O reencontro em Trabzon
Análise · Marcos Tibúrcio Há amizades que o futebol faz e o tempo não desfaz.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há amizades que o futebol faz e o tempo não desfaz. Outras, o dinheiro aparta e o tempo, com seu humor de carrasco, reagrupa no lugar mais inesperado. Fabinho e Mohamed Salah voltam a dividir um vestiário. Não em Liverpool, onde ouviram a plenos pulmões o hino da Liga dos Campeões e levantaram o troféu. Não no Catar, onde um defendeu o Brasil e o outro esteve ausente com seu Egito. A nova casa da dupla é o Trabzonspor, na Turquia.
O futebol tem dessas ironias. No momento em que as seleções do mundo se engalfinham por um lugar na história, dois homens que já a escreveram acertam seu futuro longe dos holofotes da Copa. Salah, o Faraó, chegou antes. Deixou Anfield como quem se despede da própria casa e, livre, assinou. Já estreou, já marcou dois gols, já lembrou a todos que o ofício de balançar a rede não envelhece. A arquibancada turca descobriu o que a do Liverpool soube por anos: há jogadores que, sozinhos, pagam o ingresso.
Agora chega Fabinho. O volante, um dos pilares daquele time de Klopp que assombrou a Europa, vem da Arábia Saudita. O contrato com o Al-Ittihad terminou e ele também ficou livre. Um jogador de Copa do Mundo, um marcador implacável, o pêndulo que dava equilíbrio à vertigem de Mané e Salah, desembarca na mesma cidade portuária de seu velho parceiro. O que une os dois, hoje, não é a ambição de conquistar o mundo, mas talvez a de encontrar um último palco digno.
O torcedor que olha a tabela, a planilha, o valor de mercado, talvez veja decadência. É uma leitura, e não de todo desonesta. A Turquia não é o topo da pirâmide. Mas quem vê o jogo pelo drama entende a cena: dois veteranos que, podendo escolher o retiro dourado de qualquer continente, decidem se juntar para uma última aventura. Um pacto silencioso, talvez. Uma sociedade refeita para provar que a bola ainda pune e premia por seus pés.
Em Liverpool, a missão era a glória. Na Turquia, o roteiro é outro, mais sutil. É sobre a dignidade do fim. Sobre olhar para o lado e ver um rosto que conhece a cicatriz de cada batalha vencida e, principalmente, de cada guerra perdida. A Copa do Mundo continuará sem eles nos gramados da América. Mas, na Turquia, um pequeno campeonato particular recomeça. Quantos gols e desarmes ainda restam naquela antiga parceria?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge