conecta a sorte de seu jornal à do país invadido. A guerra no exterior justifica a guerra interna contra a liberdade. Enquanto o site do Novaya Gazeta só pode ser acessado via VPN, como uma mensagem clandestina, a realidade palpável é a de uma redação vazia em Moscou.
O que se ouve quando um jornal é silenciado? Apenas o ruído oficial, a narrativa única, a paz dos cemitérios. A paz que Oslo jamais premiaria.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Nobel da Paz diz que Putin já prendeu 1,5 mil críticos na Rússia
Fontes: g1 · BBC News Brasil