O Senado de SP que o governo Lula perdeu antes de perder
Análise · Luciano Aragão Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente. Simone Tebet deixou o Ministério do Planejamento.
Análise · Luciano Aragão
Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente. Simone Tebet deixou o Ministério do Planejamento. As duas saíram do mesmo governo e, segundo o Datafolha, lideram juntas a corrida pelas duas vagas do Senado por São Paulo — com 18% e 16%, respectivamente. A geometria do dado não é acidental.
A leitura imediata é eleitoral: duas ex-ministras de projeção nacional, ambas com histórico presidencial, partem na frente de um campo da direita ainda fragmentado entre Ricardo Salles, com 13%, André do Prado, com 11%, e Guilherme Derrite, com 10%. Mas a leitura mais interessante é política: o governo Lula formou, sem querer, a dupla que pode dominar o Senado paulista em 2026 — e ela não será dele.
Marina e Tebet não saíram do governo em ruptura. Saíram para concorrer. A diferença importa, porque preserva o vínculo difuso com o eleitorado de centro que o PT nunca conseguiu incorporar de vez em São Paulo. Não são dissidentes; são egressas. Essa distinção, no vocabulário eleitoral paulistano, vale pontos — e o Datafolha começa a medir isso.
Na pesquisa espontânea, 81% dos eleitores dizem não saber em quem votar para o Senado. É nesse vácuo que Marina e Tebet já aparecem com 3% e 2%, respectivamente — números pequenos, mas relevantes quando o campo está todo abaixo de 5%.
O cenário estimulado, aquele em que os nomes são apresentados ao respondente, revela uma disputa tecnicamente aberta: Marina empata com Tebet dentro da margem de erro, e Tebet empata com Salles. Dez pontos percentuais separam o primeiro do último colocado entre os seis nomes testados. Em uma eleição de dois turnos sem turno — onde os dois mais votados levam —, esse é o tipo de compressão que faz campanha. Qualquer movimento de 3 ou 4 pontos reorganiza a fila.
A direita, por sua vez, ainda não fechou seu segundo nome. O campo bolsonarista testa André do Prado e Derrite sem ter decidido quem acompanha Salles. Essa indefinição, neste momento, é menos um problema estratégico do que um sintoma: o grupo ligado ao ex-presidente preso ainda não encontrou o critério de escolha que não passe por Brasília — e Brasília, neste caso, é uma cela no Complexo Penitenciário da Papuda.
Há um detalhe que os números não capturam, mas que a trajetória das duas candidatas sugere: Marina Silva e Simone Tebet têm capital de moderação — são lidas como não-radicais por segmentos que desconfiam tanto do PT quanto do bolsonarismo duro. Em um estado onde o eleitorado de centro é volumoso e volátil, esse posicionamento vale mais do que filiação partidária. O Rede e o MDB, sozinhos, não explicam os números. A percepção de independência, sim.
A eleição é em outubro de 2026. Quinze meses é tempo suficiente para o quadro virar duas vezes. Mas há uma conclusão que este Datafolha já autoriza: o governo Lula, ao perder duas ministras para o Senado, pode ter ajudado a eleger duas senadoras que não responderão a ele.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Marina e Tebet lideram pesquisa para Senado em São Paulo
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · CNN Brasil