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O Rio Grande do Sul ainda seca; a frente fria já chega

Análise · Luciano Aragão A frente fria tem data marcada: quinta-feira, 16 de julho.

O Rio Grande do Sul ainda seca; a frente fria já chega
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Análise · Luciano Aragão

A frente fria tem data marcada: quinta-feira, 16 de julho. O Instituto Nacional de Meteorologia publicou aviso de perigo potencial para tempestades abrangendo o oeste e o sul do Rio Grande do Sul. Entre sexta e sábado, o alerta se expande para praticamente todo o estado, incluindo a Região Metropolitana de Porto Alegre. Rajadas entre 60 e 100 km/h e possibilidade de granizo completam o quadro. Não é exagero institucional. É a descrição técnica de um sistema que ainda está se formando.

O mecanismo central tem nome pouco conhecido fora dos boletins meteorológicos: Jato de Baixos Níveis, o JBN. Trata-se de uma corrente intensa de ventos que percorre o interior da América do Sul entre um e três quilômetros de altitude, transportando ar quente e úmido da Amazônia em direção ao Centro-Sul do continente. Quando esse fluxo encontra sistemas frontais vindos do sul, a instabilidade atmosférica se intensifica de forma expressiva. O Inmet descreve o processo sem eufemismos: o episódio previsto para esta semana deve contar com atuação intensa do JBN sobre a Região Sul.

Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, acrescenta uma variável que raramente aparece na cobertura jornalística do fenômeno: a frente fria não vai embora depressa. Ela deve ficar estacionária até provavelmente segunda-feira. "Vão ser vários dias consecutivos de chuva", disse Seluchi. "Os volumes totais são relativamente importantes." Dias consecutivos de chuva sobre um estado que ainda carrega as marcas da catástrofe de maio de 2024 têm implicações que dispensam adjetivo.

O Rio Grande do Sul não terminou de reconstruir o que a água levou. A próxima leva de água já tem previsão de chegada.

Seluchi pondera, com precisão científica que deveria ser reproduzida com mais frequência, que em pleno inverno o transporte de umidade amazônica para o Sul é menos expressivo do que nas estações quentes. "Esse transporte nesta época não é tão importante, embora vai ter sim uma certa influência." A ressalva importa: o JBN não é o protagonista isolado do episódio. É o fator que potencializa um sistema frontal que, por si só, já seria preocupante.

O que torna a situação estruturalmente delicada não é a tempestade em si. Sistemas frontais no inverno gaúcho não são raridade. O que muda é o contexto em que esse sistema chega: infraestrutura de drenagem ainda comprometida em diversas cidades, populações desalojadas em abrigos provisórios, encostas sem cobertura vegetal adequada após o evento do ano anterior. A chuva incide sobre território já fragilizado, e frente fria estacionária por dias consecutivos é exatamente o tipo de cenário que transforma volume de precipitação acumulado em risco de desastre secundário.

Os alertas existem. O Inmet publicou. O Cemaden monitorou. O que se testa agora é a capacidade de resposta dos governos estadual e municipais — e a memória institucional de um estado que, catorze meses atrás, aprendeu da forma mais dura o que acontece quando a estrutura de gestão de risco chega tarde.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Sul do Brasil enfrenta alerta de tempestades a partir de quinta-feira

Fontes: g1 · BBC News Brasil