O silêncio e o Estado
Análise · Clara Verdi O grito de um resgatista no meio dos escombros de Pereira — “¡Hay vida!” — é o instante em que a comunidade se refaz.
Análise · Clara Verdi
O grito de um resgatista no meio dos escombros de Pereira — “¡Hay vida!” — é o instante em que a comunidade se refaz. Não se trata apenas de esperança, mas de um ato político primordial: a afirmação da vida contra a matéria inerte. Ao redor, centenas de voluntários, bombeiros e policiais erguem os punhos, pedindo silêncio. O silêncio não é ausência; é uma ferramenta. É a escuta atenta, coletiva, que precede a ação do Estado e da sociedade civil quando a terra rasga a normalidade.
O terremoto que atingiu o Eje Cafetero colombiano expõe a arquitetura da resposta a uma catástrofe. Nos primeiros momentos, antes que as máquinas pesadas cheguem e o poder central organize a reconstrução, o que existe é o corpo. Corpos que formam correntes humanas para remover o concreto, como em Cali; corpos que se calam para permitir que os equipamentos de escuta captem um sinal. Punhos cerrados no ar não são um símbolo de protesto, mas de concentração. Um apelo a uma disciplina comunal urgente. É a política em seu estado mais elementar: um grupo de pessoas organizando-se para salvar outras.
Apenas depois deste ritual de escuta e esforço braçal é que a outra linguagem, a do governo, se impõe. Abelardo de La Espriella, presidente há apenas três dias quando o chão tremeu, fala em fundo emergencial, em reconstrução de infraestrutura, em decreto de emergência econômica. É o léxico da administração, do poder que promete restaurar a ordem. Mas suas palavras chegam quando a janela crítica de 72 horas para encontrar sobreviventes começa a se fechar. O tempo do Estado não é o tempo do corpo soterrado. O primeiro lida com orçamentos e logística; o segundo, com o oxigênio que se esvai.
A imagem que fica de Pereira não é a do pronunciamento oficial, mas a da multidão imóvel, em suspenso, aguardando um barulho sob uma farmácia e uma padaria que não existem mais. É o instante em que a soberania não reside no palácio presidencial, mas no ouvido atento do bombeiro que grita: “Se alguém me escuta, faça algum barulho”.
Nesse silêncio, o que se ouve é a fragilidade de tudo o que se constrói sobre a terra. E a pergunta que resta, depois que o último sobrevivente for encontrado ou o último corpo recolhido: o ruído das máquinas de reconstrução será capaz de abafar o som da ausência?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil