O retrato de um eleitorado dividido em dois
Análise · Beatriz Fonseca Um governo em exercício e um governo da memória disputam o mesmo eleitor no Distrito Federal.
Análise · Beatriz Fonseca
Um governo em exercício e um governo da memória disputam o mesmo eleitor no Distrito Federal. A primeira pesquisa do instituto Datafolha após o registro das candidaturas, realizada entre 18 e 21 de agosto, coloca a governadora Celina Leão (PP), com 30% das intenções de voto, e o ex-governador José Roberto Arruda (PSD), com 28%, em uma posição de empate técnico. A margem de erro da pesquisa (TSE: DF-07561/2026 e BR-02094/2026) é de três pontos percentuais.
Os números desenham um cenário de cristalização. De um lado, a máquina governamental e o reconhecimento do cargo, que dão a Celina uma liderança isolada na pesquisa espontânea — aquela em que o nome dos candidatos não é apresentado. Nesse cenário, ela marca 21%, contra 12% de Arruda. É o poder do cargo em sua forma mais primária: o nome que vem à mente. Do outro, a lembrança de uma gestão anterior, que faz Arruda crescer quando seu nome é formalmente apresentado ao eleitor, quase anulando a vantagem da incumbente.
O dado mais revelador, em minha leitura, está na rejeição. Ambos os líderes também empatam nesse quesito, com 32% dos eleitores afirmando que não votariam em Celina, e 30% dizendo o mesmo de Arruda. É um patamar elevado para os dois nomes que abrem a corrida. Sugere que o crescimento de ambos depende de convencer um eleitorado que, hoje, já tem uma opinião firmada — e negativa — sobre eles. Não se trata de uma disputa por corações e mentes abertos, mas de uma batalha pela conversão dos céticos ou pela mobilização dos já convencidos.
Enquanto isso, Leandro Grass (PT), com 11% das intenções de voto, ocupa um espaço próprio, mas distante dos líderes. Sua rejeição de 19% é consideravelmente menor, o que em tese lhe daria um teto mais alto para crescer. A questão é se existe tempo e estrutura política para transformar essa menor resistência em voto efetivo, especialmente em um ambiente onde, segundo o próprio Datafolha, 39% dos eleitores se identificam como bolsonaristas e 25% como petistas. Os 28% que se declaram "não alinhados" serão o campo decisivo.
É evidente que este é apenas o primeiro retrato de uma campanha que ainda não ocupou as ruas de fato. A estrutura partidária, o tempo de televisão e os eventos imprevistos podem alterar essa fotografia. Contudo, o que os dados indicam neste momento não é uma escolha entre projetos de futuro, mas uma arbitragem sobre o presente e o passado.
Resta saber se Brasília escolherá a continuidade do que tem ou a memória do que já teve.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Datafolha aponta empate entre Celina Leão e Arruda no DF
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil