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O pluviômetro e o calendário

Análise · Luciano Aragão Em Quaraí, cidade de 23 mil habitantes na fronteira com o Uruguai, choveu o equivalente a 159,8 milímetros em 48 horas.

O pluviômetro e o calendário
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Análise · Luciano Aragão

Em Quaraí, cidade de 23 mil habitantes na fronteira com o Uruguai, choveu o equivalente a 159,8 milímetros em 48 horas. É um número. Como outros que a Defesa Civil do Rio Grande do Sul compilou nesta segunda-feira (20): 43 municípios com danos, 19 desalojados, ventos de 97,9 km/h em Santa Vitória do Palmar. Para a burocracia, são os registros que disparam alertas, mobilizam equipes e, eventualmente, liberam recursos. Para o estado, são a trilha sonora de uma crise que se recusa a virar passado.

A tragédia gaúcha de abril e maio, com sua escala de destruição bíblica, criou uma nova métrica para o desastre. Vistos por essa lente, os 19 desalojados de agora parecem um evento menor, quase um ruído de fundo. O problema é a persistência do ruído. As tempestades, o granizo e os ventos que derrubam árvores e destelham casas não são uma nova catástrofe. São um sintoma da mesma doença, em manifestação crônica.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), obedecendo a seus protocolos, elevou o aviso para laranja — perigo — em áreas que incluem a região metropolitana de Porto Alegre. Para o restante do estado e o litoral sul de Santa Catarina, o alerta é amarelo, de perigo potencial. A meteorologia trabalha com probabilidades e modelos. A política deveria trabalhar com as certezas que se acumulam no chão.

A certeza é que o clima não oferece mais tréguas. A reconstrução do Rio Grande do Sul, um esforço que consumirá anos e cifras ainda incalculáveis, será feita sob a mesma instabilidade que causou a destruição original. Não há um "depois da tempestade", porque a tempestade se tornou o ambiente. Cada novo relatório da Defesa Civil, por mais contido que pareça em comparação com o caos de semanas atrás, é um lembrete. O desafio não é reerguer o que caiu. É reerguer de uma forma que resista ao próximo temporal, que já está marcado no calendário da natureza, não no dos homens.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Chuvas e granizo afetam 43 municípios no Rio Grande do Sul

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.