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O segundo em que o zagueiro não sentiu as pernas

Análise · Marcos Tibúrcio A imagem na tevê não faz justiça. Na tela, é só mais uma bolada, um lance bruto do jogo.

O segundo em que o zagueiro não sentiu as pernas
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Análise · Marcos Tibúrcio

A imagem na tevê não faz justiça. Na tela, é só mais uma bolada, um lance bruto do jogo. Um chute de Lucas Taverna, do Coritiba, que encontra o maxilar de Luan Peres, zagueiro do Santos. O corpo desaba. O replay, frio e clínico, mostra o couro contra o osso, um encontrão violento, mas corriqueiro. Um lance que se perde em meio a tantos outros numa noite de futebol. Para quem estava no estádio, porém, o tempo parou.

A arquibancada, antes um vulcão de cornetas e xingamentos a um time que perdia por 3 a 0 no intervalo, emudeceu. O som que restou foi o da sirene. A ambulância entrando em campo é a materialização do medo de todo jogador, de todo torcedor. É o momento em que o jogo para de ser jogo e vira outra coisa. Vira vida.

Luan Peres, que entrou em campo para dar ordem à defesa, durou oito minutos. E nesses oito minutos viveu o drama que a câmera não capta. Ele mesmo confessou, depois: vendo o vídeo, não pareceu tão grave. Mas ali, na grama, foi mil vezes pior. O médico explicou o mecanismo do corpo, o cérebro que se agita dentro do crânio como um badalo num sino e “desliga” por um instante. A ciência do nocaute. A mesma que derruba um peso-pesado no ringue.

Foi essa batida que foi na região onde o lutador leva um soco.

Mas o boxeador cai sabendo onde está. O que apavorou Luan Peres não foi o desmaio, a breve escuridão. Foi o que veio depois, no primeiro instante de consciência. A frase que ele sussurrou para o médico, enquanto o estádio prendia a respiração: "Doutor, não sinto minhas pernas".

Ali, por um segundo, o futebol acabou. Não havia mais Santos, nem Coritiba, nem placar. Havia um homem testando os limites do próprio corpo, confrontando um terror ancestral. A sensação voltou logo depois, um alívio que nenhuma defesa de pênalti pode proporcionar. Mas a cicatriz daquele instante fica. É a memória de que a distância entre o herói de chuteiras e o homem frágil é de apenas uma bolada.

Pode um chute no rosto ensinar mais sobre coragem do que um gol no último minuto?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Luan Peres desmaia em campo após bolada no rosto na Neo Química Arena

Fonte: ge