O Planalto ouve uma aposta que a sociedade já perdeu
Análise · Beatriz Fonseca Cento e sessenta e seis vezes.
Análise · Beatriz Fonseca
Cento e sessenta e seis vezes. Essa foi a multiplicação da demanda por atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas viciadas em apostas. O número foi levado ao Palácio do Planalto nesta terça-feira, dia 1º, pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Em uma reunião convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a cifra — de 600 para 100 mil atendimentos mensais — serviu como métrica do tamanho de um problema que o governo federal agora se propõe a resolver. A questão não é mais se o Estado deve regular, mas como ele conterá um dano que já se instalou.
A audiência com a sociedade civil foi, em si, um ato político. Em vez de uma discussão restrita a técnicos da área econômica e parlamentares, o presidente abriu o Salão Leste para ouvir sobre inadimplência no comércio, sobre a filha de um participante endividada com um agiota. Estavam presentes seis ministros, da Casa Civil à Justiça, sinalizando que a abordagem será interministerial. Ao declarar que ouviria a sociedade “antes de tomar uma solução definitiva”, Lula reconhece que o debate sobre as apostas eletrônicas transbordou a planilha de arrecadação e se tornou uma pauta de saúde pública e segurança.
O governo, portanto, se move. Mas se move em um terreno onde a realidade avançou muito mais rápido que a capacidade de resposta institucional. Enquanto o Executivo e o Legislativo debatiam os termos da regulamentação, o vício em apostas se disseminava a ponto de justificar uma proposta de resolução na Organização Mundial da Saúde (OMS), com apoio de países como Espanha e Canadá. O ministro Padilha informou que 55% dos que buscam ajuda no SUS são mulheres, um dado que contraria a percepção de que o universo das apostas é predominantemente masculino. Ele revela uma face menos visível do problema.
Minha leitura é que a reunião desta terça-feira tem menos o propósito de diagnóstico e mais a função de legitimar uma decisão que o governo já considera inadiável. As falas dos representantes da sociedade civil — que pediram até a proibição — e os dados da Saúde oferecem a base social para uma ação mais dura do que a simples tributação. A sugestão de criar uma secretaria extraordinária para o combate às bets ilegais aponta para um caminho de maior intervenção. O que ainda não está claro é o apetite político para transformar o apelo da sociedade civil em política de Estado, sobretudo diante da força econômica do setor.
O presidente prometeu uma decisão para esta semana. Seja qual for, ela chegará com atraso. Chegará para um país onde 100 mil pessoas por mês já procuram o sistema público para tratar uma dependência que, até pouco tempo atrás, mal tinha nome na agenda governamental. A pergunta que a reunião no Planalto deixa em aberto não é o que o governo fará sobre as bets, mas o que ele pode realisticamente fazer por quem já apostou e perdeu.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Lula ouve sociedade civil sobre bets no Planalto
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.