Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

O que não vemos nos rins

Análise · Dra. Camila Torres Um órgão que se cala é um órgão que trai. Os rins, quando começam a falhar, o fazem em silêncio.

O que não vemos nos rins
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

Um órgão que se cala é um órgão que trai. Os rins, quando começam a falhar, o fazem em silêncio. Sem dor, sem alarde, a função renal se deteriora progressivamente até o ponto em que apenas uma máquina pode substituir o que o corpo já não faz. É nesta etapa tardia, a da terapia renal substitutiva, que costumamos encontrar o paciente com doença renal crônica (DRC). O problema é que, para cada um dos mais de 170 mil brasileiros em diálise, há dezenas de outros que caminham na mesma direção sem saber.

A doença renal crônica já afeta cerca de 10% da nossa população, ou 20 milhões de pessoas, muitas delas sem diagnóstico. Uma pesquisa recente, publicada no Brazilian Journal of Nephrology por um consórcio de instituições que inclui a PUC-Paraná e a Universidade Estadual de Campinas, ilumina uma falha que não está no órgão do paciente, mas na rotina do consultório. Os pesquisadores avaliaram mais de 14 mil prontuários de pacientes de alto risco — diabéticos e hipertensos, os candidatos mais prováveis à DRC — e buscaram por dois exames simples: a dosagem de creatinina no sangue e a pesquisa de albumina na urina (albuminúria). Juntos, eles formam o retrato mais fiel do início da injúria renal.

O que encontraram foi um vazio. Menos de 5% dos pacientes que fizeram o exame de creatinina tiveram a albuminúria solicitada. Pense no que isso significa na prática. É como um cardiologista que mede a pressão arterial, mas ignora o colesterol. A creatinina sozinha conta apenas parte da história. A perda de proteína na urina é, muitas vezes, o primeiro sinal de que os filtros renais estão sob estresse. Sem esse dado, a janela de oportunidade para intervenções que podem retardar ou mesmo evitar a diálise se fecha.

O mais preocupante é que a inércia parece resistir ao conhecimento. Mesmo após uma campanha nacional de rastreamento, o percentual de solicitação conjunta dos exames mal chegou a 7%. A barreira não é tecnológica nem financeira; parece ser cultural, um hábito clínico arraigado na prática de milhões de atendimentos. Em dez anos de SUS, vi o padrão se repetir: diante da cascata de demandas de um paciente com múltiplas comorbidades, o foco se volta ao que é agudo, ao que dói. O rim silencioso espera.

A Organização Mundial da Saúde projeta que a DRC será a quinta principal causa de morte global até 2040. Se não ouvirmos o que os exames mais básicos nos dizem, continuaremos a descobrir a doença apenas quando o silêncio dos rins for rompido pelo som das máquinas de diálise. Quantas histórias poderiam ser diferentes se aprendêssemos a diagnosticar não apenas a doença, mas a nossa própria inércia?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Estudo alerta para subdiagnóstico de DRC no Brasil

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.