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Trump ignora custo da guerra que chamou de paz

A gramática das guerras americanas começa sempre pelo orçamento. Análise de Clara Verdi sobre o real preço dos conflitos.

Trump ignora custo da guerra que chamou de paz

Análise · Clara Verdi

Há uma gramática específica nas guerras americanas, e ela começa sempre pelo orçamento. Antes do memorando, antes do discurso, antes da bandeira hasteada sobre os destroços, vem o pedido ao Congresso. É assim desde o Vietnã, desde o Golfo, desde o Afeganistão. O que Trump enviou ao Legislativo nesta quarta-feira — entre US$ 67 bilhões e US$ 88 bilhões, dependendo de qual veículo você lê, o que já diz algo sobre a opacidade da operação — é, portanto, um documento antes político do que militar. É a formalização retroativa de uma escolha que já foi feita.

O secretário Pete Hegseth disse ao Congresso que a verba serve para cobrir custos operacionais e repor estoques de munição. A linguagem é burocrática por design. "Custos operacionais" é o eufemismo que o Pentágono usa quando não quer dizer o que comprou, quando comprou e em que quantidade usou. Repor estoques significa que os estoques foram usados. O que Trump está pedindo não é dinheiro para uma guerra futura — é o troco de uma guerra que já aconteceu.

O dado mais revelador não está no número, mas no timing. O Senado americano aprovou, em paralelo, uma resolução que obriga o presidente a obter aval do Congresso antes de qualquer ataque ao Irã. Dois movimentos simultâneos e contraditórios: o Executivo pede dinheiro para cobrir o que fez, o Legislativo tenta recuperar o controle sobre o que pode vir a ser feito. Esta é a fissura institucional real — não o valor da suplementação, mas a sequência invertida em que ela aparece.

Uma democracia que aprova a verba de guerra depois do disparo e vota o controle institucional depois da operação está, a rigor, performando a fiscalização sem exercê-la.

Da Europa, onde os aliados da OTAN ainda processam o que a administração Trump significa para o equilíbrio atlântico, o pedido orçamentário será lido com a atenção ansiosa de quem depende do guarda-chuva americano mas não quer ser puxado para dentro da tempestade. O Irã não é uma questão europeia da mesma forma que é americana ou israelense — mas o preço do petróleo, a instabilidade no Mediterrâneo e a pressão migratória que qualquer escalada regional produz são problemas com endereço europeu.

O que fica, desta quarta-feira, é uma cena que a gramática das guerras americanas conhece bem: o Congresso reunido para votar dinheiro que já foi gasto, numa guerra que ninguém declarou formalmente, contra um inimigo cujo tamanho real do dano ainda não foi auditado por nenhuma fonte independente. Trump chamou de necessidades urgentes. Urgentes eram, sem dúvida. A questão é para quê — e quem decide isso, afinal, nessa república que ainda se apresenta ao mundo como modelo.

Clara Verdi, correspondente Europa — Xaplin

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump pede ao Congresso bilhões para necessidades ligadas ao Irã

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · CNN Brasil