O sangue anônimo no estreito de Bab el-Mandeb
Análise · Clara Verdi Três corpos, um navio cargueiro de bandeira tanzaniana e o nome de um estreito que parece saído de um conto antigo: Bab…
Análise · Clara Verdi
Três corpos, um navio cargueiro de bandeira tanzaniana e o nome de um estreito que parece saído de um conto antigo: Bab el-Mandeb, a Porta das Lamentações. Para dois paquistaneses e um indonésio a bordo do Tihamah, a lamentação foi a última. Morreram ali, na terça-feira, vítimas de um míssil Houthi que não os tinha como alvo, mas que os encontrou mesmo assim. Eram apenas a tripulação. A força de trabalho anônima que move as artérias do comércio global, sacrificada em um conflito cuja gramática geopolítica lhes era, muito provavelmente, indiferente.
O ataque não é um raio em céu azul. É a consequência lógica, e sangrenta, de uma declaração de bloqueio feita pelos Houthis em julho, uma fratura exposta na guerra civil iemenita que já dura mais de uma década. Desde que o cessar-fogo de 2022 se desfez em pó, o Iêmen voltou a ser o que sempre foi nos cálculos das potências: um tabuleiro onde se movem as peças de Riad e Teerã. Os Houthis, que controlam a capital Sanaa e o norte do país, são o braço armado dos interesses iranianos na região; do outro lado, o governo reconhecido internacionalmente sobrevive com o apoio saudita. É a velha história, contada com novas armas.
O que se joga em Bab el-Mandeb, contudo, transcende a tragédia iemenita. O estreito é a segunda rota mais importante para o petróleo do Oriente Médio, superado apenas por Ormuz. É um ponto de estrangulamento. Um ataque ali não é apenas um ato de guerra local; é uma mensagem cifrada para os mercados, para as seguradoras em Londres, para os governos em Washington e Pequim. É a demonstração de que um grupo entrincheirado nas montanhas do Iêmen pode, com um míssil, fazer sentir seu peso na economia mundial. Cada petroleiro que recalcula a rota, cada prêmio de seguro que sobe, é uma vitória para quem dispara do continente.
Enquanto o mundo discute as implicações para o preço do barril, os corpos dos três tripulantes do Tihamah iniciam sua longa e burocrática viagem de volta para casa. Eram os rostos que não veremos, os nomes que não lembraremos. Eram apenas o custo humano, a nota de rodapé na crônica de uma guerra por procuração.
Quantos mais precisarão morrer para que um ataque no Mar Vermelho deixe de ser um dado econômico e volte a ser o que sempre foi: uma carnificina?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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