Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

América Latina divide posições sobre modelo de segurança de Bukele

Análise sobre as lições — e resistências — que países latino-americanos extraem da política de segurança do presidente salvadorenho Nayib Bukele.

América Latina divide posições sobre modelo de segurança de Bukele

Análise · Clara Verdi

Há uma cena que os admiradores de Nayib Bukele gostam de repetir: milhares de homens de cabeça raspada, em calção branco, enfileirados no chão de concreto da CECOT, a megaprisão inaugurada em 2023. A imagem circula nas redes com a velocidade de um slogan. O que não circula com ela é o contexto que a precede — décadas de abandono estatal, de gangues que preencheram o vácuo onde deveria haver políticas públicas, de uma violência que o próprio Estado salvadorenho ajudou a produzir por omissão e, em muitos casos, por cumplicidade ativa.

Que líderes de direita na América Latina e na Europa estejam adotando o modelo Bukele como referência eleitoral não surpreende. Surpreende, talvez, a velocidade com que isso acontece — e a superficialidade com que o modelo é absorvido. O que se exporta não é uma política de segurança pública. É uma estética do poder punitivo. A câmera lenta sobre os presos, a farda, o silêncio forçado como prova de ordem: trata-se de uma mise-en-scène, e é precisamente como mise-en-scène que ela funciona politicamente.

A popularidade de Bukele entre eleitores latino-americanos precisa ser levada a sério — não celebrada nem descartada, mas entendida. Durante anos, famílias inteiras viveram reféns de estruturas criminosas que o Estado não conseguia ou não queria combater. Quando alguém aparece com a disposição de agir, mesmo que com métodos que violam garantias fundamentais, essa disposição encontra terreno fértil. O erro analítico da esquerda regional foi tratar esse apoio popular como falsa consciência. É um apoio real, fundado em experiências reais de medo e abandono.

O problema não é que Bukele seja popular. O problema é o que se perde quando sua política se reduz a imagem — e o que se acrescenta quando ela é adotada por contextos radicalmente diferentes do salvadorenho.

El Salvador tem uma história específica: o acordo secreto com as gangues, revelado durante o próprio governo Bukele, as detenções em massa que incluíram pessoas sem qualquer ficha criminal, o regime de exceção que suspendeu garantias constitucionais por meses a fio. Nenhum líder que cita Bukele como modelo cita esse capítulo. Exporta-se a fotografia, não o dossiê.

Da perspectiva europeia — onde a direita radical também absorve esse vocabulário — o fenômeno tem uma camada adicional. A Europa conhece bem o percurso histórico que vai da exceção normalizada à erosão institucional sistemática. Conhece porque já percorreu esse caminho no século passado. O que se observa hoje não é a repetição mecânica daquele percurso, mas tampouco é algo inteiramente novo: é a sedução antiga do Estado que resolve pelo silêncio o que não resolveu pela política.

O dado mais revelador não é que a direita adote Bukele. É que o centro, em vários países, não oferece alternativa crível ao medo que Bukele soube nomear. Enquanto isso não mudar, a CECOT continuará sendo, para muitos, não um símbolo de autoritarismo, mas de resposta. E imagens que funcionam como resposta são muito mais difíceis de contestar do que ideias.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Megaprisões de Bukele viram referência para direita na América Latina

Fontes: g1 · BBC News Brasil